Thursday, June 22, 2017

TODAS AS GENERALIZAÇÕES SÃO FALÍVEIS - Rosário Breve n.º 511 in O RIBATEJO de 22 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt





Todas as generalizações são falíveis





1. O título desta crónica é uma sandice voluntária. Uma necedade. Uma parvoíce, enfim. Será isso tudo – mas não destoa no e do indigente coro geral de atoardas das televisões e das redes sociais da modernidade.
Vivemos tempos reles. Qualquer careta de bicho é chamada ao altar de néon a bolçar as mais banais e mais venais inanidades seja sobre o que for. Porque em tudo isto há uma coisa que não falha, nunca falha: seja qual for o assunto, Portugal é só especialistas – a clínica geral é que é o carago.
Toda uma frenética galeria de zés-ninguéns & marias-nenhumas se acotovela nos corredores dos estúdios e/ou empertiga os bicos das patas nos directos de rua. Tudo passarocos de arribação que, aos olhos da parvónia deles, precisam desesperadamente de ser alguém por quinze segundos. Feito tal, é só copiar o link e esborrachá-lo no Face ou no Twitter. Para quê? Para mais quinze segundos de much ado about nothing, que é como quem diz postas de pescada arrotadas pelo buraco errado do corpo.

2. Os jornais competem na mesma liga. As revistas? Preferível nem delas falar. Estas e aqueles são mal concebidos, mal pensados, mal escritos – e decerto mal intencionados. Clonam-se uns das outras, como se o peixe tivesse preferência quanto a papel de embrulho. O 'jornalixo' tuga é para
o que canadair e vier.
Resta o último bastião: a livralhada. Esta, sim. A livralhada fica. A livralhada vale. Está tudo ali, na livralhada. Toda a livralhada? Não. Não, não vou repetir a boçalidade do título da crónica. Alguma livralhada sim, felizmente muita. Tanto lusa como das estranjas. Mas restrinjamo-nos à lusa. A gente quer Portugal? Eça. A gente quer a cor? Raul Brandão. A gente quer aventura, risco, guerra, sexo, diáspora, epifania, desamparo? Camões. A gente quer risota, escárnio, lucidez, auto-retrato colectivo? Gil Vicente. A gente quer andar aí pelo que, mais do que nosso, somos nós? Garrett. A gente quer na mesma o Correio da Manhã mas em bom? Camilo. A gente quer todos os sonhos de toda gente e mais alguma num corpo só? Pessoa.

3. Diacho. Estraguei a crónica toda. Dou por mim na rua com uma braçada de livros de que ninguém sabe ter necessidade. Pareço os pares de velhas evangelistas, por esses jardins municipais, apontando ao peito do transeunte a pistola de um deus de folheto em ortografia brasuca. A verdade é que nem o escriturário Pessoa, nem o polígrafo Camilo, nem o fino Garrett, nem o sacana de Mestre Gil, nem o zarolho Luiz Vaz, nem o major Brandão, nem o divino José Maria – nem as mãezinhas deles – nos fazem sentido, quanto mais falta. Estamos bem assim, estamos todos muito bem assim, diplomados à pressa todos por um 12.º instantâneo-nova-oportunidade de falcatrua. Até por isto: entre o analfabetismo de há cinquenta anos e o de agora, a diferença está na password, que antigamente era de X-cruz-X e hoje é mais coiso tipo username.

4. E remédio para esta moléstia? Não há. Isto aqui não é a farmácia: nem tenho de tudo, nem sou de receitas falsas. Não há como fazer entender à Judite que aquele cadáver no chão das suas costas é tão digno de dor como de pudor. Não há. Há tão-só o deserto de quase tudo no quase-nada da nossa vida. Aqui, refiro-me à dupla face da moeda: a portátil, que é a nossa vida individual; e a gregária, que é a nossa vida d’enquanto Portugueses. Sobre esta, Eça. Sobre a outra, cada um trate da sua.
5. Despeço-me por esta semana de lágrimas nos olhos. Não é por sentimentalóidismo. É que me engasguei com a passa do cigarro no parágrafo de passagem do quarto ponto para o quinto – e agora é de tossir, escarrar e arfar de carvão brônquico até que o coração se ajeite lugar na boca. Vale-me ao menos que, ao contrário dos tais outros de arribação, não erro o buraco do corpo.
Mas todos os buracos são falíveis.



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