Thursday, June 15, 2017

INTERVALO(S) À BEIRA-RIO - Rosário Breve n.º 510 in O RIBATEJO de 15 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt






Intervalo(s) à beira-rio




0. Isto que nos leva do nascer ao morrer é tão-só um intervalo entre nada e coisa nenhuma. Posto isto, julgo termos reunidas as condições para haver mais calmex na mioleira. Andarmos de coração de cavalo num peito de periquito, hum, não me parece assisado. O mundo já é doido q.b. sem precisar do nosso subsídio. Isto é paleio de velho, eu sei. Todavia, firmo-o e afirmo-o na mesma. Tenho aprendido alguma coisa à beira-rio.
1. O Fred. Bateu com a porta. Era competente, era dedicado, era assíduo, era pontual, era capaz, era interessado, era o Fred com quem se podia sempre contar. Mas era empregado. Tinha colegas de maior antiguidade. Colegas daquele tipo de instalados na própria mediocridade, de cientistas do “ando-há-muitos-anos-nisto-a-virar-frangos”, militantes do “olha-me-agora-este-ciclista”, práticos do “ai-que-cheiro-ao-leite-deste-caramelo”. Dariam autarcas modelares, os ex-colegas do Fred. Talvez ainda dêem. Em Outubro que vem, se vier.
2. A Vanessa. Enverga unhas de gel escarlate que fazem dela a caricatura da pomba burra. Arqueia o mindinho quando chupa, ai, o cone de gelado. Era para ter ido para enfermeira mas agora a 4.ª Classe de antigamente já não chega para tanto. E no entanto ela lê muito, na família gabam-lhe muito o vício, lê tudo o que for códigos misteriosos, segredos do Vaticano, cenas proféticas & demais pisca-olhos tipo Rodrigues dos Santos. Ainda tentou gostar dos pastelões históricos do Moita, mas ainda hoje confunde os Távoras com o gajo das notas de 500. Ou com aquela tia Ferreirinha dos bailes cor-de-rosa ou coiso ou com’é qu’era.
3. O Anselmo & a Laura. Casados desde aquando mataram o Rei. Ele tem uma colecção de saquetas de açúcar muito jeitosa. O problema foi nunca ter tirado o açúcar das saquetas, modos que a garagem dele é género Pequim versão formigal. Ela, sábado-sim-sábado-não, vai-lhe ao expositor com um spray daqueles tipo casa-e-plantas. Até à segunda-feira seguinte, Pequim torna-se centro histórico de Santarém depois das sete da tarde. Mas lá são felizes à maneira deles. Dali não vem mal ao mundo.
4. O escritor Júlio Diniz. Mentirosão. Em parte alguma há gente tão boa como sequer até a piorzinha dos livros dele? Não há. Penou e finou-se daquela pulmoneira, coitado, depois de muito assobiar sangue. Eu ainda disse à Vanessa que o lesse um bocadito. Qual quê. Não tem cenaça erótica obrigatória à Miguel Sousa Tavares nem pornochanchada p’ra divorciadas tipo sombras-de-grey. Para mais, era do Porto mas sem caralhadas, o que é no mínimo contranatura.
5. O Jolly. Cão do Anselmo. Tem sarna. Coça-se com a pata esquerda de trás num frenesim de bêbado a tentar ligar a motorizada. Deve andar já nos seus dezanove anos. Em idade de cão, e com licença ao respeito, isto fá-lo, muito mais ou menos, contemporâneo em nascimento do passamento do tal autor das Pupilas e da Morgadinha. (– De quem? – grunhe a Vanessa enquanto lacra o dedo dos piretes.) O Jolly é um artista do bocejo. Abre aquela bocarra de céu preto até pontos de se lhe ver por dentro o acordeão das tripas. A língua explode em sonho molhado de solteirona. É maravilhoso. Para mim, o bocejar do Jolly é maravilhoso. E é maravilhoso porque só ele, e mais ninguém, percebe que, quanto e como isto que nos leva do nascer ao morrer é tão-só um intervalo entre nada e coisa nenhuma.
O problema é que depois o programa não segue dentro de momentos, como se via na televisão daquele tempo em que a mera 4.ª Classe era mala-aviada para trabalhar ao pé dos médicos viradores de frangos.


2 comments:

soliplass said...

Sentado num café em Oslo, deliciado com leitura da crónica. Vc escreve das melhores em Portugal, todo o elogio é pouco.

Daniel Abrunheiro said...

Quanta gentileza, Soliplass. Muito grato, fico-lhe muito grato.