Thursday, June 29, 2017

HOMO CUNICULUS HOMINI - Rosário Breve n.º 512 in O RIBATEJO de 29 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt



Homo cuniculus homini





1. Na madrugada do 29.º aniversário de Fernando Pessoa, 14 bombardeiros alemães descolaram de uma base situada algures naquela Bélgica então por eles, alemães, martirizada e ocupada. A meio dessa manhã ominosa, as bombas destruíram uma escola do East End londrino, matando 18 crianças. Pela restante capital britânica, mais 162 súbditos de Sua Majestade Jorge V ganharam direito à eternidade anónima dos cordeiros imolados na ara e na era dos impérios. O bombardeamento de civis é hoje banalíssima coisa de dois minutos entre assuntos de futebol e frivolidades meias-lecas no alinhamento dos noticiários – mas na altura foi excentricidade e aberração que parecia e caiu mal, por nada cavalheiresca nem romântica. O sentimento anti-germânico que já então grassava entre os ingleses tornou-se amotinante fobia xenofóbica, a ponto de a própria Família Real, ela própria geneticamente teutónica, ter de abandonar a pesada nomenclatura dinástica que era a sua para adoptar a hoje ainda vigente. Ou seja: passou a Casa de Windsor ao renegar-se como parente relativa da genealógica House of Saxe-Coburg-Gotha-Hanover-Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg-Hohenzollern.

2. Estes factos de 13 de Junho de 1917 poderiam não ter visto luz nem haver passado à fria História real. Bastaria que o governo britânico de então tivesse como primeiro-ministro, não David Lloyd George, mas Pedro Passos Coelho. O meu raciocínio é simplicíssimo: com o nosso compatriota na posse da chave do n.º 10 da Downing Street, as crianças do East End não teriam escola a que ir – e a Inglaterra do primeiro quartel do século XX subjugar-se-ia sem luta, e com gosto até, aos ditames imperiais e imperiosos da Berlim do Wilhelm II, à exacta imagem & semelhança do que viria a fazer Portugal um século depois aos pés da Berlim da Merkel I. Com o tal Coelho na cartola, claro. Para evitar que a Alemanha nos (dia)rreie morte aérea em cima dos chavelhos, nada como ser muito austeritário, muito obediente, muito “bom aluno”. Numa palavra, muito coelho, não um pouco lobo. Daí o título que encima esta crónica.
3. Agora assim: Passos Coelho é um dos meus cómicos favoritos. Corrijo: Passos Coelho é um dos meus tragicómicos preferidos. Nesta rábula dos suicidas pós-incêndio que afinal se não mataram, o dito senhor foi coerente – ele próprio é, politicamente, um suicídio por confirmar. Usando o mesmo Pessoa que fazia anos a 13 de Junho entre 1888 e 1935, Coelho é um “cadáver adiado”. Só não procria grande coisa. Aquilo não foi uma mera tirada infeliz – aquilo é um modo de vida. E um modo de vida é invariavelmente o que resulta da negociação entre o que somos e o como estamos. As desculpas que depois gaguejou, a mim não me arredaram da profunda repugnância de imediato sentida – nem do invencível asco; nem da psoríase fatal que fatalmente me causa a urticária de politiqueiros destes.

4. Na ética jornalística que ainda pratiquei, suicídio não era notícia, a não ser em casos muito, muito especiais. Exemplo-mor: o caso de Thích Qung Ðc. Foi noutro Junho. Em Saigão, a 11/6/1963, este monge budista imolou-se pelo fogo em público e em protesto contra a orientação religiosa de Ngo Dinh Diem, eminência-parda que era, por assim dizer, o Passos Coelho dos vietnamitas em relação a USAmericanos. Tirante casos destes, suicídio continua a ser matéria merecedora de discreto pudor. A não ser, parece, que um obscuro zé-ninguém de provedoria local de misericórdias com veleidades de candidato laranjinha a autarca nos sopre ao pavilhão auditivo um boato maldoso para arremesso político-partidário. Nesse caso, e para o Coelho, um mexerico sem fundamento é cenoura que baste. Daí a tragifarsa acontecida aos olhos de toda a gente. Enfim: Pedrógão é Grande, Passos Coelho é pequenino. Shame on you, sir.

5. Os mortos e os feridos daquela Londres de Junho de 1917 & os feridos e os mortos nossos de um exacto século depois devem ser-nos credores do maior respeito e da mais assisada e mais condoída discrição. Invoquei-os tão-só para ajudar a destruir uma comédia triste – triste e infeliz e coelhamente portuguesa. Foi por isso que fiz por esfrangalhá-la em tiras e em chiste. É que eu nem em criança, por mais bombocas com que tentassem seduzir-me, fui muito de ir com coelhos e pais-natais ao circo. A barraca é que não pára de vir ter comigo. Mas eu sou homem para gostar mais de pão do que de circo. Daquele pão-nosso-de-cada-dia, não daquele circo que se monta e daquela barracada que se arma sempre & de cada vez que o Cuniculus descerra a abertura anterior do tubo digestivo, vulgo boca.


Thursday, June 22, 2017

TODAS AS GENERALIZAÇÕES SÃO FALÍVEIS - Rosário Breve n.º 511 in O RIBATEJO de 22 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt





Todas as generalizações são falíveis





1. O título desta crónica é uma sandice voluntária. Uma necedade. Uma parvoíce, enfim. Será isso tudo – mas não destoa no e do indigente coro geral de atoardas das televisões e das redes sociais da modernidade.
Vivemos tempos reles. Qualquer careta de bicho é chamada ao altar de néon a bolçar as mais banais e mais venais inanidades seja sobre o que for. Porque em tudo isto há uma coisa que não falha, nunca falha: seja qual for o assunto, Portugal é só especialistas – a clínica geral é que é o carago.
Toda uma frenética galeria de zés-ninguéns & marias-nenhumas se acotovela nos corredores dos estúdios e/ou empertiga os bicos das patas nos directos de rua. Tudo passarocos de arribação que, aos olhos da parvónia deles, precisam desesperadamente de ser alguém por quinze segundos. Feito tal, é só copiar o link e esborrachá-lo no Face ou no Twitter. Para quê? Para mais quinze segundos de much ado about nothing, que é como quem diz postas de pescada arrotadas pelo buraco errado do corpo.

2. Os jornais competem na mesma liga. As revistas? Preferível nem delas falar. Estas e aqueles são mal concebidos, mal pensados, mal escritos – e decerto mal intencionados. Clonam-se uns das outras, como se o peixe tivesse preferência quanto a papel de embrulho. O 'jornalixo' tuga é para
o que canadair e vier.
Resta o último bastião: a livralhada. Esta, sim. A livralhada fica. A livralhada vale. Está tudo ali, na livralhada. Toda a livralhada? Não. Não, não vou repetir a boçalidade do título da crónica. Alguma livralhada sim, felizmente muita. Tanto lusa como das estranjas. Mas restrinjamo-nos à lusa. A gente quer Portugal? Eça. A gente quer a cor? Raul Brandão. A gente quer aventura, risco, guerra, sexo, diáspora, epifania, desamparo? Camões. A gente quer risota, escárnio, lucidez, auto-retrato colectivo? Gil Vicente. A gente quer andar aí pelo que, mais do que nosso, somos nós? Garrett. A gente quer na mesma o Correio da Manhã mas em bom? Camilo. A gente quer todos os sonhos de toda gente e mais alguma num corpo só? Pessoa.

3. Diacho. Estraguei a crónica toda. Dou por mim na rua com uma braçada de livros de que ninguém sabe ter necessidade. Pareço os pares de velhas evangelistas, por esses jardins municipais, apontando ao peito do transeunte a pistola de um deus de folheto em ortografia brasuca. A verdade é que nem o escriturário Pessoa, nem o polígrafo Camilo, nem o fino Garrett, nem o sacana de Mestre Gil, nem o zarolho Luiz Vaz, nem o major Brandão, nem o divino José Maria – nem as mãezinhas deles – nos fazem sentido, quanto mais falta. Estamos bem assim, estamos todos muito bem assim, diplomados à pressa todos por um 12.º instantâneo-nova-oportunidade de falcatrua. Até por isto: entre o analfabetismo de há cinquenta anos e o de agora, a diferença está na password, que antigamente era de X-cruz-X e hoje é mais coiso tipo username.

4. E remédio para esta moléstia? Não há. Isto aqui não é a farmácia: nem tenho de tudo, nem sou de receitas falsas. Não há como fazer entender à Judite que aquele cadáver no chão das suas costas é tão digno de dor como de pudor. Não há. Há tão-só o deserto de quase tudo no quase-nada da nossa vida. Aqui, refiro-me à dupla face da moeda: a portátil, que é a nossa vida individual; e a gregária, que é a nossa vida d’enquanto Portugueses. Sobre esta, Eça. Sobre a outra, cada um trate da sua.
5. Despeço-me por esta semana de lágrimas nos olhos. Não é por sentimentalóidismo. É que me engasguei com a passa do cigarro no parágrafo de passagem do quarto ponto para o quinto – e agora é de tossir, escarrar e arfar de carvão brônquico até que o coração se ajeite lugar na boca. Vale-me ao menos que, ao contrário dos tais outros de arribação, não erro o buraco do corpo.
Mas todos os buracos são falíveis.



Thursday, June 15, 2017

INTERVALO(S) À BEIRA-RIO - Rosário Breve n.º 510 in O RIBATEJO de 15 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt






Intervalo(s) à beira-rio




0. Isto que nos leva do nascer ao morrer é tão-só um intervalo entre nada e coisa nenhuma. Posto isto, julgo termos reunidas as condições para haver mais calmex na mioleira. Andarmos de coração de cavalo num peito de periquito, hum, não me parece assisado. O mundo já é doido q.b. sem precisar do nosso subsídio. Isto é paleio de velho, eu sei. Todavia, firmo-o e afirmo-o na mesma. Tenho aprendido alguma coisa à beira-rio.
1. O Fred. Bateu com a porta. Era competente, era dedicado, era assíduo, era pontual, era capaz, era interessado, era o Fred com quem se podia sempre contar. Mas era empregado. Tinha colegas de maior antiguidade. Colegas daquele tipo de instalados na própria mediocridade, de cientistas do “ando-há-muitos-anos-nisto-a-virar-frangos”, militantes do “olha-me-agora-este-ciclista”, práticos do “ai-que-cheiro-ao-leite-deste-caramelo”. Dariam autarcas modelares, os ex-colegas do Fred. Talvez ainda dêem. Em Outubro que vem, se vier.
2. A Vanessa. Enverga unhas de gel escarlate que fazem dela a caricatura da pomba burra. Arqueia o mindinho quando chupa, ai, o cone de gelado. Era para ter ido para enfermeira mas agora a 4.ª Classe de antigamente já não chega para tanto. E no entanto ela lê muito, na família gabam-lhe muito o vício, lê tudo o que for códigos misteriosos, segredos do Vaticano, cenas proféticas & demais pisca-olhos tipo Rodrigues dos Santos. Ainda tentou gostar dos pastelões históricos do Moita, mas ainda hoje confunde os Távoras com o gajo das notas de 500. Ou com aquela tia Ferreirinha dos bailes cor-de-rosa ou coiso ou com’é qu’era.
3. O Anselmo & a Laura. Casados desde aquando mataram o Rei. Ele tem uma colecção de saquetas de açúcar muito jeitosa. O problema foi nunca ter tirado o açúcar das saquetas, modos que a garagem dele é género Pequim versão formigal. Ela, sábado-sim-sábado-não, vai-lhe ao expositor com um spray daqueles tipo casa-e-plantas. Até à segunda-feira seguinte, Pequim torna-se centro histórico de Santarém depois das sete da tarde. Mas lá são felizes à maneira deles. Dali não vem mal ao mundo.
4. O escritor Júlio Diniz. Mentirosão. Em parte alguma há gente tão boa como sequer até a piorzinha dos livros dele? Não há. Penou e finou-se daquela pulmoneira, coitado, depois de muito assobiar sangue. Eu ainda disse à Vanessa que o lesse um bocadito. Qual quê. Não tem cenaça erótica obrigatória à Miguel Sousa Tavares nem pornochanchada p’ra divorciadas tipo sombras-de-grey. Para mais, era do Porto mas sem caralhadas, o que é no mínimo contranatura.
5. O Jolly. Cão do Anselmo. Tem sarna. Coça-se com a pata esquerda de trás num frenesim de bêbado a tentar ligar a motorizada. Deve andar já nos seus dezanove anos. Em idade de cão, e com licença ao respeito, isto fá-lo, muito mais ou menos, contemporâneo em nascimento do passamento do tal autor das Pupilas e da Morgadinha. (– De quem? – grunhe a Vanessa enquanto lacra o dedo dos piretes.) O Jolly é um artista do bocejo. Abre aquela bocarra de céu preto até pontos de se lhe ver por dentro o acordeão das tripas. A língua explode em sonho molhado de solteirona. É maravilhoso. Para mim, o bocejar do Jolly é maravilhoso. E é maravilhoso porque só ele, e mais ninguém, percebe que, quanto e como isto que nos leva do nascer ao morrer é tão-só um intervalo entre nada e coisa nenhuma.
O problema é que depois o programa não segue dentro de momentos, como se via na televisão daquele tempo em que a mera 4.ª Classe era mala-aviada para trabalhar ao pé dos médicos viradores de frangos.


Thursday, June 08, 2017

MAU TEMPO NO CURRAL - Rosário Breve n.º 509 in O RIBATEJO de 8 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt





Mau tempo no curral




1. O curral me(r)diático nacional é sobrepovoado de “homens da embalagem prateada” e de “rapazes do gongo dourado”. Por assim dizer. São reses pífias, gado repugnante a toda a decência cívica e impermeável ao atavio ético das poucas pessoas-de-bem que ainda por aí haja. A corrupção à portuguesa tinha de ter laivos afrobrasileiros. E tem. O colonialismo não acabou – passou mas foi a ser de lá para cá também, relegando-nos o ultramar ao estatuto de província que nunca deixámos afinal de ser. Mas calma. Nem era disto que queria falar-vos. De Agricultura é que sim.
2. De Agricultura”? Sim. Mesmo? Mesmo. Explicando: tenho andado a ler o Virgílio das Bucólicas, primeiro, e das Geórgicas, logo a seguir. Delícias de há dois mil anos e uns trocos. Sabeis bem que me refiro ao mesmo grande Poeta da épica Eneida. Claro, esse mesmo que amou em Teócrito e Hesíodo o que Dante e Camões amaram nele: o verso perfeito, o diapasão silábico, o frescor pitoresco e a rendida gratidão à Natura-Mater. Esse todo. Mas adiante, que já semelho sacristão sonhando com o vinho eucarístico que sobrou do santo sacrifício.
3. E a Agricultura? Que raio a ver com leiturices clássicas e/ou corrupções pindéricas? Calma. Ter, tem. Tem e cá vai: tanto nas Bucólicas como nas Geórgicas (sobretudo nestas derradeiras), elogia-se vivamente o desprendimento filosófico e a serenidade existencial resultantes da sã interacção, pelo trabalho como pela fruição, com o campo, a vida nele, a sabedoria da observação dos índices meteorológico-sazonais (as estações do ano, pronto), o cultivo de tudo: árvores, solos, sabores e aromas, a maravilha cíclica e ritual da dialéctica sementeira-colheita-poda-vindima. Até o omnipotente instintozinho sexual que faz o gado parecer-se com a gente. Ou nós com ele. E as abelhinhas. Não esquecer as abelhinhas.
4. Sim. OK. Porreirinho. Mas – e portanto? Aquilo da Agricultura o quê? O portanto está em que eu, uma destas manhãs, cedo como se nascesse, me achei achando, aos pés de um contentor juncado, um suplemento em papel daquela coisa digital a que a Direita de cá da parvónia chama Observador. Como sempre faço, colhi do chão o lixo. Preparava-me para o esquecer no odre municipal quando, de viés, o título me cativou: Dicionário dos Grandes Negócios, panfleto com textos de um Luís Rosa e ilustrações de um Henrique Monteiro. Já o não sacrifiquei à voragem benigna da reciclagem. Guardei-o no bornal, cheguei à pastelaria, botei café a ferver para a entranha e fumei como quem nunca há-de morrer a tossir. Tinha ante mim um dilema aparentemente fácil de solver: Virgílio ou o pasquinzito das escandaleiras inocentes-até-trânsito-em-julgado? Fraco, vim por estas. Virgílio, sendo eterno, podia bem esperar um bocadito. Lixei-me. Passei o mor e o melhor da matina a tresler, primeiro, e a sublinhar a fluorescente, depois, o coiso achado no chão. Entradas alfabéticas: Azul (Saco), Bataglia (Hélder), Bava (Zeinal), Espírito Santo (Família), Granadeiro (Henrique), Loureiro (Dias), Salgado (Ricardo), Silva (Carlos Santos), Sócrates (José), Veiga (José) e Vicente (Manuel). [Nota relevantíssima: este rol nada tem a ver com as “embalagens prateadas” nem com os “gongos dourados” do paleio figurado do ponto 1. desta crónica. Cuidado com isso, que não tenho dinheiro para prestidigitadores da vara.] Só que, assim de fulminante repente qual trombose terminal, zás! e zinga! – a Agricultura outra vez.
5. Sim. Ela toda. Foi quando lia o item relativo ao Granadeiro. O Granadeiro, sim, que terá preferido enriquecer a ser Henrique. Foi na pág.ª 7: […] Ricardo Salgado (…) classificou Henrique Granadeiro como um dos grandes sábios portugueses na área agrícola.” É que nem para mais nem por menos: Grande. Sábio. E agrícola. Chiça! Quem? O Henrique? Parece que sim. Parece que sumo mestre de herdades de comportas, fábricas de arrozes, herdades vinícolas, marcas de vinhos capazes de vales de ricos homens e de tapadas de barões. Tudo coisas, hoje, de arresto judicial, infelizmente, mas parece que antes de cornucópica, ou pandórica, maravilha. Fiquei de boca artilhada na quarta vogal. Então e o meu Virgílio ganadeiro ao pé deste Granadeiro épico também? Que desgraçado cotejo me o decepava ali cerce? Calma. Lembrei-me a tempíssimo do resgate. Bucólica Primeira, ali onde, ao pastor Títiro, o colega Melibeu fala pela vez segunda: “Não te invejo, me espanto, pois que tudo/pelo campo é desordem. De que modo!/Eu próprio, já doente, a estas cabras/empurro para a frente e à que tu vês/como custa puxá-la, pois que gémeos/pariu por uma moita e aos dois coitados/os teve de deixar em pedregulhos,/ó perdida esperança do rebanho!”.
6. Sim. Perdida. Digo: a esperança. O rebanho soma, que se não some, e segue, que de borla curral lhe damos. Até trânsito em (jul)gado. Diz a abelhinha.



Thursday, June 01, 2017

COISAS SIMPLICÍSSIMAS - Rosário Breve n.º 508 in O RIBATEJO de 1 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt



Coisas simplicíssimas



1 Junho, aí o temos. Era antigamente um mês claro, lavado, propedêutico da disciplina do Verão. Actualmente, é, como os outros onze seus irmãos, uma época híbrida. As quatro estações, todos o sabemos e reconhecemos, extinguiram-se. Dantes, quase se podia acertar o relógio por elas. Hoje, o gelo e o fogo partilham o mesmo dia em uma espécie de desconcerto global que tanto pode provir da degradação do ozono como das bebedeiras de São Pedro. Tanto dá para tiritar em Agosto como para estrelar ovos no capot do carro em Janeiro. Todavia, não me queixo. O que não tem remédio, remediado está. Suporta-se o que vem. Há coisas que nem a mais fantasiosa imaginação pode contornar. E nós somos criaturas meteorológicas: um luto faz-nos chover os olhos, uma euforia faz-nos dardejar canículas ingénuas e inconsequentes. É como se fôssemos todos, por assim dizer mas não desfazendo, uma espécie de passos-coelhos irremediáveis.

2 Não só o tempo natural é insensato. Santarém faz-lhe companhia, voluntária e/ou não. Agora, é o acesso à rotunda do Cnema. O corte do trânsito na Rua O entre o Retail Park e a sede física deste Jornal parece não ter merecido, aos milhares de “engenheiros” que desmandam cá na chafarica, qualquer veleidade de sinalização. Para quem é, nem bacalhau basta. Estas coisas sérias são tratadas como criancices inimputáveis. A propósito, lembro-me de uma coisa que aprendi quando andava a ganhar o dia nas obras da construção civil. O patrão da obra, verificando que alguém, por desleixo ou preguiça ou incúria ou por tudo isto junto, procedia incorrectamente, atirou a moralidade antes que houvesse mais história: “Ó carago, olha que demora mais tempo o fazer mal do que o fazer bem logo à primeira!”. Infelizmente, não me consta que ele concorra às autárquicas scalabitanas próximas.

3 Enfim. Se calhar, tudo isto é embirranço meu. Talvez seja. Não é grave. Eu nem costumo andar de carro pela formosa e desprezada capital do Ribatejo. Quando aí vou, vou de cavalo rodoviário. À saída da gare, boto-me a pé por praças e vielas. Vou gostando muito daquilo ali e tendo muita pena daqueloutra acolá. Aproveito os grandes ares do planalto. Sinto lá longe a pulsação do Tejo. Encontro gente que é como eu, ao mesmo tempo que faço por ser gente como ela. E confesso: tenho tido muita e muito boa sorte com o maralhal de Santarém. Como não frequento as sessões camarárias, o mais é pessoal decente, malta bípede que pensa de pé pela própria cabeça, usando a boca para dar janela ao que na cabeça se congemina. É mesmo assim como digo. Nas horas mais sós, ambulo sem pressa nem acertado destino em périplo aleatório. Vou no vento, gracejo nas tabernas, cheiro a fruta da hora, miro as esplendorosas mulheres dos outros. Sinto-me português em portuguesa terra: português para o bem e para o assim-assim, que o mal, como dizia o patrão da obra, leva mais tempo a fazer.
Leva mais tempo a fazer – e é tempo perdido. Bastar-nos-iam, a todos nós, estas duas coisas simplicíssimas: sinalizar aquela porra do acesso à rotunda do Cnema – carago! – e obrigar Junho a voltar a ser a criança alta e loira que já foi. E outro Verão nos assoalharia sem tempo a perder.