Thursday, April 20, 2017

ROSÁRIO BREVE N.º 502- in O RIBATEJO de 20 de Abril de 2017 - www.oribatejo.pt




É perguntar ao David, talvez




Tenho sonhado mais, ultimamente. Não são pesadelos nem delícias. São farrapos de lucidez entremeada de desconcerto. Algumas pessoas, apesar de mortas, passeiam-se-me pelas arcadas do inconsciente como se aquilo de terem vivido tivesse afinal solução – e continuidade. Outras, apesar de vivas, parecem não crer que as vivo, que as tenho em conta, as considero já tão santas como se me houvessem morrido.
Não sei. Desperto a meio caminho de nenhures, provindo de lado nenhum. De volta, a consciência não me traz especial reconcertação para com a realidade. Vogo. Estendo a garra mole para a cabeceira, onde os óculos cegaram toda a noite. Os joelhos rangem como dobradiças de mosteiro. Uma orelha quente, outra gelada. A bexiga, despontando costuras. A espinha, retesa qual cordame náutico. Iça-me a grua do tem-de-ser. Viro a página do lençol com brusquidão de leitor ingrato. O elástico da cinta do pijama já nem para cingir réstias de alhos serve. Uma pantufa, fiel, escolhe o pé errado. A outra migrou para o azimute mais inalcançável do porão da cama. Rumo à latrina, coxeio à maneira de pombo com noventa quilos. À passagem, o espelho denuncia-me o cabelo em imitação oleosa do David Bowie. A pança faz-me boneco-da-Michelin. Alivio-me em puro aparato filosófico: tudo o que começa por torrente a jacto, sem remédio acaba às pinguinhas.
Na banca do lavatório, as coisitas da mulher da casa pontuam o texto da ausência dela: o secador, a escova, a etérea transparência nocturna amarfanhada no cestinho das sedas, a tesourita das sobrancelhas, os mil truques mínimos que escoram a descomunal beleza dela.
Rumo à cozinha, bocejo cavernames de Mira de Aire. Copo de água para lavar a adega. Cafeteira, caneca amarela, micro-ondas. Sala. Notícias, primeiro cigarro. Palhaçada das presidenciais em França. Grunho: Eliseu dos Recreios (tomar nota do trocadilho para crónica). Atentado não sei onde. Palhaçada da autocanonização geral: refugiados, Papa, de novo na moda os sem-abrigo de Lisboa e o Santana na Misericórdia, Marcelo por todo o lado como os buracos da estrada e as chaminés inúteis das fábricas extintas e a certeza de morrer um dia. Os crimes da, perdão, na CMTV. O próximo Sporting-Benfica a render dezasseis horas por dia desde 28 de Maio de 1926. Desligo à bruta. O café arrefeceu. Micro-ondas. Segundo cigarro. Esquentador. Polibã. Muito melhor. Volto a ser um belo homem. Saio do vapor como um dom-sebastião sem feridas a mais. Prazer delicado da roupa interior lavada de fresco. Camisa fina como segunda pele. Fidelidade do cinto de cabedal no cós. Sapatos leves de busca-rimas. Um meio-dedo de fragrância nas almofadinhas da orelheira. Chapéu de palerma como os há muitos. Pronto.
Já na rua, disponível todo à maravilha exótica da aventura urbana – mas cuidado nas passadeiras. Todo aberto ao encontro de poetas, arquitectos, ecologistas, velejadores olímpicos – mas só os velhos de sempre na pastelaria do costume. Ainda todo crente no ser hoje o dia de dar começo ao Romance Português do Século – mas só o Record de ontem para romancear o Portugal secular. Remédio infalível de cónego velho: ir tomar um doce à choupana atrás dos plátanos, onde o rio espuma as aurículas aos melancólicos. Não para falar com alguém – mas para ter alguém a quem ouvir falar (tomar nota dos ditos para crónica). Décimo-segundo cigarro. O telemóvel chamando. Atendo. Engano de lá. Como sempre. Comprar-me-ei alguma vez um aparelho que dê o meu número correcto a alguém que se não engane tanto comigo? Alguém que me creia vivo, me tenha em conta e me considere santo à guisa de um desses mortos de sonho como, sei lá, o David Bowie?
Adormeço.


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