Thursday, December 14, 2017

Cegueira, clarividência & circularidade do latinismo “et cœtera” - Rosário Breve n.º 534 in O RIBATEJO de 14 de Dezembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Cegueira, clarividência & circularidade do latinismo “et cœtera”



Como tantas pessoas, senão todas, vi & vivi já manhãs cegas & noites clarividentes. Sobre umas como outras, os anos exerceram a sua autoridade tão obnubiladora quão propensa à mera, cerce & inescapável obliteração.
Nem a umas lamento, nem a outras louvo – limito-me a dar, de outras como de umas, essa espécie de livro-de-razão duplicemente chamado lucidez & resignação. Um mote subjaz, sólido, a estas voltas: a própria eternidade se volve efémera quando exposta ao esquecimento.
É possível que algumas circunstâncias loco-temporais da minha experiência logrem convencer o/a Leitor/a a não desistir já da corrente crónica. Assim:
pela tarde de uma sexta-feira natalícia de 1984, comprei, numa livraria de referência da Cidade dos meus vinte anos, dois exemplares da tradução portuguesa de Ficciones, do argentino Jorge Luis (sem acento) Borges (ed. Livros do Brasil, Lx., trad. de Carlos Nejas, revisão de Maria Ondina & capa de Lima de Freitas, © 1969). Recordo tê-lo lido na altura com o eufórico ardor de quem começa a reconhecer na (boa) Literatura uma forma-de-vida preferível à vidinha quotidiana.
Três décadas & três anos depois, reencontrei-me com o meu exemplar – o gémeo que dele comprara era de presente para um meu Irmão, mano que hoje, para nossa amargura, se encontra bastante doente. Na manhã de 29 de Novembro do (ainda) corrente 2017, atirei-me à releitura dessa obra magistral, cônscio embora de não ter já os vinte anos d’aquando a primeira leitura & temeroso de os meus correntes cinquenta-e-três, a-páginas-tantas de tantas páginas lidas desde tal remo(r)to 1984, me poderem ofuscar a memória dulcíssima do primeiro fascínio decorrente da descoberta de Borges. Já me tem acontecido, isso de reler em plena madurez livros que me (des)concertaram (n)a mocidadeficando-me o palato da mente por modos insalubre, insaciado: e decepcionado algumas vezes, até.
Tal não foi tal, desta vez. Ficciones (Ficções) continua a ser uma obra-prima de curtos relatos – daquela concisão lapidar tão ao modo & do gosto borgesianos. O Próprio J.L. Borges, no Prólogo à primeira parte da obra (datado de “Buenos Aires, 10 de Novembro de 1941”), é particularmente explícito quanto a este aspecto:
“Desvario laborioso e empobrecedor, o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma ideia cuja exposição oral cabe em poucos minutos.”
(Monsieur Proust n’est pas d’accord, don Jorge Luis!)
Como sempre faço em face de livros bons, enriqueço-me de vocábulos & de locuções cuja partilha pública acresce sobremaneira ao meu prazer privado. Tenha uma pérola dessas para Vós. A ostra de que provém é a pág.ª 123 da sobredita tradução portuguesa:
“Pensou que, à hora da morte, ainda não teria concluído o encargo de classificar todas as recordações de infância.”
Ora, por não ser chegada (não ’inda) nem a minha nem a tua, ó Leitor/a, inexorável hora terminal, será talvez curial (re)começar por te (re)dizer que
“Como tantas pessoas, senão todas, vi & vivi…” Etc.


Thursday, December 07, 2017

Dois óbitos & uma dívida - Rosário Breve n.º 533 in O RIBATEJO de 7 de Dezembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Dois óbitos & uma dívida



Na passada semana, o obituário nacional viu-se acrescido de dois nomes (re)conhecidos por quase todos nós, Portugueses: o do multimilionário Belmiro de Azevedo & o do músico Zé Pedro.
Do hipermerceeiro propriamente dito, parece que tinha uns milhões de euros; quanto ao guitarra-ritmo dos Xutos & Pontapés, os milhões que detinha eram de amigos & admiradores.
Belmiro pertencia àquele um-por-cento do mundo que está na raiz directa do que acontece aos irrelevantes noventa-e-nove percentuais do resto demográfico do planeta.
Nenhum rancor nem inveja alguma me movem contra a imagem do engenheiro. Associei-o sempre, todavia, a baixos salários, a empregos precários e a carreiras profissionais sem depois-de-amanhã. Mas não criou ele muitos postos de trabalho? Decerto. Só que a grande massa dos (sub)assalariados do rol de pagamentos do engenheiro Belmiro não há-de ter muita cera votiva a derreter in memoriam do plutocrático defunto. O hipercapitalismo é um anti-humanismo: e ninguém me tira deste convicto finca-pé ideológico-económico.
Já Zé Pedro me parecia de outra dimensão. Tipo do eterno-jovem, sabeis? Genuíno, de sorriso leve sem leviandade – uma estrela humilde, enfim.
Não seria um génio musical – mas também nunca se armou em tal. Interagia como peixe na água com as múltiplas gerações de músicos que admirou e que o admiravam. Para (muita) pena minha, não pude assistir, aqui há uns anitos, no estádio da minha Cidade, à abertura dada pelos Xutos ao concerto conimbricense dos sempiternos (até mais ver) Rolling Stones. Sei de fonte-limpa que tal actuação foi uma das mais altas alegrias da & na vida dele. Ele & os companheiros “aqueceram” a multidão para os senhores que se seguiam: Jagger, Richards, Watts & C.ª. E fizeram-no à maneira de “homens ao leme”.
Em outras paragens, no entanto, assisti aos Xutos ao vivo. Era gratificante a mescla de idades do auditório: avós & netos & maduros & noviços devolviam unissonamente aos músicos os muitos temas celebrizados por esta banda começada aos 13 de Janeiro de 1979.
Morrer de juventude aos 61 anos não me parece bem. Curiosamente, a má-nova do passamento de Zé Pedro trouxe-me à lembrança um tal António Variações & um tal (esse sim, genial) Bernardo Sassetti. Ardis da memória.
Para todos nós, com ou sem milhões de euros e/ou admiradores, a Lei é material, concisa, orgânica & inexorável: nascendo, cometemos o primeiro acto necrológico. Não sei se, da imensa fortuna que acumulou em vida, restará agora a Belmiro de Azevedo alguma moeda com que pagar ao barqueiro do letal rio – mas sei que lhe pagámos sempre o que lhe comprámos. Por conseguinte, contas aviadas com ele.
Todavia, é ao artista Zé Pedro que ficaremos para sempre a dever alguma coisa. E essa “alguma coisa” não se vende em hipermercado algum, senhor engenheiro.

Friday, December 01, 2017

Uma gratidão vezes 32 - Rosário Breve n.º 532 in O RIBATEJO de 30 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Uma gratidão vezes 32




Não se trata nem de elitismo meu nem de apatia minha – mas a verdade é que sinto cada vez mais repulsa por certo opinativo-jornalixo que neste morredouro de tansos chamado Pátria se pratica 24 horas por dia / 7 dias por semana / 12 meses por ano: julgo eu que desde 1143, ainda por cima.
Estou sendo completamente franco para convosco: e bem mais que de costume.
A que me refiro eu em concreto? Em concreto, a tudo: ao terrorismo parolo & ubíquo do futebol; ao facto concretíssimo (ou “naturalíssimo”, já?) de as pessoas irem ao hospital para se curarem de uma maleita vulgar e saírem de lá de pés tão juntos quão frios por causa de um mal que nem era o que as lá levara; os especialistas de toda-a-merda-&-mais alguma a propósito de nada-&-de-tudo (com prevalência do nada, naturalmente); o carnaval grotesco a propósito da tragédia dos incêndios deste ano; a impunidade (até à redentora prescrição judicial) dos corruptores de toda a espécie: política, económica, económica & política.
Farto disto. Não é do meu País que estou farto. É da espécie de desPátria em que se deixou enredar. Números: o salazar-marcelismo durou 48 anos; o 25 de Abril já foi há 43. Pergunto: nada aprendemos em quási outro tanto tempo? Continuamos a fazer da persignação o que deveria ser marcha porquê? Nas redes sociais (que entretanto abandonei de vez por razões cá muito minhas), a idiotia grassa como uma epidemia tão impossível de segurar como, com as mãos, as ondas do mar.
Reajo assim: ambulo pelas ruas. Anoto o que vejo. Ouço o que dizem. Tomo café devagar como um beija-flor filmado em câmara-lenta. Uma vez por semana, é-me dado o alto privilégio de escreve’dizer em voz-alta, nesta coluna mesma, o que o mundo me suscita.
E aqui era ao que eu queria chegar – e cheguei. O meu/nosso/Vosso O RIBATEJO fez por estes dias 32 anos. Em papel como electronicamente, este Jornal NUNCA é jornalixo. É SEMPRE ético, isento, deontológico & limpo sempre de corpo & alma.
Sai às quintas em papel e todos os dias pelo ‘site’ http://www.oribatejo.pt/.
E é uma honra ter-vos ao alcance do olhar, senão das mãos, através dele.
Sou-Vos gratíssimo por tal honra. Ela vos presto em grato retorno.


Wednesday, November 29, 2017

Thursday, November 23, 2017

EFEMÉRIDE COM ASAS & GARRAS - Rosário Breve n.º 531 in O RIBATEJO de 23 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Efeméride com asas & garras



Novembro é muito mnemónico para mim, tirante os outros onze meses de cada anuário. Vós tendes lido que sim, não ireis agora desmentir-me sem sequer me dar cá por esta palha.
Foi a 1 de Novembro de 1981. Sétimo de sete filhos, era eu finalmente dono & senhor do meu quarto de celibatário sem pulsões esquisitas de adolescente esquizóide.
Seis meses antes dessa fatídica data, um pardal perdido escabeceara em desespero a vidraça da minha janela. Não tinha leme de navegação. Isto é: não tinha cauda. Recolhi-o na terra como quem colhe do céu uma esmeralda castanha. Dizem que os pardais não são de cativeiro. Coitados. Percebem nada da coisa. Os pardais, como as pessoas que o mereçam, são de quem os ame – mesmo sem rabo. E cativeiro nunca foi amor, a não ser nas Endechas que Camões dedicou a Bárbara.
Chamei-lhe Cachopo. Nunca mais saímos do quarto, claro. Acabei o 12.º ano com a dificuldade própria dos maridos emigrados no Luxemburgo que deixam na aldeia as mulheres ao deus-não-dará. Durante aquele feliz semestre irrepetível, o meu Pardal escagaçou com alegria a minha colecção completa das Obras idem do meu amado Eça. E o meu Conan Doyle todo do meu Sherlock. E os meus primeiros Cortázar, Calvino, Camilo, Camus: todos por C como o meu Cachopo.
Dava-lhe água de beber pela boca. Pela minha boca, digo. Ele sentia o copo a içar-se aos meus lábios. Vinha logo, torto como o bêbedo que eu vim a ser, poisar-me na cabeça. Descia-me a orelha pela suíça. E bebia-me da boca como jamais mulher alguma foi jamais capaz de fazê-lo.
As moscas gordas desse Verão foram a nossa comum alegria carnívora. Nunca spray-fumiguei o meu quarto. Não, nada disso. Esperava por elas entre vidraça e cortinados. Esmagava-as com a delicadeza que me é própria e que Vós tão bem sentis nestas crónicas lacrimosas. Depois, sobre o mesmo papel onde eu já então escrevivia os meus versos ilegíveis, dispunha-as em parada de morgue. O Pardal vinha comê-las, uma a uma, como quem vai ali à cervejaria comer devagar o bife-da-casa. O resto era A&A&A: Água, Arroz & Amor. 
A 1 de Novembro de 1981, comigo fora de casa, o meu Irmão Fernando deixou-me entreaberta a porta do quarto. Em casa de meus Pais, não trancávamos portas. Era como (não) fazíamos ao coração – o que deu no que nos (não) deu para o resto da vida.
Um gato vizinho entrou e matou-(m)o. Dei com o meu Pardal sob as patas do felino, morto já e pronto a ser comido como uma mosca das que eu criava para ele. Pontapeei o gato com a força do desespero. O desespero deu para o gato ir bater no caule do cedro a cinco metros de lonjura. Não consegui acabar de assassinar o assassino. Mas nem eu era Cristo, nem o meu Cachopo podia ser Lázaro. Sepultei-o à vista da janela do quarto que foi nosso. Usei uma caixa-de-fósforos de cozinha como ataúde. Não orei por ele: Deus não existe.
Depois disso, o mesmo gato levou-me o meu Irmão Jorge & os meus Pais. Mais alguns Amigos. É um gato P&P&P: persistente, profissional, permanente.
E nunca tem o rabo de fora, como Deus costuma ter.


Thursday, November 16, 2017

No táxi 17 do senhor Silva (ou Um doutor de rostos) - Rosário Breve n.º 530 in O RIBATEJO de 16 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt





No táxi 17 do senhor Silva
(ou Um doutor de rostos)



Aconteceu-me a 3 de Novembro do corrente ano. Eu tinha passado a manhã, a hora de almoço e mais duas horas a escrever. Coisa infelizmente rara, chovia. Eu tinha um euro e sessenta cêntimos na algibeira. Por volta das quatro da tarde, entreguei à gerência do Café os sessenta cêntimos da bica. Pus-me então a pé, de derradeira moeda de euro no bolso, a caminho de outro estabelecimento onde pudesse aproveitar o entardenoitecer para escrever ainda mais qualquer coisita. Aproveitei uma aberta pluvial e ala que já era (de) tarde. Fui andando. Voltou a chuviscar a meio do meu percurso. A descer, todos os santos ajudam, mas a subir nem o Diabo empurra. Ora, eu ia subindo.
Foi então que a meu lado, a meio de uma ladeira mais íngreme do que a minha carreira literária, parou um táxi. Disse-me o senhor taxista assim: “ – Amigo, para onde vai?” Eu respondi-lhe que “para tal parte assim-assim”. E ele para mim: “Calha bem. Vou buscar aí mesmo um cliente. Entre, amigo, que está de chuva. Temos de ser uns para os outros.” Eu fiquei siderado. Ainda tentei dizer-lhe que não trazia comigo dinheiro nem para a bandeirada da porta do lugar-do-morto. Ele, todavia, nem quis saber. Mandou-me entrar sem encargos quaisquer. Entrei. O trajecto era breve, mas deu para frases trocadas.
Ele disse-me que era o Silva do Táxi 17. E mais disse: “ – Eu parei porque vi que a sua cara era a de um homem sério, honesto e trabalhador. Vai daí, nem hesitei. Dou-lhe boleia com todo o gosto. Sabe, eu ando nesta tarimba de taxista há 51 anos. Já sou uma espécie de doutor de rostos. Tiro-os logo pela pinta.”
Depois, perguntou-me de onde eu era. Eu disse-lhe a verdade: “ – Sou daqui perto, dali da Pedrulha.” E ele então assim para mim: “– Essa é boa. Tenho lá um concunhado. É o António Lucas, conhece? Ele é casado com a irmã da minha mulher. A minha é Natalina e a dele é Maria.”
Eu conhecia, claro. E repeti-lhe a banalidade de o mundo ser pequeno. E acrescentei: “ – Mas a sua bondade para comigo não é pequena como o mundo. Fico-lhe muito grato.”
Deixou-me na esplanada que eu almejava. Fiquei sem poder escrever uma linha. Tinha sido “vítima” de um acto filantrópico da parte de um desconhecido. Não podia ser. De novo a pé, rumei à minha terra. Fui a casa do meu Amigo Tonito Lucas. Contei-lhe o que se tinha passado. Já era esta crónica em andamento.
E o Tonito assim para mim: “ – Eh pá, tiveste sorte! O Silva é um porreiraço. Entre colegas da profissão, até lhe chamam “doutor”. Ele sabe tudo do ofício e não se importa nada de ensinar os mais novos no ofício.”
Pedi-lhe mais esclarecimentos. O senhor Silva é homem para 75, 76 anos. É casado desde sempre com a Natalina, irmã da Maria do Lucas. É ali de Vale de Marelo, Semide. Tem duas filhas (Margarida e Catarina) e dois netos (Fábio e Ricardo). Trabalhou desde cedo em fábricas de fiação. Depois fez tropa em Moçambique. Ainda trabalhou para o Serviço de Águas e Saneamento do município de Coimbra. Passou depois a taxista empregado. Logo que pôde, tirou alvará profissional e tornou-se patrão de si mesmo. Até hoje. Ou: até dia 3 de Novembro passado, jornada de chuva em que me deu boleia sem ser por esmola mas por pura solidariedade humanista.
Lembro-me de ele me ter perguntado o nome. Eu disse-lhe a verdade: “ – Sou Daniel.” E só então percebi toda a verdade: havendo-me dito ele que o meu rosto era de homem sério, honesto e trabalhador – e para mais chamando-me Daniel –, o senhor Silva do Táxi 17 não me tinha dado boleia a mim. Tinha antes, sim, tirado da chuva o senhor meu Pai. Esse sim sério, trabalhador e a honestidade em pessoa. Ou por outras palavras: o senhor Daniel meu Pai, sócio póstumo do senhor Silva do Táxi 17.

Thursday, November 09, 2017

Efeméride com recado - Rosário Breve n.º 529 in O RIBATEJO de 9 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt







Efeméride com recado



1 Foi há quarenta anos. A 5 de Novembro de 1977, vi publicado, pela vez primeira na vida, um texto meu. E logo no suplemento literário infanto-juvenil de um jornal de âmbito nacional. Eu tinha treze anos – e o senhor meu Pai era comprador e leitor quotidiano de dois diários nacionais, nesses anos em que o 25 de Abril ainda era uma data relevante. Era também a época de leitura & análise integral de obras portuguesas logo nos 7.º e 8.º anos de escolaridade. Fui abençoado por duas delas: Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, e Seara de Vento, de Manuel da Fonseca. Notareis facilmente certos resquícios neo-realistas no tal meu primeiro texto em letra-de-imprensa. O título é algo Vivaldiano, mas não vos equivoqueis: a coisa era mesmo de ter lido e amado o meu Soeiro e o meu Fonseca. Eis, pois, o dito:

2 AS QUATRO ESTAÇÕES
Quando chegou a Primavera / transbordou vida nos campos e nos / olhos dos homens. Houve até quem / dormisse por entre madressilvas / congeminando formas de melhorar / a vida. //
E no Verão, quando o sol ardente / lambeu os corpos e tornou mais / difícil o trabalho aos aldeões, os miúdos / assaltaram o rio, buscando / na frescura das águas aventura e / desporto.
Chegou o Outono. As folhas das árvores caem como / lágrimas que largam o que foi / a sua companhia. E a poesia dos homens / morre com o enterrar das enxadas / na terra de sempre. //
Mas cai o Inverno, e não transborda agora / vida nos olhos dos homens, nem os garotos / procuram aventura. A chuva / encharca a terra e alaga a alma / aos homens. Afoga-se na taberna / o desejo de progresso. / Terras de sempre. //

3 Pessoal, atenção & cuidado: esta evocação nada tem de auto-adoração. Nada disso. Tem outro intuito. E o outro intuito é este: mandar recado a um dos 21 presidentes de câmara eleitos no 1.º de Outubro recente. Recado: Senhor Presidente, não acho que o senhor saiba quem foram Soeiro Pereira Gomes e Manuel da Fonseca. Senhor Presidente, acho que V.ª Excelência nem lê as minhas crónicas neste Jornal (embora eu tenha a certeza de que a seus augustos pavilhões auditivos são sopradas as partes-gagas das ditas crónicas a seu respeito.) Ainda assim, Senhor Presidente, há duas outras obras cuja leitura talvez melhorasse o que o senhor (des)faz à & da sua terra. Essas obras são: Dinossauro Excelentíssimo, do português José Cardoso Pires, e O Outono do Patriarca, do colombiano Gabriel García Márquez.
Se não tiver pachorra para lê-las de fio a pavio (até porque nenhuma delas tem bonecos), vá o Senhor Presidente ao Google à cata de resumos fáceis dessas magníficas narrativas. Ou então, em generosa contraproposta minha, não ligue nada nem a mim nem a livros. Aproveite antes o tempo do seu mandato para fazer com que o território a seu (in)feliz (co)mando se não torne, sabe o Senhor em quê? “na terra de sempre”.


Thursday, November 02, 2017

Fala o Senhor Professor Abelha - Rosário Breve n.º 528 in O RIBATEJO de 2 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Fala o Senhor Professor Abelha




Sou um fulano de rotinas. Sou-o de facto. Talvez o seja pela dupla ilusão da segurança e da sobrevivência. A perna das calças em primeiro é sempre a esquerda. Levo sempre o mesmo número de cigarros na cigarreira. Frequento dois Cafés: um de avenida à sombra de tílias; outro de urbanização popular, a cuja praceta preside um choupo todo bonito. A bica matinal é no das tílias; o resto das beberagens é no do choupo. No bornal, os cadernos a manuscrever vão na horizontal; os livros a consultar, na vertical. Os lápis só convivem com os da sua raça no lado esquerdo do estojo triplo. A caneta, os marcadores e as esferográficas, no direito. Ao centro, borracha, afiadeira, tesoura, cola. É só assim que posso ser feliz. E seguro. E sobrevivente.
No Café das tílias, repito com os donos (Luís & Rita) sempre a mesma graçola cifrada: que o copo de água é a sessenta cêntimos, enquanto a bica propriamente dita é oferta da casa; no Café do choupo, peço coisas tipo “uma-ucal-fresquinha-com-meia-torrada-com-manteiga-só-dum-lado”. Respondem-me que sim-senhor-Abelha. E servem-me o bagaço, naturalmente. É uma forma de felicidade como (quase) qualquer outra. Neste mesmo estabelecimento, o Martim (filho do casal que gere a casa, Leonel & Nélia), chama-me de vez em quando para o ajudar nalgum pormenor dos trabalhos-de-casa: ler, escrever e contar, sabem? O menino nem sabe a alegria que me dá: chama-me “Senhor Professor” e depois aperta-me a mão como os homens de bem fazem uns aos outros. Ontem ofereci-lhe livros próprios para a idade dele. Ficou contente, mas voltou logo que pôde à caderneta de cromos da bola que anda a preencher.
O problema é quando entardenoitece. Sinto-me invariavelmente perdido num descampado feito de prédios alheios eriçados de casas a que nunca chamarei minhas. Remedeio o embaraço pondo-me a cirand’ambular a pé pela noite como os doidinhos & os guardas-nocturnos de antigamente. Como a Churrasqueira da minha terra só fecha às 23h00m, para lá me dirijo. Chego-me a ela, adiro a pança ao balcão e peço qualquer coisa tipo “uma-ucal-fresquinha-com-meia-torrada-com-manteiga-só-dum-lado”. Respondem-me sempre: “Está bem, abelha. Compreendi-te.” E servem-me o bagaço, naturalmente. Estou finalmente em casa. Por assim escrebeber, perdão, escreviver, perdão, por assim dizer.

Friday, October 27, 2017

Escrevo sempre a mesma coisa, ora vejam - Rosário Breve n.º 527 in O RIBATEJO de 26 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt







Escrevo sempre a mesma coisa, ora vejam



1 (2006) Antuzede, o Sol mais total deste mundo. Tenho quatro anos. Há funeral de alguém velho, alguém da terra do Pai. O Pai leva-me. Recordo a totalidade pânica do Sol. Em descampado (ou em esta mesma Praça, tantos anos depois’antes), a urna – negra, toda feita de sombra. A par do achado (sob um cartão) no Pátio, é a minha primeira – quiçá definitiva – recordação. Isto tem de estar a acontecer em 1968. Duvido de que possa ser já 1969. Comporto-me como o principezinho que sou, filho tardio de um homem de 51 anos, à data do funeral. Tenho eu hoje 53 feitos, sou mais velho do que essa versão do meu Pai. Como é que isto pode (não) ser, verdade? Verdade. Mentira. Algures nessa cabeça de quatro anos há já sinais desta de 53. Certa afinal serenidade ante o descalabro da morte individual, o escândalo dessa lei não votada nem vetada. Certa concertação resignada ante a totalidade, o absurdo, o corriqueiro, o é-igual-para-todos. (Muitos anos depois’antes, aqui voltarei para inumar José, pai de Joaquim Jorge, Carvalho.) O Tempo, como as medusas feitas de água translúcida, transparecendo-se de si mesmo em volutas de luz + água + resíduos saibro-argilosos, cinema de um só bilhete para a eternidade do Domingo. Nem alegria, nem tristeza, nem outrossim agonia ou júbilo – mas tão-só uma espécie, não sei, sei lá, de sideral serenidade baqueando de pau, bola & ponto ante as bancadas desertas, sobre rala relva, que aliás o descampado do Morto-de-1968 não criava.

2 (2017) - Era uma lembrança veemente da primeiríssima infância: uma praça árida cujo chão de terra aparecia queimado sem sombra nem clemência pelo sol vertical de Junho; os cangalheiros haviam pousado o caixão, limpavam os rostos com grandes lenços brancos; o morto esperava a retoma sem o mínimo queixume; as mulheres eram perfeitos corvos de um negro quase azul, como o de certas noites; e ele não podia, então, ter mais de quatro anos. A lembrança não era equívoca: o funeral continuava a ter sido na aldeia natal do Pai, que o levava no préstito pela mão do lado do coração. Não se tratava, por isso & não ainda, do funeral do Pai. Era o de um homem que já era homem quando o Pai era menino. E então, num golpe cerce, passara meio-século.
A lembrança não era apenas veemente mas assaz recorrente ainda. Não lhe doía nem o animava – era como o nariz a meio da cara sem ter de pensar nisso para que continuassem a existir ambos: ele & seu nariz; a lembrança & ele. Era também como o funeral do Pai: o funeral passara; a morte do Pai, não. E mais isto: aos doze anos, ocorreu-lhe de repente (também num Junho inclemente de sol incendiário) que o Pai poderia morrer um dia. Tal eventualidade escandalizou-o. Estava no quarto da casa paterna. Brincava com lápis-de-cor e calendários, arredondando os dias aniversários da Família com cores diferentes: a Irmã a cor-de-rosa; o Primeiro-Irmão a roxo; o Segundo-Irmão a castanho; o Terceiro-Irmão a verde; os Gémeos Quarto & Quinto, a laranja & encarnado; e o dele a amarelo; o do Pai, a azul; e o da Mãe, a mesma rosa da única Filha. Então, quando azulava o 10 de Abril paterno, a possibilidade de lhe morrer o Pai. E o baque gástrico: como se o coração tivesse passado a morar no estômago. Abandonou brincadeira & quarto, saiu para a torreira solar que deflagrava no pátio, deu água aos cães antes de os desacorrentar, foi com eles para o monte colher os espargos do esquecimento e o caule do funcho que uns poucos anos depois lhe haveria de perfumar, escarchando-o, o anis da orfandade adulta.
Tais lembranças tornaram-se ora crónica de jornal. A vida tornou-se Outubro – mas a inclemência solar é a mesma. Tenho a boca a cheirar a funcho. Antes fosse a espargos.

Thursday, October 19, 2017

Fora, Pedro! Bem-vindo, Tomé! - Rosário Breve n.º 526 in O RIBATEJO de 19 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt





Fora, Pedro! Bem-vindo, Tomé!



Ando há tempos para V. dar conta de dois livros intimamente ligados a Santarém cuja leitura fiz com zelo, lápis, agrado e proveito. Ainda não vai ser desta. E ainda não vai ser desta porque a chaga incendiária – que nos mata tanta gente, nos destrói tantas habitações, nos arrasa tantas matas e nos pulveriza tantas empresas – é a recorrente e implacável temática de cada dia, semana a semana, mês a mês.
Pus-me a odiar São Pedro, coitado do barbudo das chaves-do-Céu.
Na minha mocidade (e na Vossa), as estações eram quatro: e começavam à hora marcada do dia certo. A Primavera existia, vinha no bico das andorinhas, o arvoredo rejubilava, a temperatura era suave & adequada. O Verão amarelejava de grandes fenos, extensos trigais, fundia o azul do céu no azul do mar, os rios ainda não eram fossas pecuárias. O Outono? Era todo Vivaldi: revoadas de folhas revoluteando como arcadas de violino, havia o prazer das luvas de lã, as botas de borracha pelas ruas de terra sem macadame. O Inverno era frio conforme a competente e obrigativa disposição legal desse tal São Pedro que, naqueles bons tempos, trabalhava bem & devagar. Tudo isto deu o berro. Tudo isto ardeu.
A estiagem prolonga-se indecentemente há meses de mais. Em plena segunda metade de Outubro, a brutidade solar, sem ozono que superiormente a estorve, esturrica-nos a nossa própria sombra, que, pelo chão, feita carvão, se esbraseia mais do que nós até. É uma coisa intolerável, este calor sem freio nem calendário. É um túnel de fogo sem água ao fundo. E o imbecil do Trump a rasgar acordos pró-climáticos. E o aqueci/esqueci/mento global. E os glaciares a virem por aí a baixo feitos sopa. Porra, porra, meus senhores.
Como poderia eu, pois, cronicar-vos a mote das minhas leituras pró-santarenas? Livralhada agora, agora que por todo o lado só se lê, vê & ouve que “Olha, subiu o número de mortos; olha, mais uns tantos desaparecidos; olha, os feridos não param de aumentar…”? Ná, leiturices para ninguém.
Eu exijo que chova como deve ser. Estamos em Outubro, catano! Quero o frio que nos é devido em Novembro para podermos matar & escorrer com limpeza e sem mosquedo calorífero & putrefactor o belo porco enquanto roemos a bela castanha assada – ou cozida com funcho.
E olha, ó Pedro tão pouco São, vê se te reformas e dás lugar a outro. Olha, dá-o a São Tomé, por exemplo, que só haveria de crer numa política territorial anti-fogos quando houvesse alguma para ver.



Wednesday, October 11, 2017

(f)Actos da minha vida - Rosário Breve n.º 525 in O RIBATEJO de 12 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt



(f)Actos da minha vida



1 Descalço, saltei do muro para a banda do monte, cortei-me no pé direito, sangrei muito – e ainda sangro. Não singro, mas sangro.

2 Abraçava os meus cães & os alheios, beijava-os no rosto, sentia deles o frémito humano, olhos de quem entendia o que se lhes dava: como tão pouca gente-gente entende. Ou é beijada.

3 Aprendendo a fumar (às ocultas do entardenoitecer, encostado ao portão da quinta), volvi-me, até estatu(t)ariamente, uma imitação de adulto. Continuo ambos: fumador & simulacro.

4 Os mendigos batiam-nos à porta muito delicadamente. Se era meu Pai a atendê-los, tinham menos má-sorte. Se era minha Mãe, pobre ela também, tinham boas palavras e não mais que cinco tostões. Se era eu, aprendia a ser delicado no bater às portas. Até hoje.

5 As raparigas: deixando de ser meninas, obrigaram-me a tornar-me rapaz. Em paz elas & eu, agora.

6 A Muda dos Tremoços: esperta, ladina, pobre – mas sobrevivente, criadora de gente, de si mesma banca & fruto & sal & tostão.

7 O Leandro Jardineiro: bêbado, blasfemo, praguejador, admoestador, terror das crianças – um vero santo católico, portanto.

8 Na vertical, era, naquela altura, um colosso: seis pisos de armazenamento industrial. Um deles, de botijas de gás. Deu-se o incêndio. O povo foi ver. Eu também era povo. De súbito, a explosão: foi a nossa Hiroshima. Mais de quarenta anos passados, continua a ser o raso chão a que se viu desfeito. E nós japoneses, por assim dizer.

9 O sr. Eduardo da Rua do Leitão que morreu na linha: vinha apeado da bicicleta para a travessia, deixou passar o primeiro comboio, não contava com o segundo. O povo foi ver. Eu também era povo. Aquele lençol da mulher-guarda-da-linha guardando o mistério do corpo, a escandalosa rosa de sangue florindo o pano: inesquecível floricultura.

10 A minha Irmã, de blusa verde, menina & moça qual rouxinol-bernardino, à janela. Sem pose, alheia ao fotógrafo: rosa verde, antítese daquela que vi no lençol da morte ferroviária.

11 Naquele tempo infante, os Verões não eram a calamidade pública que hoje são. Os Julhos eram passados na Figueira da Foz. A Mãe arrendava a mesma casa. Aos fins-de-semana, o Pai reunia-se-nos. Isso não volta. Eu não era, então, a calamidade privada que hoje sou. Mas a Mãe era o Verão. Em pessoa. E é ao sol dela que escrevo quanto escrevo. O Pai chega sábado.

12 Linda como uma conspiração de açucareiros, aquela Maria dos meus dezassete anos embebedou de clorofila a incipiente árvore púbere do meu coração. Depois, rachou-ma em cavacos imprestáveis até para outros lumes. Habituei-me a sentir-me embebedado. Por Ela. Sem Ela. Contra Ela. E contra mim, em minúsculo pronome.

13 Os Irmãos: seis, todos mais velhos – ou, por assim dizer, os meus mais recentes & mais vitalícios antepassados.

14 A Minha-Rua: era um país. É hoje um desconsolado consulado de marcianos que não falam a Língua nem se lembram dos senhores Nunes, Catarino, Gonçalves, Velindro, Pimentel, Ribeiro, Alcides, Pereira, Morais, Sério, Botelho, Alfredo, Sacramento, Carvalho, Abrunheiro.

15 Quando chovia: o cedro do meu prédio semelhava uma labareda negra de verd’outrora à Van Gogh; as mulheres zumbiam no recolher à pressa das camisas crucificadas do estendal; o senhor Carlos da taberna-carvoaria cainhava gemebundamente: “Estava-se-mesm’-a-ver-qu’ia-chover-estava-se-mesm’-a-ver-qu’ia-chover”; e o cedro do meu quintal era o senhor Carlos a cainhar mas em versão Vincent de cinema-mudo.


16 As Fábricas: morreram todas. Corrijo: mataram-nas. Foi então que vieram os marcianos. E foi então que veio a outra Língua, que de nomes antigos nada sabe nem a cedros à chuva entende, quando o céu chove como a olhos acontece, certas vezes. Ou a cães, quando beijados.

Thursday, July 20, 2017

PARDAIS ESPERTOS & FANTASMAS BENIGNOS - Rosário Breve n.º 515 in O RIBATEJO de 20 de Julho de 2017 - www.oribatejo.pt





Pardais espertos & fantasmas benignos



1 Há muitos anos que o Verão e eu nos não damos bem. Prefiro-lhe épocas mais moderadas, mais temperadas, menos brutais, menos inabitáveis. Como no entanto ele é que manda, fecho-me mais em casa, cerrando cortinados e estores para que a sombra me proporcione a ilusão de uma frescura que de facto não há.
Faço por não vegetar. Tenho fartura de livros que há anos me esperam a visita demorada. De raro em raro, um documentário televisivo cativa-me a atenção. E há sempre a internet, arca sem fundo de motivos de (muito) interesse, uma vez filtradas as fontes.
O mais curioso de tudo isto é a amálgama. Refiro-me ao emaranhado de informações que chegam, estão e se vão embora, deixando todavia fragmentos que se me incrustam na lembrança e que, aqui e ali, a este (des)propósito ou por aquela sem-razão, arranjam maneira de irromper do olvido para que tudo, afinal, tende.
Se a velhice lograr desarranjar-me os fusíveis mentais, vai ser bonito. Hei-de dar por mim a reportar à senhora auxiliar de enfermagem que o meu pianista preferido, Bill Evans, teve um fim trágico, não sei já bem porquê nem como, acho que droga, senhora doutora, a morte de um irmão, coisa assim. E nisto, a cada 10 de Junho, na minha cabeça não ser Portugal o cerne da efeméride mas a vila francesa de Oradour-sur-Glane, que nesse dia de 1944 foi martirizada pelos criminosos da Divisão Das Reich das Waffen SS. Ou farrapo histórico afim.
Por enquanto, todavia, a coisa vai-se dando & andando. Mormente desligado, o televisor não é capaz de encher de moscas oleosas o ar da casa. (Para mais, tenho de concluir por estas horas uma encomenda de trabalho que eu há muito deveria ter satisfeito. A ela tornarei em concluindo esta crónica.)
2 Concedo-me um breve interlúdio a horas decentes. Vou à pastelaria da praça e fumo dois cafés. Levo pão e arroz no bornal. A passarada conta comigo há anos já. Com discrição, vou atirando bolitas de miolo ao arrebol. A pardalada, esperta, aparelha-se em lugares estratégicos. É um festim que invariavelmente me paga o dia. Hoje, tenho o elogio da agricultura tal como versejado pelo romano Virgílio. No outro dia, foi a galega Rosalía de Castro, senhora que sabe estar. Camões aparece muitas vezes mas já sem pala: usa agora uma lente fumada tipo Ray-Ban que lhe não assenta mal. Outros delicados fantasmas devassam a esplanada. Alguns brincam a correr atrás do pão dos pássaros, fingindo uma fome e uma infância de que há muito se livraram. Guilherme d’Azevedo é um. Gervásio Lobato, outro. Continuam portugueses na eternidade esquecida que os nimba. De chitas humildes, vem a senhora catalã Mercè Rodoreda. Não me falta gente. Livre de corpo físico, é malta que faz bem ao velho que aprendo a ser sem grande esforço nem proveito por ‘í além.
E nisto se vai escoando o Verão assassino dos grandes incêndios e das caloraças irrespiráveis. Que o Diabo o carregue – como a mim me há-de carregar também, sendo tempo disso. E tu não estejas a rir-te.

Thursday, July 13, 2017

CRÓNICA BADAGAIO-GEOLÓGICA - Rosário Breve n.º 514 in O RIBATEJO de 13 de Julho de 2017 - www.oribatejo.pt





Crónica badagaio-geológica


1 Decidi tornar do domínio público um terror meu que décadas a fio tenho mantido secreto. É um cagaço simples de explicar, embora mui complicado de sofrer: tenho medo de se me dar o badagaio em plena rua – e comigo carregado de papéis privados como sempre ando. Atenção: não é do badagaio que tenho medo. Toda a gente acaba por ter um: merecidamente mais cedo, uns; outros, injustamente mais tarde. Não é por aí que sinto miúfa. É pelos papéis.
2 Os meus papéis. Esses a que aponho a minha caligrafia. Aqueles onde estou todo: diminuído e por rever. E se de repente adorno na calçada, sim, eu de olho já vítreo, já de fio de baba tipo caramelo a sublinhar-me o beiço de baixo, o pernil aos esticõezinhos larilas de disco-dance? E se derrepentemente os meus mil-e-um papéis se põem a imitar as borboletas ao fim do quarto-dia de crisálida? Há-de ser o diabo duas vezes para mim: porque morro ao cabo de tanto me ter habituado a haver nascido e porque nunca mereci Deus, meu Deus.
3 A coisa é que já tenho tido ominosos prenúncios dessa cómica tragédia de morrer de bornal aberto em plena rua. Contexto: eu sou um velho resistente às modernices dos tablets. Para mim, escrito-de-escrever-para-ser-lido é lápis e/ou caneta sobre papel que chie ao ser rasgado ou a limpar alguma reentrância do corpo. Borrão ou borracha, para mim – nada de merdices electronipónicas inventadas na Finlândia e cagadas em massa na China para lucro dUSAmericanos. De modo que papéis – centenas e centenas de verbetes avulso que a granel acarreto na minha sacola por atacado. Dias de vento em que por distracção ande de mochila aberta – rai’s partam isto! – e estilhaça-se o ar do desperdício voador que é tudo quanto tenho escrito.
4 Se fosse hoje, por exemplo. Jesus Senhor. Belzebu meu. Se hoje fosse que os pés se me juntassem com vocação de marmórea tabuleta, contai comigo, contai assim comigo de lábios abertos: 24 verbetes com puerilidades inconsequentes de Ricardo Gonçalves; 72 trechos de primeira-água copiados dos outros cronistas dO RIBATEJO para que pareçam meus daqui a uns meses quando o plágio for já indetectável (ando há dez anos nisto e até hoje ninguém topou a marosca, muito menos os próprios); duas berlaitadas das rijas contra o Ministério Público acusador de 18 agentes da esquadra da PSP de Alfragide por terem (re)agido como se calhar deve ser às insolências intoleráveis dos “jovens” da Cova da Moura, esses inimputáveis santinhos do altar do politicamente-correcto; mais duas gaitadas irreverentes contra os senhores juízes que se esquecem de ser órgão de soberania em hora de greve por mais uma posta de guito e uns reajustes orgânicos de carreira-estatuto, coitados, que só de subsídio de alojamento mamam 750 mensais dele; e mais ainda uma carrada de papéis com marcas de humidade mineral.
5 “Marcas de humidade mineral”? Sim, marcas de humidade mineral. Explico-me bem e depressa: na ânsia de se me não tornarem voadores os papéis quando ocupo a esplanada de meu escrivão costume, junto & ergo do chão, antes de ocupar posto, uma data de calhaus. Deles munido, sento-me. Saco dos papéis. Cada maço, cada pedra. Faço uma figurinha muita jeitosa. Nunca fui conhecido pelo que escrevo. Foi sempre pela quantidade de grotescos tabuleiros de damas que iço ao tampo da mesa. Julgais, todavia, que é só gozo que mereço? Julgais mal. Tomai e comei todos:
6 Aqui há uns anitos, lá vinha eu para uma esplanada parecida com esta de onde vos cronico agora mesmo. Ritual de sempre: mesa escolhida, pedras apanhadas, cu na cadeira, sacola aberta, papéis, pedra-maço, maço-pedra. Naquele dia, eu tinha muito que escrever – para aí uns oito linguados de geologia. Foi então que, out of the blue (como dizem USAmericanos quando uma mulher maravilhosa aparece das periferias do azul com o nosso destino a sangrar das unhas), me apareceu uma morena perfumada de até-que-enfim. Trazia consigo um pesa-papéis de ouro cujo quilate era, à justa, suficiente para a núbil confecção de duas alianças.
Era a Graça. Aceitei. Casámo-nos. É desde então que tenho tido o tal medo. O medo de, morrendo, ser finalmente lido como deve ser pelos calhaus.


Thursday, July 06, 2017

OXALÁ QUE PERGUNTAR OFENDA - Rosário Breve n.º 513 in O RIBATEJO de 6 de Julho de 2017 - www.oribatejo.pt





Oxalá que perguntar ofenda





1 Sei as respostas, mas faço as perguntas na mesma:
a) Não seria bem mais acertado gastar em bombeiros o que se gasta em tropa, gastando em tropa o que se gasta em bombeiros?
b) Se a tropa nem as próprias armas consegue guardar, a tropa serve para quê e/ou a quem?
c) Um bombeiro vale quantos generais?

2 A pergunta da alínea a) chega a ser pouco discutível. Chega o calor, esfregam as mãos os privados que alugam meios aéreos por uma fortuna. Ao mesmo tempo, as aeronaves da tropa praticam as belas rendas da teia d’aranha (quando não andam ocupadas a queimar combustível caríssimo em solenes aparatos perfeita, absoluta e absurdamente inúteis). E os submarinos, não esquecer os tristemente célebres submarinos-catrinetas de guardar o carapau da costa.

3 À caricata questão escarrapachada em b) há que juntar a rábula das messes roubadas pelos seus próprios (in)fiéis-de-armazém. A credibilidade e o pundonor da instituição castrense são atirados à lama por gente aparentemente incapaz de viver com o próprio pré num País que fora dos quartéis pratica essa ofensa colectiva chamada “salário mínimo”. Brio, decoro, honradez, amor-próprio, dignidade, distinção, decência militar – tudo se esfuma à vista de uma sacada de batatas sobrefacturada à conta do civil. Mais o tal armamento ao dispor do primeiro filho-de-uma-velha que, com conhecimentos lá dentro, passe a horas certas nos intervalos da chuva e das sentinelas na zona do paiol.

4 Quanto à c), calma. Para de todo não resvalar em demagogia fácil, devo dizer que conheço em pessoa alguns bombeiros fraquitos e uns tantos oficiais, sargentos & praças decentíssimos. Como dizia o outro, “nada do que é humano me é estranho”. O problema, todavia, sobrepassa em muito a excepção para consagrar a regra. E cá está: por regra, o bombeiro dá-se todo a uma causa humanitária sem esperar nem mordomias nem alcavalas, antes sacrificando o seu tempo, a sua família, o seu ganha-pão e a sua saúde; o general – sejamos francos de uma vez por todas – tem camaradas a mais para a mesma teta.

5 Variando o tiro e o jacto da mangueira, preciso ainda de dizer-vos alguma coisa sobre o Concerto do Peido. É como muita malta chama àquela coisa muito lindinha dos artistas angariando fundos para acudir às vítimas (sobreviventes) do incêndio de 17 de Junho último. Fiquei (ficámos todos) a saber que a receita de milhão e meio de euros angariada com o tal concerto de solidariedade (mais chamadas telefónicas) foi entregue à União das Misericórdias. Não foi entregue ao fundo especial do Estado. Não foi entregue às autarquias directamente lesadas. Não foi sequer entregue, hélas!, aos Bombeiros. Não. Foi entregue à Igreja, via aquela rede de instituições (tutelada por Santana Lopes) que quer ser banco ou coiso assim.

O autarca de Pedrógão Grande, em solidariedade com os outros dois executivos municipais afectados pela tragédia (Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra), já manifestou revolta e desconcerto perante tal aberração. O peido deu borrada. E tresanda.

6 Já agora que estou numa de acirrar novos inimigos, a greve da enfermagem. Não avalio nem contesto a greve da enfermagem – mas acho perversa a ameaça aos partos. Há limites que a razoabilidade deve traçar – e mínimos limítrofes. Não é a mesma coisa que os professores ameaçarem greve aos exames. Não é mesmo a mesma coisa. Haja juízo. A enfermagem é tão indispensável quanto a classe médica. Dúvida nenhuma sobre tal. Mas calma: o parto é inadiável por sua mesma natureza. Pés na terra, pessoal. E os pés não são para levar tiros.


7 Termino pelo título. “Oxalá que perguntar ofenda” – é mesmo o que eu queria dizer. E ainda quero. E disse. É preciso incomodar quem nos faz mal. Sem medo nem hesitação. É preciso inquietar quem vive de nos comer as papas na cabeça. Eu sei que não é uma croniqueta que resolve o assunto. Careca de saber isso estou eu, que todavia me ponho sempre em cabelo para mandar umas bojardas de se lhe tirar o chapéu.

Thursday, June 29, 2017

HOMO CUNICULUS HOMINI - Rosário Breve n.º 512 in O RIBATEJO de 29 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt



Homo cuniculus homini





1. Na madrugada do 29.º aniversário de Fernando Pessoa, 14 bombardeiros alemães descolaram de uma base situada algures naquela Bélgica então por eles, alemães, martirizada e ocupada. A meio dessa manhã ominosa, as bombas destruíram uma escola do East End londrino, matando 18 crianças. Pela restante capital britânica, mais 162 súbditos de Sua Majestade Jorge V ganharam direito à eternidade anónima dos cordeiros imolados na ara e na era dos impérios. O bombardeamento de civis é hoje banalíssima coisa de dois minutos entre assuntos de futebol e frivolidades meias-lecas no alinhamento dos noticiários – mas na altura foi excentricidade e aberração que parecia e caiu mal, por nada cavalheiresca nem romântica. O sentimento anti-germânico que já então grassava entre os ingleses tornou-se amotinante fobia xenofóbica, a ponto de a própria Família Real, ela própria geneticamente teutónica, ter de abandonar a pesada nomenclatura dinástica que era a sua para adoptar a hoje ainda vigente. Ou seja: passou a Casa de Windsor ao renegar-se como parente relativa da genealógica House of Saxe-Coburg-Gotha-Hanover-Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg-Hohenzollern.

2. Estes factos de 13 de Junho de 1917 poderiam não ter visto luz nem haver passado à fria História real. Bastaria que o governo britânico de então tivesse como primeiro-ministro, não David Lloyd George, mas Pedro Passos Coelho. O meu raciocínio é simplicíssimo: com o nosso compatriota na posse da chave do n.º 10 da Downing Street, as crianças do East End não teriam escola a que ir – e a Inglaterra do primeiro quartel do século XX subjugar-se-ia sem luta, e com gosto até, aos ditames imperiais e imperiosos da Berlim do Wilhelm II, à exacta imagem & semelhança do que viria a fazer Portugal um século depois aos pés da Berlim da Merkel I. Com o tal Coelho na cartola, claro. Para evitar que a Alemanha nos (dia)rreie morte aérea em cima dos chavelhos, nada como ser muito austeritário, muito obediente, muito “bom aluno”. Numa palavra, muito coelho, não um pouco lobo. Daí o título que encima esta crónica.
3. Agora assim: Passos Coelho é um dos meus cómicos favoritos. Corrijo: Passos Coelho é um dos meus tragicómicos preferidos. Nesta rábula dos suicidas pós-incêndio que afinal se não mataram, o dito senhor foi coerente – ele próprio é, politicamente, um suicídio por confirmar. Usando o mesmo Pessoa que fazia anos a 13 de Junho entre 1888 e 1935, Coelho é um “cadáver adiado”. Só não procria grande coisa. Aquilo não foi uma mera tirada infeliz – aquilo é um modo de vida. E um modo de vida é invariavelmente o que resulta da negociação entre o que somos e o como estamos. As desculpas que depois gaguejou, a mim não me arredaram da profunda repugnância de imediato sentida – nem do invencível asco; nem da psoríase fatal que fatalmente me causa a urticária de politiqueiros destes.

4. Na ética jornalística que ainda pratiquei, suicídio não era notícia, a não ser em casos muito, muito especiais. Exemplo-mor: o caso de Thích Qung Ðc. Foi noutro Junho. Em Saigão, a 11/6/1963, este monge budista imolou-se pelo fogo em público e em protesto contra a orientação religiosa de Ngo Dinh Diem, eminência-parda que era, por assim dizer, o Passos Coelho dos vietnamitas em relação a USAmericanos. Tirante casos destes, suicídio continua a ser matéria merecedora de discreto pudor. A não ser, parece, que um obscuro zé-ninguém de provedoria local de misericórdias com veleidades de candidato laranjinha a autarca nos sopre ao pavilhão auditivo um boato maldoso para arremesso político-partidário. Nesse caso, e para o Coelho, um mexerico sem fundamento é cenoura que baste. Daí a tragifarsa acontecida aos olhos de toda a gente. Enfim: Pedrógão é Grande, Passos Coelho é pequenino. Shame on you, sir.

5. Os mortos e os feridos daquela Londres de Junho de 1917 & os feridos e os mortos nossos de um exacto século depois devem ser-nos credores do maior respeito e da mais assisada e mais condoída discrição. Invoquei-os tão-só para ajudar a destruir uma comédia triste – triste e infeliz e coelhamente portuguesa. Foi por isso que fiz por esfrangalhá-la em tiras e em chiste. É que eu nem em criança, por mais bombocas com que tentassem seduzir-me, fui muito de ir com coelhos e pais-natais ao circo. A barraca é que não pára de vir ter comigo. Mas eu sou homem para gostar mais de pão do que de circo. Daquele pão-nosso-de-cada-dia, não daquele circo que se monta e daquela barracada que se arma sempre & de cada vez que o Cuniculus descerra a abertura anterior do tubo digestivo, vulgo boca.


Thursday, June 22, 2017

TODAS AS GENERALIZAÇÕES SÃO FALÍVEIS - Rosário Breve n.º 511 in O RIBATEJO de 22 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt





Todas as generalizações são falíveis





1. O título desta crónica é uma sandice voluntária. Uma necedade. Uma parvoíce, enfim. Será isso tudo – mas não destoa no e do indigente coro geral de atoardas das televisões e das redes sociais da modernidade.
Vivemos tempos reles. Qualquer careta de bicho é chamada ao altar de néon a bolçar as mais banais e mais venais inanidades seja sobre o que for. Porque em tudo isto há uma coisa que não falha, nunca falha: seja qual for o assunto, Portugal é só especialistas – a clínica geral é que é o carago.
Toda uma frenética galeria de zés-ninguéns & marias-nenhumas se acotovela nos corredores dos estúdios e/ou empertiga os bicos das patas nos directos de rua. Tudo passarocos de arribação que, aos olhos da parvónia deles, precisam desesperadamente de ser alguém por quinze segundos. Feito tal, é só copiar o link e esborrachá-lo no Face ou no Twitter. Para quê? Para mais quinze segundos de much ado about nothing, que é como quem diz postas de pescada arrotadas pelo buraco errado do corpo.

2. Os jornais competem na mesma liga. As revistas? Preferível nem delas falar. Estas e aqueles são mal concebidos, mal pensados, mal escritos – e decerto mal intencionados. Clonam-se uns das outras, como se o peixe tivesse preferência quanto a papel de embrulho. O 'jornalixo' tuga é para
o que canadair e vier.
Resta o último bastião: a livralhada. Esta, sim. A livralhada fica. A livralhada vale. Está tudo ali, na livralhada. Toda a livralhada? Não. Não, não vou repetir a boçalidade do título da crónica. Alguma livralhada sim, felizmente muita. Tanto lusa como das estranjas. Mas restrinjamo-nos à lusa. A gente quer Portugal? Eça. A gente quer a cor? Raul Brandão. A gente quer aventura, risco, guerra, sexo, diáspora, epifania, desamparo? Camões. A gente quer risota, escárnio, lucidez, auto-retrato colectivo? Gil Vicente. A gente quer andar aí pelo que, mais do que nosso, somos nós? Garrett. A gente quer na mesma o Correio da Manhã mas em bom? Camilo. A gente quer todos os sonhos de toda gente e mais alguma num corpo só? Pessoa.

3. Diacho. Estraguei a crónica toda. Dou por mim na rua com uma braçada de livros de que ninguém sabe ter necessidade. Pareço os pares de velhas evangelistas, por esses jardins municipais, apontando ao peito do transeunte a pistola de um deus de folheto em ortografia brasuca. A verdade é que nem o escriturário Pessoa, nem o polígrafo Camilo, nem o fino Garrett, nem o sacana de Mestre Gil, nem o zarolho Luiz Vaz, nem o major Brandão, nem o divino José Maria – nem as mãezinhas deles – nos fazem sentido, quanto mais falta. Estamos bem assim, estamos todos muito bem assim, diplomados à pressa todos por um 12.º instantâneo-nova-oportunidade de falcatrua. Até por isto: entre o analfabetismo de há cinquenta anos e o de agora, a diferença está na password, que antigamente era de X-cruz-X e hoje é mais coiso tipo username.

4. E remédio para esta moléstia? Não há. Isto aqui não é a farmácia: nem tenho de tudo, nem sou de receitas falsas. Não há como fazer entender à Judite que aquele cadáver no chão das suas costas é tão digno de dor como de pudor. Não há. Há tão-só o deserto de quase tudo no quase-nada da nossa vida. Aqui, refiro-me à dupla face da moeda: a portátil, que é a nossa vida individual; e a gregária, que é a nossa vida d’enquanto Portugueses. Sobre esta, Eça. Sobre a outra, cada um trate da sua.
5. Despeço-me por esta semana de lágrimas nos olhos. Não é por sentimentalóidismo. É que me engasguei com a passa do cigarro no parágrafo de passagem do quarto ponto para o quinto – e agora é de tossir, escarrar e arfar de carvão brônquico até que o coração se ajeite lugar na boca. Vale-me ao menos que, ao contrário dos tais outros de arribação, não erro o buraco do corpo.
Mas todos os buracos são falíveis.



Thursday, June 15, 2017

INTERVALO(S) À BEIRA-RIO - Rosário Breve n.º 510 in O RIBATEJO de 15 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt






Intervalo(s) à beira-rio




0. Isto que nos leva do nascer ao morrer é tão-só um intervalo entre nada e coisa nenhuma. Posto isto, julgo termos reunidas as condições para haver mais calmex na mioleira. Andarmos de coração de cavalo num peito de periquito, hum, não me parece assisado. O mundo já é doido q.b. sem precisar do nosso subsídio. Isto é paleio de velho, eu sei. Todavia, firmo-o e afirmo-o na mesma. Tenho aprendido alguma coisa à beira-rio.
1. O Fred. Bateu com a porta. Era competente, era dedicado, era assíduo, era pontual, era capaz, era interessado, era o Fred com quem se podia sempre contar. Mas era empregado. Tinha colegas de maior antiguidade. Colegas daquele tipo de instalados na própria mediocridade, de cientistas do “ando-há-muitos-anos-nisto-a-virar-frangos”, militantes do “olha-me-agora-este-ciclista”, práticos do “ai-que-cheiro-ao-leite-deste-caramelo”. Dariam autarcas modelares, os ex-colegas do Fred. Talvez ainda dêem. Em Outubro que vem, se vier.
2. A Vanessa. Enverga unhas de gel escarlate que fazem dela a caricatura da pomba burra. Arqueia o mindinho quando chupa, ai, o cone de gelado. Era para ter ido para enfermeira mas agora a 4.ª Classe de antigamente já não chega para tanto. E no entanto ela lê muito, na família gabam-lhe muito o vício, lê tudo o que for códigos misteriosos, segredos do Vaticano, cenas proféticas & demais pisca-olhos tipo Rodrigues dos Santos. Ainda tentou gostar dos pastelões históricos do Moita, mas ainda hoje confunde os Távoras com o gajo das notas de 500. Ou com aquela tia Ferreirinha dos bailes cor-de-rosa ou coiso ou com’é qu’era.
3. O Anselmo & a Laura. Casados desde aquando mataram o Rei. Ele tem uma colecção de saquetas de açúcar muito jeitosa. O problema foi nunca ter tirado o açúcar das saquetas, modos que a garagem dele é género Pequim versão formigal. Ela, sábado-sim-sábado-não, vai-lhe ao expositor com um spray daqueles tipo casa-e-plantas. Até à segunda-feira seguinte, Pequim torna-se centro histórico de Santarém depois das sete da tarde. Mas lá são felizes à maneira deles. Dali não vem mal ao mundo.
4. O escritor Júlio Diniz. Mentirosão. Em parte alguma há gente tão boa como sequer até a piorzinha dos livros dele? Não há. Penou e finou-se daquela pulmoneira, coitado, depois de muito assobiar sangue. Eu ainda disse à Vanessa que o lesse um bocadito. Qual quê. Não tem cenaça erótica obrigatória à Miguel Sousa Tavares nem pornochanchada p’ra divorciadas tipo sombras-de-grey. Para mais, era do Porto mas sem caralhadas, o que é no mínimo contranatura.
5. O Jolly. Cão do Anselmo. Tem sarna. Coça-se com a pata esquerda de trás num frenesim de bêbado a tentar ligar a motorizada. Deve andar já nos seus dezanove anos. Em idade de cão, e com licença ao respeito, isto fá-lo, muito mais ou menos, contemporâneo em nascimento do passamento do tal autor das Pupilas e da Morgadinha. (– De quem? – grunhe a Vanessa enquanto lacra o dedo dos piretes.) O Jolly é um artista do bocejo. Abre aquela bocarra de céu preto até pontos de se lhe ver por dentro o acordeão das tripas. A língua explode em sonho molhado de solteirona. É maravilhoso. Para mim, o bocejar do Jolly é maravilhoso. E é maravilhoso porque só ele, e mais ninguém, percebe que, quanto e como isto que nos leva do nascer ao morrer é tão-só um intervalo entre nada e coisa nenhuma.
O problema é que depois o programa não segue dentro de momentos, como se via na televisão daquele tempo em que a mera 4.ª Classe era mala-aviada para trabalhar ao pé dos médicos viradores de frangos.