Thursday, June 22, 2017

TODAS AS GENERALIZAÇÕES SÃO FALÍVEIS - Rosário Breve n.º 511 in O RIBATEJO de 22 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt





Todas as generalizações são falíveis





1. O título desta crónica é uma sandice voluntária. Uma necedade. Uma parvoíce, enfim. Será isso tudo – mas não destoa no e do indigente coro geral de atoardas das televisões e das redes sociais da modernidade.
Vivemos tempos reles. Qualquer careta de bicho é chamada ao altar de néon a bolçar as mais banais e mais venais inanidades seja sobre o que for. Porque em tudo isto há uma coisa que não falha, nunca falha: seja qual for o assunto, Portugal é só especialistas – a clínica geral é que é o carago.
Toda uma frenética galeria de zés-ninguéns & marias-nenhumas se acotovela nos corredores dos estúdios e/ou empertiga os bicos das patas nos directos de rua. Tudo passarocos de arribação que, aos olhos da parvónia deles, precisam desesperadamente de ser alguém por quinze segundos. Feito tal, é só copiar o link e esborrachá-lo no Face ou no Twitter. Para quê? Para mais quinze segundos de much ado about nothing, que é como quem diz postas de pescada arrotadas pelo buraco errado do corpo.

2. Os jornais competem na mesma liga. As revistas? Preferível nem delas falar. Estas e aqueles são mal concebidos, mal pensados, mal escritos – e decerto mal intencionados. Clonam-se uns das outras, como se o peixe tivesse preferência quanto a papel de embrulho. O 'jornalixo' tuga é para
o que canadair e vier.
Resta o último bastião: a livralhada. Esta, sim. A livralhada fica. A livralhada vale. Está tudo ali, na livralhada. Toda a livralhada? Não. Não, não vou repetir a boçalidade do título da crónica. Alguma livralhada sim, felizmente muita. Tanto lusa como das estranjas. Mas restrinjamo-nos à lusa. A gente quer Portugal? Eça. A gente quer a cor? Raul Brandão. A gente quer aventura, risco, guerra, sexo, diáspora, epifania, desamparo? Camões. A gente quer risota, escárnio, lucidez, auto-retrato colectivo? Gil Vicente. A gente quer andar aí pelo que, mais do que nosso, somos nós? Garrett. A gente quer na mesma o Correio da Manhã mas em bom? Camilo. A gente quer todos os sonhos de toda gente e mais alguma num corpo só? Pessoa.

3. Diacho. Estraguei a crónica toda. Dou por mim na rua com uma braçada de livros de que ninguém sabe ter necessidade. Pareço os pares de velhas evangelistas, por esses jardins municipais, apontando ao peito do transeunte a pistola de um deus de folheto em ortografia brasuca. A verdade é que nem o escriturário Pessoa, nem o polígrafo Camilo, nem o fino Garrett, nem o sacana de Mestre Gil, nem o zarolho Luiz Vaz, nem o major Brandão, nem o divino José Maria – nem as mãezinhas deles – nos fazem sentido, quanto mais falta. Estamos bem assim, estamos todos muito bem assim, diplomados à pressa todos por um 12.º instantâneo-nova-oportunidade de falcatrua. Até por isto: entre o analfabetismo de há cinquenta anos e o de agora, a diferença está na password, que antigamente era de X-cruz-X e hoje é mais coiso tipo username.

4. E remédio para esta moléstia? Não há. Isto aqui não é a farmácia: nem tenho de tudo, nem sou de receitas falsas. Não há como fazer entender à Judite que aquele cadáver no chão das suas costas é tão digno de dor como de pudor. Não há. Há tão-só o deserto de quase tudo no quase-nada da nossa vida. Aqui, refiro-me à dupla face da moeda: a portátil, que é a nossa vida individual; e a gregária, que é a nossa vida d’enquanto Portugueses. Sobre esta, Eça. Sobre a outra, cada um trate da sua.
5. Despeço-me por esta semana de lágrimas nos olhos. Não é por sentimentalóidismo. É que me engasguei com a passa do cigarro no parágrafo de passagem do quarto ponto para o quinto – e agora é de tossir, escarrar e arfar de carvão brônquico até que o coração se ajeite lugar na boca. Vale-me ao menos que, ao contrário dos tais outros de arribação, não erro o buraco do corpo.
Mas todos os buracos são falíveis.



Thursday, June 15, 2017

INTERVALO(S) À BEIRA-RIO - Rosário Breve n.º 510 in O RIBATEJO de 15 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt






Intervalo(s) à beira-rio




0. Isto que nos leva do nascer ao morrer é tão-só um intervalo entre nada e coisa nenhuma. Posto isto, julgo termos reunidas as condições para haver mais calmex na mioleira. Andarmos de coração de cavalo num peito de periquito, hum, não me parece assisado. O mundo já é doido q.b. sem precisar do nosso subsídio. Isto é paleio de velho, eu sei. Todavia, firmo-o e afirmo-o na mesma. Tenho aprendido alguma coisa à beira-rio.
1. O Fred. Bateu com a porta. Era competente, era dedicado, era assíduo, era pontual, era capaz, era interessado, era o Fred com quem se podia sempre contar. Mas era empregado. Tinha colegas de maior antiguidade. Colegas daquele tipo de instalados na própria mediocridade, de cientistas do “ando-há-muitos-anos-nisto-a-virar-frangos”, militantes do “olha-me-agora-este-ciclista”, práticos do “ai-que-cheiro-ao-leite-deste-caramelo”. Dariam autarcas modelares, os ex-colegas do Fred. Talvez ainda dêem. Em Outubro que vem, se vier.
2. A Vanessa. Enverga unhas de gel escarlate que fazem dela a caricatura da pomba burra. Arqueia o mindinho quando chupa, ai, o cone de gelado. Era para ter ido para enfermeira mas agora a 4.ª Classe de antigamente já não chega para tanto. E no entanto ela lê muito, na família gabam-lhe muito o vício, lê tudo o que for códigos misteriosos, segredos do Vaticano, cenas proféticas & demais pisca-olhos tipo Rodrigues dos Santos. Ainda tentou gostar dos pastelões históricos do Moita, mas ainda hoje confunde os Távoras com o gajo das notas de 500. Ou com aquela tia Ferreirinha dos bailes cor-de-rosa ou coiso ou com’é qu’era.
3. O Anselmo & a Laura. Casados desde aquando mataram o Rei. Ele tem uma colecção de saquetas de açúcar muito jeitosa. O problema foi nunca ter tirado o açúcar das saquetas, modos que a garagem dele é género Pequim versão formigal. Ela, sábado-sim-sábado-não, vai-lhe ao expositor com um spray daqueles tipo casa-e-plantas. Até à segunda-feira seguinte, Pequim torna-se centro histórico de Santarém depois das sete da tarde. Mas lá são felizes à maneira deles. Dali não vem mal ao mundo.
4. O escritor Júlio Diniz. Mentirosão. Em parte alguma há gente tão boa como sequer até a piorzinha dos livros dele? Não há. Penou e finou-se daquela pulmoneira, coitado, depois de muito assobiar sangue. Eu ainda disse à Vanessa que o lesse um bocadito. Qual quê. Não tem cenaça erótica obrigatória à Miguel Sousa Tavares nem pornochanchada p’ra divorciadas tipo sombras-de-grey. Para mais, era do Porto mas sem caralhadas, o que é no mínimo contranatura.
5. O Jolly. Cão do Anselmo. Tem sarna. Coça-se com a pata esquerda de trás num frenesim de bêbado a tentar ligar a motorizada. Deve andar já nos seus dezanove anos. Em idade de cão, e com licença ao respeito, isto fá-lo, muito mais ou menos, contemporâneo em nascimento do passamento do tal autor das Pupilas e da Morgadinha. (– De quem? – grunhe a Vanessa enquanto lacra o dedo dos piretes.) O Jolly é um artista do bocejo. Abre aquela bocarra de céu preto até pontos de se lhe ver por dentro o acordeão das tripas. A língua explode em sonho molhado de solteirona. É maravilhoso. Para mim, o bocejar do Jolly é maravilhoso. E é maravilhoso porque só ele, e mais ninguém, percebe que, quanto e como isto que nos leva do nascer ao morrer é tão-só um intervalo entre nada e coisa nenhuma.
O problema é que depois o programa não segue dentro de momentos, como se via na televisão daquele tempo em que a mera 4.ª Classe era mala-aviada para trabalhar ao pé dos médicos viradores de frangos.


Thursday, June 08, 2017

MAU TEMPO NO CURRAL - Rosário Breve n.º 509 in O RIBATEJO de 8 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt





Mau tempo no curral




1. O curral me(r)diático nacional é sobrepovoado de “homens da embalagem prateada” e de “rapazes do gongo dourado”. Por assim dizer. São reses pífias, gado repugnante a toda a decência cívica e impermeável ao atavio ético das poucas pessoas-de-bem que ainda por aí haja. A corrupção à portuguesa tinha de ter laivos afrobrasileiros. E tem. O colonialismo não acabou – passou mas foi a ser de lá para cá também, relegando-nos o ultramar ao estatuto de província que nunca deixámos afinal de ser. Mas calma. Nem era disto que queria falar-vos. De Agricultura é que sim.
2. De Agricultura”? Sim. Mesmo? Mesmo. Explicando: tenho andado a ler o Virgílio das Bucólicas, primeiro, e das Geórgicas, logo a seguir. Delícias de há dois mil anos e uns trocos. Sabeis bem que me refiro ao mesmo grande Poeta da épica Eneida. Claro, esse mesmo que amou em Teócrito e Hesíodo o que Dante e Camões amaram nele: o verso perfeito, o diapasão silábico, o frescor pitoresco e a rendida gratidão à Natura-Mater. Esse todo. Mas adiante, que já semelho sacristão sonhando com o vinho eucarístico que sobrou do santo sacrifício.
3. E a Agricultura? Que raio a ver com leiturices clássicas e/ou corrupções pindéricas? Calma. Ter, tem. Tem e cá vai: tanto nas Bucólicas como nas Geórgicas (sobretudo nestas derradeiras), elogia-se vivamente o desprendimento filosófico e a serenidade existencial resultantes da sã interacção, pelo trabalho como pela fruição, com o campo, a vida nele, a sabedoria da observação dos índices meteorológico-sazonais (as estações do ano, pronto), o cultivo de tudo: árvores, solos, sabores e aromas, a maravilha cíclica e ritual da dialéctica sementeira-colheita-poda-vindima. Até o omnipotente instintozinho sexual que faz o gado parecer-se com a gente. Ou nós com ele. E as abelhinhas. Não esquecer as abelhinhas.
4. Sim. OK. Porreirinho. Mas – e portanto? Aquilo da Agricultura o quê? O portanto está em que eu, uma destas manhãs, cedo como se nascesse, me achei achando, aos pés de um contentor juncado, um suplemento em papel daquela coisa digital a que a Direita de cá da parvónia chama Observador. Como sempre faço, colhi do chão o lixo. Preparava-me para o esquecer no odre municipal quando, de viés, o título me cativou: Dicionário dos Grandes Negócios, panfleto com textos de um Luís Rosa e ilustrações de um Henrique Monteiro. Já o não sacrifiquei à voragem benigna da reciclagem. Guardei-o no bornal, cheguei à pastelaria, botei café a ferver para a entranha e fumei como quem nunca há-de morrer a tossir. Tinha ante mim um dilema aparentemente fácil de solver: Virgílio ou o pasquinzito das escandaleiras inocentes-até-trânsito-em-julgado? Fraco, vim por estas. Virgílio, sendo eterno, podia bem esperar um bocadito. Lixei-me. Passei o mor e o melhor da matina a tresler, primeiro, e a sublinhar a fluorescente, depois, o coiso achado no chão. Entradas alfabéticas: Azul (Saco), Bataglia (Hélder), Bava (Zeinal), Espírito Santo (Família), Granadeiro (Henrique), Loureiro (Dias), Salgado (Ricardo), Silva (Carlos Santos), Sócrates (José), Veiga (José) e Vicente (Manuel). [Nota relevantíssima: este rol nada tem a ver com as “embalagens prateadas” nem com os “gongos dourados” do paleio figurado do ponto 1. desta crónica. Cuidado com isso, que não tenho dinheiro para prestidigitadores da vara.] Só que, assim de fulminante repente qual trombose terminal, zás! e zinga! – a Agricultura outra vez.
5. Sim. Ela toda. Foi quando lia o item relativo ao Granadeiro. O Granadeiro, sim, que terá preferido enriquecer a ser Henrique. Foi na pág.ª 7: […] Ricardo Salgado (…) classificou Henrique Granadeiro como um dos grandes sábios portugueses na área agrícola.” É que nem para mais nem por menos: Grande. Sábio. E agrícola. Chiça! Quem? O Henrique? Parece que sim. Parece que sumo mestre de herdades de comportas, fábricas de arrozes, herdades vinícolas, marcas de vinhos capazes de vales de ricos homens e de tapadas de barões. Tudo coisas, hoje, de arresto judicial, infelizmente, mas parece que antes de cornucópica, ou pandórica, maravilha. Fiquei de boca artilhada na quarta vogal. Então e o meu Virgílio ganadeiro ao pé deste Granadeiro épico também? Que desgraçado cotejo me o decepava ali cerce? Calma. Lembrei-me a tempíssimo do resgate. Bucólica Primeira, ali onde, ao pastor Títiro, o colega Melibeu fala pela vez segunda: “Não te invejo, me espanto, pois que tudo/pelo campo é desordem. De que modo!/Eu próprio, já doente, a estas cabras/empurro para a frente e à que tu vês/como custa puxá-la, pois que gémeos/pariu por uma moita e aos dois coitados/os teve de deixar em pedregulhos,/ó perdida esperança do rebanho!”.
6. Sim. Perdida. Digo: a esperança. O rebanho soma, que se não some, e segue, que de borla curral lhe damos. Até trânsito em (jul)gado. Diz a abelhinha.



Thursday, June 01, 2017

COISAS SIMPLICÍSSIMAS - Rosário Breve n.º 508 in O RIBATEJO de 1 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt



Coisas simplicíssimas



1 Junho, aí o temos. Era antigamente um mês claro, lavado, propedêutico da disciplina do Verão. Actualmente, é, como os outros onze seus irmãos, uma época híbrida. As quatro estações, todos o sabemos e reconhecemos, extinguiram-se. Dantes, quase se podia acertar o relógio por elas. Hoje, o gelo e o fogo partilham o mesmo dia em uma espécie de desconcerto global que tanto pode provir da degradação do ozono como das bebedeiras de São Pedro. Tanto dá para tiritar em Agosto como para estrelar ovos no capot do carro em Janeiro. Todavia, não me queixo. O que não tem remédio, remediado está. Suporta-se o que vem. Há coisas que nem a mais fantasiosa imaginação pode contornar. E nós somos criaturas meteorológicas: um luto faz-nos chover os olhos, uma euforia faz-nos dardejar canículas ingénuas e inconsequentes. É como se fôssemos todos, por assim dizer mas não desfazendo, uma espécie de passos-coelhos irremediáveis.

2 Não só o tempo natural é insensato. Santarém faz-lhe companhia, voluntária e/ou não. Agora, é o acesso à rotunda do Cnema. O corte do trânsito na Rua O entre o Retail Park e a sede física deste Jornal parece não ter merecido, aos milhares de “engenheiros” que desmandam cá na chafarica, qualquer veleidade de sinalização. Para quem é, nem bacalhau basta. Estas coisas sérias são tratadas como criancices inimputáveis. A propósito, lembro-me de uma coisa que aprendi quando andava a ganhar o dia nas obras da construção civil. O patrão da obra, verificando que alguém, por desleixo ou preguiça ou incúria ou por tudo isto junto, procedia incorrectamente, atirou a moralidade antes que houvesse mais história: “Ó carago, olha que demora mais tempo o fazer mal do que o fazer bem logo à primeira!”. Infelizmente, não me consta que ele concorra às autárquicas scalabitanas próximas.

3 Enfim. Se calhar, tudo isto é embirranço meu. Talvez seja. Não é grave. Eu nem costumo andar de carro pela formosa e desprezada capital do Ribatejo. Quando aí vou, vou de cavalo rodoviário. À saída da gare, boto-me a pé por praças e vielas. Vou gostando muito daquilo ali e tendo muita pena daqueloutra acolá. Aproveito os grandes ares do planalto. Sinto lá longe a pulsação do Tejo. Encontro gente que é como eu, ao mesmo tempo que faço por ser gente como ela. E confesso: tenho tido muita e muito boa sorte com o maralhal de Santarém. Como não frequento as sessões camarárias, o mais é pessoal decente, malta bípede que pensa de pé pela própria cabeça, usando a boca para dar janela ao que na cabeça se congemina. É mesmo assim como digo. Nas horas mais sós, ambulo sem pressa nem acertado destino em périplo aleatório. Vou no vento, gracejo nas tabernas, cheiro a fruta da hora, miro as esplendorosas mulheres dos outros. Sinto-me português em portuguesa terra: português para o bem e para o assim-assim, que o mal, como dizia o patrão da obra, leva mais tempo a fazer.
Leva mais tempo a fazer – e é tempo perdido. Bastar-nos-iam, a todos nós, estas duas coisas simplicíssimas: sinalizar aquela porra do acesso à rotunda do Cnema – carago! – e obrigar Junho a voltar a ser a criança alta e loira que já foi. E outro Verão nos assoalharia sem tempo a perder.

Thursday, May 25, 2017

DEZ CONTAS DO MEU/VOSSO ROSÁRIO - Rosário Breve n.º 507 in O RIBATEJO de 25 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt





Dez contas do meu/Vosso Rosário





1 Foi a 25 de Maio de 2007 que vi aqui publicada, neste mesmo bravo jornal de última aldeia gaulesa, a primeira crónica desta série Rosário (afinal não) Breve. Dez anos limpinhos. O Tempo é lixado. Uma década mais brusca e menos luminosa do que um fósforo lixado também. Assim num instantinho.
2 E depois? Quero o quê com ou de tal efeméride? Foguetório? Boné de louros? Jaculatórios espumantes? Quero nada. Eu, nada. Mas a Câmara pode ser que queira alguma coisa. Em que aspecto?
3 Pode ser que queira alguma coisa no aspecto de me patrocinar a publicação de uma antologia daquelas crónicas em que disse mal do Moita Flores, que foram todas as que o tiveram por visado. Essas – e mais aquelas em que disse bem do Ricardo Gonçalves, que até ao momento são nenhumas mas que podem muito bem vir a ser algumas, caso a coisa seja falada bem faladinha numa almoçarada à conta da minha proverbial imparcialidade e das despesas de representação, sei lá. Até ao Outubro das urnas, temos tempo.
4 E esse tempo pode não ser lixado como o outro. Eu sei, de-ouvir-dizer, coisas tão tremendas da concorrência, mas tão terríveis, tão esmagadoras, tão incapacitantes – que nem precisam de ser verdadeiras. Basta que sejam bem gaguejadas. É como digo: temos tempo. Bem coçadinha, a sarna até pode saber a prolegómeno erótico.
5 Digo isto, atenção!, sem ser por interesse. Próprio, quero eu dizer. Foi por associação de ideias, acho eu. Comecei a falar dos dez anos de coiso & tal, e zás!, veio o dito fósforo a lume de assunto. Mas já que estamos nisto, até que poderia dar um livreco giro. Parece que estou a pestanejá-lo já: o Moita a preto-e-branco na contracapa e com a legenda: “Custou mas foi-se”. E na capa (falsa) o Ricardo a cores, a rir-se muito nem ele sabe de quê e todo untado de uma vermelhidão de opa de procissão. Não sei. São cenas a alcavalar bem alcavaladinhas. Nem eu conheço alcavala que não mereça fala.
6 Dez anos! Não posso dizer mal deles. Não há Natal em que a caixa de correio me não amanheça pejada de propostas milionárias de outros jornais (da Cidade e da Região). Respondo sempre o mesmo: “Sair agora do Real Madrid para quê?” E depois, ungido de um fácil egocentrismo, miro o meu busto horrível e palpo-me o priapismo nos calções.
7 Pronto, chega. A 25 de Maio de 2007, a tal primeira crónica intitulava-se Ruínas e Anjos. Primeiro parágrafo dela: “Há um ano (com seus dias e suas noites) que moro numa vila tão despovoada quão uma cama de viúva séria.”
Ora, antes que, por tua (des)obra, a mesma viuvez aconteça a Santarém, vai lá pensando no patrocíniozito, Ricardo. De momento, nada me ocorre, mas ele sempre há-de haver alguma coisita em que prestes para alguma coisa sem que seja para rir.


Friday, May 19, 2017

GRAMÁTICA VADIA - Rosário Breve n.º 506 in O RIBATEJO de 18 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt





Gramática vadia



Circunstâncias minhas concatenam-se de quando em vez de modo tal, que me surpreendo vogando em, ou por, uma espécie de extratempo da lei da gravidade liberto. Não é fenómeno feio nem bonito – é só o que é: tropelias da serotonina na noz cerebral que trago enroscada no estojo do casco craniano.
Desta feita, achei-me em trânsito pedestre por ruas de uma Cidade de cuja existência eu não dispunha já de provas incontestáveis. Era de manhã ou de noite? Para melhor literatura, é preferível dizer que não sei. Era o que era: da jornada e do périplo, a própria cronologia mistificada pela autoridade da solidão que se me agarrava à roupa como um cheiro cego.
A vendedeira de tremoços & pevides estava já abancada ao lado dextro da velhíssima catedral onde dizem que fui baptizado, logo eu, filho que fui de pais ateus que, fazendo-me baptizar, cortavam ao regime quaisquer suspeições de heresia foice-e-martelo. Caixotes de livros em segunda-mão liam já também o chão do quiosque: voluminhos ingénuos que li no século último de um milénio que não volta. Além, era o estúdio fotográfico em cuja montra de há quarenta anos os donos expuseram, acreditai-me, a fotografia do cadáver do próprio filho, vítima de uma das primeiras doses mortais de heroína das primícias pós-25 de Abril. Fizeram-no como alerta pungentíssimo aos outros pais & mães da Cidade. Resultou pouquíssimo.
Vielas esconsas e húmidas como porões de caravelas aceitaram-me os passos. A fragrância a mijo de gato chegava a ser comovente, fazendo-me arder de lágrimas piscas os olhos pitosgas. Fantasmas prostibulares em forma de mulheres septuagenárias fumavam em assentamento no degrau de pedra das portas anãs de janêlo como nas fotografias do Gageiro. Uma frutaria salvava de cor & perfume o instante. Com um surdo e muito simples bater de asas, alcandorei-me à varanda do Rio, esse todo & mesmo que há oitenta mil anos os meus Irmãos nadaram, sem mazelas, sem medo e sem futuro, vestidos tão-só de uma nudez desprovida de pecado.
Dizem que naquele hotel dormiu uma noite o imperador do Japão. Ainda não confirmei a validade de tal asserção. É, de gloriosa arquitectura, o velho e formoso Astória, cujo A desenha e ensina em grande estilo, a bronze na parede, o número da porta: 21. Passei, como tudo passa.
Acre e capitosa, uma fumarada de sardinhas no carvão instaurava a neblina de Londres entre o Bragança e o Oslo, mais precisamente no largo que liga o Café Angola ao meu livro de 2008, uma estapafurdice paginada a que chamei Terminação do Anjo e que felizmente ninguém comprou e muito menos leu.
Por essas mediações, fui tomado pela incerteza. Salvei-me caçando o primeiro autocarro. Tive de comprar dois bilhetes: um para o coração, para a cabeça outro. A memória viajou de borla.
Desci na paragem do viaduto que gemina a fonte luminosa ao bairro cuja hierarquia onomástica tombou de marechal a general: Carmona para Norton de Matos. O corpo pediu-me cafeína e engaço prensado. Satisfi-lo a preceito. Rodando o cálice nos três dedos do lápis, eu já então me apercebera de apenas poder existir dentro da crónica. Não opus resistência a tal gramática.
Aqui estou. Não sei é onde. Muito menos quando.


Saturday, May 13, 2017

Um fragmento de 27 de Setembro de 2013








Estendi passadeiras já de mais talvez à circunspecção.
Tenho legumes em casa, tenho mulher, tenho casa.
Nicotino os meus versos à razão do alcoolímetro.
Mas gosto de pensar cavalos, não os tendo em granja.
Eu gostava muito de ouvir rir-se a minha Avó.
Parecia uma criança ilesa: mas o não era, foi antes

uma mulher batida, uma analfabeta violentada
por dois terços de século, invencível, porém,
fazedora campeã mundial de broa-de-milho e de leite-creme,
lembro-me dela agora e não sei que fazer dela,
sempre de preto desde os meus oito anos,
e no entanto a claridade daquele riso.

Thursday, May 11, 2017

A GENTE B.-B.Ê-SE POR AÍ - Rosário Breve n.º 505 in O RIBATEJO de 11 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt



A gente B.-B.ê-se por aí





1 Maio também serve para desaparições pouco místicas. Terça-feira, 9 do corrente, foi a vez da de Baptista-Bastos, ao cabo de 83 anos de nascido. Foi um cultor da Língua de subido mérito. Gostava de jornais bem escritos e de livros bem lidos. Era pessoa e personagem. Conhecia milhares de histórias, foi protagonista de milhentas ele próprio. Correu todas as redacções, percorreu todas as ruas de uma Lisboa que, sua de nela nascer & de em ela morrer, poucos terão conhecido tão bem. Deixa admiradores, indiferentes e rancorosos. A mim, deixa-me vontade e pretexto para mansa releitura de alguma da sua literatura, que noutra idade abordei talvez sem a atenção mais proveitosa. Penso que o ângulo do obituário pode ser mais justo se, em vez de “Morreu Baptista-Bastos”, assentarmos que – B.-B. viveu. Ora, como é sabido, não se pode dizer o mesmo de toda a gente.

2 Não se pode dizer o mesmo de toda a gente porque há mortos-em-vida que por aí andam a roer broa muito mal empregadinha em tais dentuças. Ocupam os poleiros e mamam as mordomias que lhes presta a populaça pobrete & alegrete da nossa espécie de fatalidade. Parasitam todas as áreas da sociedade. Infestam, da mesma, todas as secções produtivas – volvendo-as improdutivas. Política, desporto, ex-cultura, culinária, turismo, jornalixo, hidráulica, estiva, transportes, câmaras, clubes de caça & pesca, lares da última idade, bombeiros, saúde, correios, eléctricas, esplanadas – a tudo esterilizam. E reproduzem-se muito, gerando criancinhas estupidificadas pela electrónica amestradora deste século em que a incomunicação pessoal está na razão inversa da profusão de máquinas de bolçar bitaites. Não sofro dúvida: o nosso é um tempo sem eira, sem beira e sem ramo de figueira. Mas quê? Chateio-me muito com isso? Cada vez menos. Sobrevivo e deixo sobreviver. Reciclo o dia antes que o ontem se faça tarde. Ainda agora.

3 Ainda agora, na esplanada de mesas daquele amarelo da publicidade ao chá de palhinha, estava o maralhal muito sossegado a estiolar à torreira de um sol bruto como as derrocadas mineiras. Nisto, uma inquietude assolou a assembleia de desirmanados. Uma ansiedade esquisita, um latejar de próstatas, uma ânsia de ganir à Lua vespertina. A causa? Uma mulher. Apareceu-nos ali sem azinheira nem aviso. De vestido justo a ponto de segunda pele, era um clarão de champanhe. Manava uma fragrância de peixe fresco alimentado a fruta e a leite, decerto por rabejar de cintura qual sereia profissional. Esfíngica, muda, impositiva & incómoda tipo mulher-do-fraque, fez-nos ranger a prótese dentária como se de repente tivéssemos começado todos a sorver esferovite. O B.-B. não lhe perdoaria. Nós perdoámos-lhe. Demorou-se pouco, ficando-nos portanto para sempre. Abençoada posta não-pescada. Milionàriazinha de sua avó. Bisontezinho de Foz Côa em diferido de Paris. Vontadezinha de ter um porta-chaves de BMW. Santa & Senhora. Tive de forçar com conhaque o açude represo do gasganete. De volta a casa, ainda estive para contar à minha mulher. Já nem sei porquê, não contei.
À aparição, dei apenas, cão velho que sou entre flores, um secreto adeus.

Thursday, May 04, 2017

Crónica à luz-roxa - ROSÁRIO BREVE N.º 504- in O RIBATEJO de 4 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt





Crónica à luz-roxa


Vejo mais pessoas a pé do que de pé. Curto e grosso: a pé, os do embuste anti-republicano de Fátima; de pé, as pessoas que (ainda) comemoram o 25 de Abril e o 1.º de Maio.
Por essas estradas, pirilampos bípedes de coletinho fluorescente: por essas praças, homens e mulheres livres por conta própria. Talvez sejam dois mundos irreconciliáveis. O mais certo é que o sejam de facto. Já me importei mais com isso. Já cheguei, até, a indignar-me com isso. Felizmente, os anos acumulados tornaram-me mais simples e mais bruto. Tenho repentes de ferocidade incendiária que um copito de branco fresco apaga sem grande esforço. Na base do que V. digo, está isto de eu vir do funeral de um Amigo. Aos 58 anos, o Tónio foi para nenhures. Daqui a uns tempos, o canteiro dos mármores resumi-lo-á a um nome entre duas datas. Pronto.
Na volta, vim impregnado da inútil revolta do costume. Entre gares rodoviárias, fui inútil e triste como uma biblioteca encerrada. As marcas quilométricas da auto-estrada sucediam-se sem fadiga, estúpidas, inocentes e branquinhas à maneira de cordeiros da Páscoa. Não pude ler. Não consegui escrever. Fui assistindo aos eucaliptos velocíssimos da vidraça. O vento que neles dava era o mesmo que me varre as ideias e as atitudes positivas. Senti-me, naturalmente, tramado: tenho mais coração do que cabeça. Para a cabeça, ainda há uns paliativos. Para o coração é que não há remédio.
E lá a minha terra, como estava a minha terra? Mais cansada, pareceu-me. O meu envelhecimento projectava-se nela como uma espécie de luz-roxa, dessa que antigamente, nas matinées dos “clúbios” recreativos dos pobres, punham os dentes e as fibras sintéticas da roupa a brilhar no escuro. Troquei com essa minha gente as palavras costumeiras. Alguma dessa minha gente é da classe “a pé”. Outra (minoritária, claro) é gente “de pé”. Não sei se me faço entender. Gosto dela toda, para bem dos meus pecados.
Lá deixámos o Tónio sufocado de flores de celofane. Fazia um calor mortífero. Lá fomos ao copito de branco fresco. Foi até ser meio-dia. Depois, cada qual foi para casa, fiquei eu sozinho no largo, dono tão-só de uma sombra vertical e implacável de toldo sem mesa nem cadeiras por baixo. A incerteza tomou conta de mim sem resistência. O branco fresco a sós é um bocadito pró triste. Um quase-terror assolou-me: “E se deixei de saber ler? E se nunca mais conseguir escrever?”
Pelos vistos, não aconteceu. Está um dia bonito, nesse mundo a que às vezes pertenço. Encerrei-me em casa, estores corridos contra a reverberação implacável de Maio. A realidade funciona sem meu concurso. Olha, telefona-me agora mesmo um dos meus Amigos ainda vivos. Tesouro, para mim. Dizemos chalaças. Dou por mim a rir-me como um chimpanzé num bananal.
Mas ai, Tónio. Ai, António Alves dos Santos (1958-2017).

Thursday, April 27, 2017

ROSÁRIO BREVE N.º 503- in O RIBATEJO de 27 de Abril de 2017 - www.oribatejo.pt





É de um gajo ficar plasmado



Fiquei por estes dias a saber que “plasma” significa “história ficcional”. Mentira, portanto. Nem mais nem menos. É coisa dos Gregos, claro. Quando esses tão sábios Antigos se referiam a coisa “moldada”, “modelada”, “trabalhada”, zunga!, chamavam-lhe plasma.
Recentemente também, e ainda, cacei por aí um jocoso trocadilho que alguém, em muito boa hora, inventou: “jornalixo”. Achei um piadão ao neologismo, até por ele ser de sentido tão franco, tão cabal – e tão acertado.
De modo que “plasma” e “jornalixo” são já & doravante justos sinónimos para mim.
O espectáculo da comunicação anti-social é de facto miserável. E a miséria começa pelo idioma. A Língua Portuguesa é uma pérola atirada a (quase) dez milhões de porcos. (NB: Os leitores de O RIBATEJO são o “quase” entreparenteticamente salvaguardado.) Disto, ninguém me tira. As sevícias e o desleixo a que é sujeita são insuportáveis. (Não, não vou dar exemplos. A cama é curta e a manta da crónica é estreita.)
Depois, dá-se a perfeita incapacidade de jornais, rádios, televisões e internetices quanto a distinguir o essencial, isso tão fininho que separa o interesse-público do interesse-do-público. É a rebaldaria total: assuntos mesquinhos, soezes ângulos de abordagem e perspectiva, investigação nula, partidarização subjectiva total, apresentação sabuja. Chego a ter nojo físico, ao nível do eczema, de tais subprodutos do plasma à portuguesa.
O jornalixo é fortíssimo. O jornalixo é tão mais forte quão mais fraquinho é o público. E versas e vices. São já muitos os anos passados sobre o dia em que atirei para remo(r)ta gaveta a minha carteira profissional. Em uso dela, é certo, conheci, convivi e interagi com alguma gente boa, isso é verdade. Tanto do lado de dentro (as redacções), como do lado de fora (o mundo, enfim). Mas essa dimensão era a da excepção. A regra era a ordinarice, o analfabetismo funcional, a desonestidade, o lambe-botismo, a cusquice, a cunha, aquilo de uma-mão-lavar-a-outra resultando em duas patas sujas. Fartei-me.
Ainda bem que me fartei. Vivo hoje um desemprego que só não é paradisíaco por lhe faltarem o fim, o meio e o princípio do mês quanto a guito. Tirando isso, tudo bem. Maravilha, até.
Se tenho saudades de quando o dia-a-dia se media por tantos caracteres incluindo espaços, com ou sem boneco? Não tenho. Perseguir telefonicamente o senhor vereador para uma declaraçãozita sobre a rotunda da fábrica dos fósforos – não me seduz. Caçar o senhor presidente da Junta numa almoçarada de caçadores, pescadores & outros mentirosos como ele – não me arrebata. Perder a manhã de domingo na décima inauguração do mesmo lar de velhinhos terminais a um mês das autárquicas – não me põe na certeza do Pulitzer. Que fazer, pois, em alternativa?
Nadinha. A não ser que.
A não ser que, da névoa, se recorte com nitidez algo que valha a pena estudar. Digo: algo ou alguém. Algo que nada tenha a ver com rebanhos santuário-centenários mas sim com força real, interesse útil, gesta pró-solidária. Ou alguém de vida exemplar cuja cara lavada reitere as virtudes da água, do sabão e da ética, ao invés da porcaria de gente que sobrepovoa as valetas e os montados. A não ser que isto, nada daquilo.
Sim, sim: o plasma é lixado. Aqui, posso dar um exemplo: a um Amigo meu, roubaram-lhe o que tinha comprado por uma catrefada de notas. Fartei-me de o avisar, lembro-me tão bem disso. Eu assim para ele: “Ó Delfim-Zé, tu não compres essa porra, pá, tu não compres essa porra porque essa porra, uma vez ligada à ficha, só dá jornalixo, pá. E mais: se quiseres ver o teu Benfica, tens de ir à spórtévé do Café gastar em bejecas e amendoins o leite da menina. E tu olha-me que coiso, ainda te roubam essa porra e depois já cá não me tens a mim para escarrapachar isso no jornal.” E assim foi, está ali ele que não me deixa mentir.
Mas agora, uma notícia boa: para a semana, prometo-vos uma crónica ainda piorzinha do que esta. E, por pirraça, em 3985 caracteres-incluindo-espaços e a fazer-se ao boneco como esta.


Sunday, April 23, 2017

Ao Sol, Somos de Transparente Nome (republicação)





Ao Sol, Somos de Transparente Nome



Entardenoitecer de 6 de Janeiro de 2009



Ao sol, somos de transparente nome,
também ninguém no-lo pergunta, di-lo
o nosso corpo atirando sombra ao chão
como água preta.
Precisamos de esperar a noite para
que nos seja devolvido o anonimato civil.

Eu agora sei estas coisas de cor a preto-e-branco,
sei porque sei, sei
porque estou vivo ou coisa assim,
tirando o meu corpo.

Sempre fizemos
tanto barulho
em poesia
com o tema do silêncio,
tanto foguete com o da noite,
tanta vozearia bradada a surdos,
tanto pirete à cara dos cegos,
sei que é assim pelos livros que tenho tido e lido e sido,
não sei é porquê,
deve ser daquilo a que se chama a
Condição Humana,
Malraux incluído.

A gente tem de aproveitar o sol, esse foguete perpétuo
que torna tudo agosto e tudo português para sempre,
eu acho que é assim, aproveitar o sol sempre
com o nome todo virado para ele
antes que se faça tarde
e seja noite.









Thursday, April 20, 2017

ROSÁRIO BREVE N.º 502- in O RIBATEJO de 20 de Abril de 2017 - www.oribatejo.pt




É perguntar ao David, talvez




Tenho sonhado mais, ultimamente. Não são pesadelos nem delícias. São farrapos de lucidez entremeada de desconcerto. Algumas pessoas, apesar de mortas, passeiam-se-me pelas arcadas do inconsciente como se aquilo de terem vivido tivesse afinal solução – e continuidade. Outras, apesar de vivas, parecem não crer que as vivo, que as tenho em conta, as considero já tão santas como se me houvessem morrido.
Não sei. Desperto a meio caminho de nenhures, provindo de lado nenhum. De volta, a consciência não me traz especial reconcertação para com a realidade. Vogo. Estendo a garra mole para a cabeceira, onde os óculos cegaram toda a noite. Os joelhos rangem como dobradiças de mosteiro. Uma orelha quente, outra gelada. A bexiga, despontando costuras. A espinha, retesa qual cordame náutico. Iça-me a grua do tem-de-ser. Viro a página do lençol com brusquidão de leitor ingrato. O elástico da cinta do pijama já nem para cingir réstias de alhos serve. Uma pantufa, fiel, escolhe o pé errado. A outra migrou para o azimute mais inalcançável do porão da cama. Rumo à latrina, coxeio à maneira de pombo com noventa quilos. À passagem, o espelho denuncia-me o cabelo em imitação oleosa do David Bowie. A pança faz-me boneco-da-Michelin. Alivio-me em puro aparato filosófico: tudo o que começa por torrente a jacto, sem remédio acaba às pinguinhas.
Na banca do lavatório, as coisitas da mulher da casa pontuam o texto da ausência dela: o secador, a escova, a etérea transparência nocturna amarfanhada no cestinho das sedas, a tesourita das sobrancelhas, os mil truques mínimos que escoram a descomunal beleza dela.
Rumo à cozinha, bocejo cavernames de Mira de Aire. Copo de água para lavar a adega. Cafeteira, caneca amarela, micro-ondas. Sala. Notícias, primeiro cigarro. Palhaçada das presidenciais em França. Grunho: Eliseu dos Recreios (tomar nota do trocadilho para crónica). Atentado não sei onde. Palhaçada da autocanonização geral: refugiados, Papa, de novo na moda os sem-abrigo de Lisboa e o Santana na Misericórdia, Marcelo por todo o lado como os buracos da estrada e as chaminés inúteis das fábricas extintas e a certeza de morrer um dia. Os crimes da, perdão, na CMTV. O próximo Sporting-Benfica a render dezasseis horas por dia desde 28 de Maio de 1926. Desligo à bruta. O café arrefeceu. Micro-ondas. Segundo cigarro. Esquentador. Polibã. Muito melhor. Volto a ser um belo homem. Saio do vapor como um dom-sebastião sem feridas a mais. Prazer delicado da roupa interior lavada de fresco. Camisa fina como segunda pele. Fidelidade do cinto de cabedal no cós. Sapatos leves de busca-rimas. Um meio-dedo de fragrância nas almofadinhas da orelheira. Chapéu de palerma como os há muitos. Pronto.
Já na rua, disponível todo à maravilha exótica da aventura urbana – mas cuidado nas passadeiras. Todo aberto ao encontro de poetas, arquitectos, ecologistas, velejadores olímpicos – mas só os velhos de sempre na pastelaria do costume. Ainda todo crente no ser hoje o dia de dar começo ao Romance Português do Século – mas só o Record de ontem para romancear o Portugal secular. Remédio infalível de cónego velho: ir tomar um doce à choupana atrás dos plátanos, onde o rio espuma as aurículas aos melancólicos. Não para falar com alguém – mas para ter alguém a quem ouvir falar (tomar nota dos ditos para crónica). Décimo-segundo cigarro. O telemóvel chamando. Atendo. Engano de lá. Como sempre. Comprar-me-ei alguma vez um aparelho que dê o meu número correcto a alguém que se não engane tanto comigo? Alguém que me creia vivo, me tenha em conta e me considere santo à guisa de um desses mortos de sonho como, sei lá, o David Bowie?
Adormeço.


Thursday, April 06, 2017

ROSÁRIO BREVE N.º 500 (MAIS UM SÉCULO) - in O RIBATEJO de 6 de Abril de 2017 - www.oribatejo.pt



Rosário Breve n.º 500 (mais um século)



Sim, verdade: esta é a crónica n.º 500 da série Rosário Breve. Parece mentira. Quinhentas semanas aqui. Se é um privilégio não escrever para a gaveta, redobrado privilégio é fazê-lo na e para a última página deste Jornal. Sinto profundamente isto que aqui deixo dito. Faz em Maio próximo dez anos que aqui dei por publicada a primeira coluna. Estranha coisa: uma década esfumada assim, assim como se nada fosse. No entanto, cá cantam, nos ossos e no gasto de tantos lápis, esses dez anos. É com alguma perplexidade que conto cinzas. Quinhentos prumos de fumo, quinhentas miradas, quinhentos grandes-tudos & quinhentos pequenos-nadas. Adiante, todavia.
Adiante neste sentido: por felicíssima coincidência, esta crónica n.º 500 alinha-se em perfeita esquadria com uma outra efeméride que, essa sim, ilumina solarmente a minha vida – segunda-feira próxima, 10 de Abril, é o centenário do nascimento do senhor meu Pai. 500x100, portanto. Esta crónica só poderia ser deposta a seus pés. Mais do que um bom homem, o meu Pai foi um homem bom. A alteração do lugar do adjectivo diz (quási) tudo dele. Daniel dos Santos Abrunheiro nasceu a 10 de Abril de 1917, morrendo a 24 de Abril de 1994. Se em sorte me couber o total de anos que foi o dele, tenho ’inda mais 24 para fazer sombra pelo chão, honrando-lhe o nome até quando, à imitação dele, estiver dormindo.  
Encerro com um texto que lhe dediquei há uns anos já. Antes, todavia, deixo este recado ao meu Leitor: sou-te profundamente grato – sim, a ti, que tanto lápis me fazes gastar em prol de uma gaveta que não preciso de abrir.

Tesouro

Vi os olhos do meu pai na cara de um homem que passava na rua.
Durou pouco, o regresso desse olhar de cão batido.
O homem olhou-me com um olhar que já era o dele.
Fiquei parado na rua.
Fazia sol.
O meu destino, que na altura era ir ao multibanco, tinha perdido o sentido, como todos os destinos.
Os olhos do meu pai, caramba.
Estes anos todos sem ele, e ali estavam os olhos.
Preciso sempre de uma explicação.
Preciso sempre de saber tudo.
Continuei parado ao sol, à espera de perceber.
Não durou muito, a explicação.
Eu tinha parado diante de uma montra espelhada.
O sol devolvia-me todo um corpo de vidro e luz parecido comigo.
Olhei-me os sapatos, os joelhos, a aba do casaco, a gravata, a cara.
Nessa cara alheia, lá estava outra vez o olhar do meu pai.
Nunca mais volto ao multibanco.
Nunca mais vou precisar de dinheiro.
Um tesouro olha por mim.

Thursday, March 30, 2017

CRÓNICA A MODOS QUE POLIPROPILÉNICA - Rosário Breve nº 499 - in O RIBATEJO de 30 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt





Crónica a modos que polipropilénica



1 Se a estatuária moderna fosse feita do mesmo material que dá corpanzil aos mamarrachos eleitos, poderíamos morrer seguros de nos sucederem tais monumentos. Assim, como parecem ser (e deixar de ser) de polipropileno, de esferovite, de plasticina, de areia e/ou de barro que não viu forno – não.
Sim, andei por Santarém. É de facto uma cidade perigosa. Parece remontar ao constante temor bíblico das grandes calhoadas na mona à passagem pelos sopés das torres periclitantes a que o arquitecto medievo se esqueceu de juntar super-cola. A sério que andei pela bela e desprezada cidade que é Vossa como foi (e para sempre há-de ser) do Bernardo que era António, esse mesmo (Martinho do) Rosário não breve. Está bem, eu conto:
2 Cirandei pelo meio das estreitas artérias. “Pelo meio” – por me ter esquecido de trazer comigo material de desencarceramento capaz de libertar os passeios (os passeios já de si exíguos e opressos como o bafo dos asmáticos) da praga de carros que os juncam em perfeito aparato estacionante de selvajaria anticívica. Tesoura, ferramenta multiusos de acção dupla, rebarbadora, machado, picareta, expansor, extensor hidráulico, tudo à base de grupo energético calibrado e em bom trato de manutenção – a falta que de vós senti! Da próxima vez, talvez não me esqueça de juntar ao estojo do acordeão, à maneira de saca-pipos, o canivete de ponta curva que na puberdade me foi oferecido por um amigo interesseiro cujo pai era patrão de uma recauchutadora de pneumáticos.
3 A estas verdades tristes, junto uma desconfiança não-alegre. Esta aqui: sou capaz de ser eu quem leva tão arrastada invernia ao Planalto. Das duas últimas vezes, assim foi. A mais recente, pior do que a penúltima. Ora leiam:
4 O granizo diagonal vergastava a vetusta Scalabis ao colo de um vento de más horas, acudindo à nuca o arrepio glacial dos que de barriga para baixo esperam o gume da guilhotina. Tinha eu acabado de ser corrido do pórtico do W Shopping por uma faneca de quarenta quilos mas com farda de securita. Atirei o acordeão para dentro do estojo depois de recolher os dezassete cêntimos ganhos a tocar ao sentimento entre as oito e meia e as onze e ¼ da madrugada. Fiquei como estou há coisa de cinquenta e três anos menos 38 dias: sem norte nem oriente. Restavam-me o sul e o ocidente. Decidi-me, claro, pelo sul: indo pela Pedro de Santarém, chega-se num fósforo ao Quinzena.
5 Ainda não era a enchente. Serviram-me um quartilho, mas na condição de não usar o acordeão para tocar o Minho e Galiza, essa estremecedora marcha-de-concerto tão parideira de lágrimas viris e tão própria àquele transe em que o cabo dos forcados e o cavaleiro dão a volta ao arrebol com flores e lágrimas também. Bebi, o senhor Fernando ofereceu-me o gasto e a porta de saída, saí.
6 Cá fora, o mundo continuava imundo. A invernia contrariava o calendário: era já afinal inaugurada pelo relógio a outrora doce Primavera. Andei muito. Eu fiz Vale de Estacas, eu fiz S. Pedro, eu passei à Bonduelle, eu saudei sem abrir a boca os Casais do Mocho, eu desembestei-me pela 114 até Perofilho, eu parei à face de um monturo de lixo espontâneo para desfazer uma desnecessidade, e segui, segui muito, à passagem pela Jorge Cordeiro Automóveis Ld.ª já levava um bofe na mão direita & uma aguda vontade de jamais ter nascido na outra, e foi então que me pus a grande questão existencial que toda a humana pessoa mais tarde ou menos cedo acaba tendo de pôr a si mesma por não ter mais ninguém ao pé a quem pô-la: “Quinta dos Cardeais ou Secorio?”
7 Escolhi o Secorio. Por ser sexta-feira, havia mangusto de bacalhau na Associação Progresso e Recreio. Tiveram pena de mim e deixaram-me entrar, mas na condição de não usar o acordeão para tocar o Hino da Maria da Fonte, que fica sempre tão bem ou quando há bacalhau ou quando o vinho ainda se não acabou. Perguntei qual poderia então tocar para agradecer o extremoso manjar. Disseram-me que tocasse a Chula do Polipropileno, coisa que fiz sabendo o quão efémero é tudo na vida: a começar pela própria vida e a acabar nos conjuntos escultóricos da Santarém moderna, essa arte à la Moita Flores que o Inverno leva e a Primavera não devolve.


Monday, March 27, 2017

MENINAS, VINHO VERDE & HOLANDESES ESQUISITOS - Rosário Breve nº 498 - in O RIBATEJO de 23 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt



Meninas, vinho verde & holandeses esquisitos



Na semana passada, croniquei neste espaço de maneira sentimentalona e ateia. Já depois de ter enviado o texto para a paginação, ainda me ocorreu a possibilidade de vir a ser queimado em efígie pelos fundamentalistas do catolicismo. Não ardi, porém. Aconteceu com a minha crónica o mesmo que por aí acontece: nada. Qualquer protagonismo a que eu tivesse a veleidade de aspirar, na glória efémera da semana de vida útil deste Jornal, teria, de qualquer modo, sido pulverizado por isto agora do holandês esquisito (fisionomicamente parecido com o também esquisito Francisco Assis do PS). Falo do presidente do Eurogrupo, senhor de um nome cujo som parece o do prato do cão ao fazer-se em cacos pelo chão: Dijsselbloem.
Toda a gente sabe o que tal figurão-figurinha disse de nós (Portugueses, Espanhóis, Gregos e talvez dos Italianos também): que connosco é tudo muito bonito mas mais à base de putas & vinho verde. Não é que seja mentira, ó pessoal! Todavia, a acusação peca mais por defeito do que por excesso. Para mais, vinda de um gajo cujo país expõe as prostitutas em montras de pé-alto à maneira de talhos virados para as ruas por onde passam criancinhas. Para menos, vinda de um fulano em cujo país a ganza é mais livre do que por cá as andorinhas. Para tanto, vinda de um parasita cujo salário diário equivale a não sei quantos salários-mínimos cá da parvónia.
Peca por defeito porque não é só em putedo e copofonia que esbanjamos à larga. Não só. Também sustentamos subvenções vitalícias (e milionárias) de políticos como ele, canalha que sabe lá o que seja uma leira, uma oficina, uma escola no cu-de-judas. Também ombreamos a canga de uma dívida externa infinita, artificial e impagável que gajos como ele criaram do nada para sustentação ad æternum de meretrizes de gravata como ele.
Também mamamos o fel das recapitalizações bancárias ordenadas por gajos como ele no dourado dos salões extraterrestres em que vegetam as suas estéreis existências.
Eu sei o que o assusta: é aquilo do Brexit. O Dijsselbloemzito teme que, colando o exemplo, lhe tirem a gamela das fuças. Que nós, os tais pequenitos do Sul, lhe escaqueiremos a manjedoura com o braço do manguito. E que eles, Holandeses acólitos dos Alemães, tenham de ficar com as próprias putas para consumo-da-casa e de se verem reduzidos à vinhaça que, aliás, nem sabem fazer. Não se lembram de terem sido corridos a pontapé do Transvaal pelos Ingleses. Não se recordam de lhes termos nós, Portugueses, estampilhado o focinho a galhetas no Brasil que nos queriam roubar.
Quem prostituiu o sonho de paz duradoura no pós-guerra de 1945, e que esteve na base da concertação de uma pretensa unidade europeia – foram gajos como este imitador do ultra-ortodoxo Francisco Assis. Não fomos nós – que trabalhamos a vida toda por um restolho de migas em malga rachada. Não fomos nós. As nossas putas, senhor, são mais sérias do que as vossas. E a nossa pinga, da Porca de Murça à torreira do Esporão, passando pelo milagre em escada das Encostas do Douro, é incomparavelmente mais encorpada do que a mijoca sensaborona do vosso schnapps. A verdade fala pela minha boca como se um vento profético me arejasse as barbas no deserto, pá.
E ainda: ó pá, foste a três finais do Mundial da bola e perdeste-las todas. O nosso putedo e os nossos bebedolas, pá, são Campeões. Campeões de quê? Dessa mesma Europa que pensas ser tua mas não é. É cá do Sul, carago!


Thursday, March 16, 2017

DA INSANÁVEL INEXISTÊNCIA DE DEUS - Rosário Breve nº 497 - in O RIBATEJO de 16 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt





Da insanável inexistência de Deus



Foi há mais de trinta anos. O filho de um Irmão meu ficou-nos doente de uma pneumonia séria. Filtrado pela urgência pediátrica, ficou internado com a mãe. Lá fomos todos, em aflita procissão, a saber dele, atulhando a sala-de-espera de uma ânsia inominável. Fazíamos óós com a boca como peixes de aquário não ventilado. Devagarinho, o menino convalesceu. Parecia um lírio transparente. A boquita de morango, gretada pela febre, ensinava-nos o código-de-barras da desidratação. Como sempre sucede em todo o resto de todo o mundo, as mulheres mostraram-se mais fortes. A Cecília não desamparava o filho da vida dela. A minha Mãe, a minha Irmã e as minhas outras cunhadas conluiaram-se num gabinete-de-crise que jamais vacilou no combate ao infortúnio. Nós, homens, meu Pai incluído, parecíamos pardais partidos à pedrada. Foi então que, no decurso da primeira visita autorizada, cometi um dos mais amargos erros da minha vida. Só agora, mais de três décadas depois, me sinto em robustez para contar tal passe.
Era no Pediátrico antigo. As regras de estadia e de circulação eram então muito mais relaxadas do que agora são. Com todos à volta do Ruizinho, dei-me à derivação. Da enfermaria dele, atraído pelo Minotauro da curiosidade, fiz-me ao labirinto. Dei por mim num dédalo sem retorno.
Sem médicos nem enfermeiras que me tolhessem o passo, adentrei uma enfermaria escurecida como noite privada. A um canto alto, uma luz-de-presença tiritava a febre de um amarelo glauco, um amarelo mau de pus quente. Quem me dera, hoje, não ter entrado naquela divisão irremediável. Mas é que entrei. E até hoje dela não saí – por causa deste pecado portátil chamado lembrança.
Era a enfermaria dos casos sem remédio. E era a demonstração mais cabal, mais prática e mais científica da inexistência de Deus. De qualquer deus de qualquer seita de qualquer superstição de qualquer cegueira & de qualquer guerra em Seu Nome.
Era uma menina, a primeira criança incurável que vi. As mãozinhas perfeitas e o rosto da mais desarmada e mais desarmante lindeza eram contrariados pelo capacete da hidrocefalia. O crânio descomunal, eivado de veias azul-cobalto estrangulando uma miríade sideral de róseos riozinhos, tornava aquela filha-de-alguém numa espécie insuportável de extraterrestre dos piores filmes. Senti de imediato a gravidade do meu erro e a indesculpabilidade da minha devassa.
Mais além, um menino. Tinha três anos de vida, apurei depois. Nesses três anos, só chorara. Era cego, era surdo, era de janelas fechadas a todo o exterior. Soube depois que, desenganados pelos médicos de toda a esperança, os pais daquele bambino insanável o haviam deixado ali para o que não desse e jamais viesse.
Não me lembro dos outros quatro, doze ou mil que ali jaziam. Fugi como o covarde que passei a ser até que a morte me chame pelo nome privado que a minha Mãe me chamava para lhe dar um beijo.
Calma, que isto ainda não acabou. Uma década e uns pós depois, encontrei-me no átrio do Hospital Novo com uma amiga. Chocou-me vê-la a chorar sem peias nem remédio. Afinal, ela era ali médica. O problema era ela ser daquelas pessoas clínicas que continuam a ser pessoas apesar do estetoscópio. Quis consolá-la. Não pude. Vinha de avaliar um caso perdido. Uma infantazita de quatro anos. Leucemia infantil.
Viemos, ela & eu, para este Café de onde vos escrevo. Finjo que ela, Dr.ª Maria da Conceição Saraiva Pinto Athayde, está comigo ainda. É fingimento meu. Ela não está. O cancro levou-no-la em Dezembro de 2007.
Escrevo de novo as duas palavrinhas que negam Deus: Leucemia Infantil. Pouso o lápis e faço como o senhor meu Pai fazia, que era isto assim: olho o mundo derredor e não encontro nele sinais quaisquer de qualquer divindade. Do Diabo sim – e por todo o lado.





Thursday, March 09, 2017

ENDECHAS ORGULHOSAMENTE SÓ PARA PORTUGUESES - Rosário Breve nº 496 - in O RIBATEJO de 9 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt



Endechas orgulhosamente só para Portugueses



1 Havia a Caixa das bolachas e havia a Lata das bolachas.

As da Lata eram para os filhos.
As da Caixa eram para quando a Avó vinha.
Seguíamos a Mãe: nós filhos nunca tocávamos nas da Caixa.
É talvez isto que é preciso dizer à ladroagem bancária destes dias.
Pena é terem Avó & Mãe morrido já.
Continua a ser preciso ter lata, todavia.


2 Outra coisa que havia, ou passou a haver desde 1975, era Angola independente. Ao empate técnico da guerra, sucedeu-se o reconhecimento, inevitável aliás, da auto-determinação. Mas o povo Angolano não é independente, nada disso, longe disso. O colono de agora é apenas da mesma cor da pele. Uma família com uma quadrilha de “generais” – e está a plutocracia consumada. Mais me custa ter morrido cada homem, preto ou branco, entre 1961 e 1974 – para esta nefanda cleptocracia.

3 Daria dinheirinho, que nunca tive, para ler o mural do Facebook em, digamos, 1940, ano da Exposição do Mundo Português. Gozão, saborearia a preceito os dislates de pasmo, baba & ranho dos meus compatrícios ante as maravilhas de gesso & papelão dos pavilhões imperiais. Em secreto ficheiro, faria copy-paste das hashtags tributárias da magnificência do nosso “Império”, do nosso messiânico Salazar, do nosso nunca desmentido fascismozito-de-paróquia, do nosso Portugal-dos-Pequenitos-do-Minho-a-Timor. Mas quando éramos miúdos não havia Facebook. Havia os nossos Pais vivos. Aprendia-se muita coisa na mesma, que carago.

4 Parece que escrevi um palavrãozito. Já não vou a tempo de substituí-lo por alguma interjeição mais branda. Fica assim. No devido contexto, o calão é-nos tão natural quão uma tachada de feijoada, uma travessazorra a transbordar de cozido, o contentor inchado de lixo a deitar p’ra fora – ou uma écloga definitiva de Camões. Repare-se nisto de o reeleito presidente do Sporting Clube de Portugal ter blasfemado – ou bardamerdado os infiéis ao Leão. Mal nenhum, acho eu. Francamente: mal nenhum. É português, é só nosso. Antes isso do que ser gago. Independentemente de qualquer contexto, a portuguesíssima palavra "bardamerda" não tem rival. Aquilo da "saudade"? A saudade que vá bardamerda.

5 Não faço a mínima ideia do que sejam dez mil milhões de euros.

Não faço a mínima ideia do que sejam mil milhões.
Não faço a mínima ideia do que seja um milhão.
Mas de um gatuno, ah sim, tenho ideia.
De um vezes dez milhões deles.

Porquê? Fácil: porque somos dez milhões de pequenitos que, podendo, roubaríamos também o nosso naco em detrimento do vizinho, quiçá do próprio irmão. Ou do nosso filho, roubando-lhe o neto. Se vos parecer cru isto que digo, ainda bem. A factura falsa é a nossa vocação, não a reivindicação de um fisco mais justo, mais equilibrado, mais pertinente. É como dar uma moeda de dois euros para a-fome-em-Angola. É ou não é? É pois. Ou como ter saudade do tempo em que já tínhamos ido bardamerda mas não sabíamos, como ainda hoje não sabemos e como amanhã nos não lembraremos.
Que carago.