Saturday, December 24, 2016

PALAVREADO COM DISCRETO REMATE PESSOANO - in Rosário Breve nº 486 - in O RIBATEJO de 22 de Dezembro de 2016 - www.oribatejo.pt

Palavreado com discreto remate pessoano



1 A páginas tantas da sua História da Literatura Portuguesa, Teófilo Braga cita um tal “Caro”. Trata-se talvez (não tenho a certeza) de Elme-Marie Caro (1826-1887), filósofo francês que escrevinhava na célebre Revue des Deux Mondes. Nesse trecho, depois de enumerar os degraus da tomada de auto-consciência da humanidade (que se desanimaliza instituindo a família, a lei da cidade, a domesticação das espécies animais e das forças da Natureza), acontece uma ressalva notável: “(…) a civilização expulsando a barbaria, mas experimentando retrocessos terríveis desta barbaria, como por uma espécie de lei de atavismo que acorda, segundo nos dizem, de tempos a tempos no homem, os instintos ferozes de avós desconhecidos.”
Anotei a passagem, que agora dou à publicidade por partilha convosco. Para mim, são palavras que vingam pela infeliz actualidade: como se os séculos XIX & XXI se mesclassem os idênticos algarismos romanos por que são nomeados. Veja-se isto da Alemanha, mesmo agora: outro camião, outro assassino, outras vítimas mortais; isto da Turquia, com um assassinato em directo à hora da janta; isto tudo da Síria há tantos anos/séculos. Há pouquito, o Vietname, El Salvador, o Iraque, o Afeganistão, Timor-Leste – e mais uma imparável carrada de etc.
Não acho nada que a religião tenha a ver com isto. Trata-se do costume: petróleo, diamantes, narcóticos & matérias-primas essenciais ao forno devorador das grandes produções e dos consumos multitudinários. Trata-se da voragem do Poder, enfim. Deus, chame-se ele Alá ou Jeová ou Manitou ou Zeus ou Júpiter ou Inti ou Rá ou o Diabo por eles todos, pouco é para aqui chamado. Não alimento quaisquer ilusões quanto a isto. E não, não vou com o Pai Natal ao circo.
2 Então vou aonde? Vou, como os marinheiros fazem ao barco, pôr ao largo o coração. Como o que matou Bruce Lee não foi a brucelose, é descontraído que atiro as passadas aeróbicas rumo à minha doença favorita: ver o mundo local com olhos de lápis. É sempre maravilhoso. Exemplo imediato: passagem do Serafim das Arrufadas a bordo de um transatlântico novo – o titanic do dia é uma brasileira egressa de Goiás que ele conheceu durante um Sporting-Arouca ali naquele alterne logo a seguir às bombas da Repsol, vocês sabem e estão mesmo a ver. Adoro ver o desplante de satisfação reverberando nas trombas do Serafim: de Rôsemére do lado direito & a tilintar do esquerdo o porta-chaves do Mercedes importado de Frankfurt em sétima-mão (como a Rôsemére, aliás – digo: a sétima-mão, não a cidade das salsichas-de-lata). A felicidade é coisa tão pouquinha de tão fácil, pois então não é? O Serafim não é desses lingrinhas dados ao verso-livre ou às maluqueiras da pintura cubista, nem ao dodecafonismo intoleravelmente atonal ou ao polemismo azedo do tal Teófilo Braga. Não. O Serafim é feliz: instituiu família (tem dois filhos da Graciete Cabeleireira e um outro de uma estagiàriazita zarolha do Centro de Emprego), domesticou quatro cães, três periquitos, dois árbitros dos Distritais & uma porca para o S. Martinho que vem, anda contente com a nova Loja do Cidadão ao cabo de cinco anos-sant’engrácios, tem pára-raios no canhão da chaminé – todo ele é, enfim, um civilizado. Não é daqueles tristes que, tendo medo da própria sombra, nem sombra de si mesmos chegam a ser. Népias disso. Como ganha a vida com um esquema de facturas-falsas que não dá trabalhinho nenhum & é sempr’àviar, é muito gajinho para singrar na política, tipo presidente-da-junta ou menos.
Quem quiser provas de que só digo a verdade, toda a verdade & nada menos que a verdade, que vá com o Serafim ao circo: mas do flanco esquerdo dele, que à direita vai a Rôsemére navegando.
E é de coração-ao-largo que navegar continua a ser preciso.


Thursday, December 15, 2016

22 DEZEMBROS NA MELHOR COMPANHIA - in Rosário Breve nº 485 - in O RIBATEJO de 15 de Dezembro de 2016 - www.oribatejo.pt





22 Dezembros na melhor companhia



Mantenho desde 1995 um registo minucioso de leitura(s). A esse acervo vou de quando em volta acender lume na obscuridade do tempo que passa. Acontece-me muito, aliás, proceder a re-leituras por causa disso: como lerei nesta idade o que em outra mais moça li? Desta vez, porém, revisito o caderno para dar cabedal retrospectivo à presente crónica. Catarei apenas alguns títulos – e apenas dos 22 Dezembros entretanto acontecidos.
A 15 de Dezembro de 1995, concluí a frequência de Seis Propostas para o Próximo Milénio, do brilhantíssimo Italo Calvino – cá está uma releitura a fazer em breve.
A 12/XII/96, cheguei ao cume da Montanha Mágica, de Thomas Mann. É obra monumental, que relerei também – e sem qualquer receio de me parecer, duas épocas volvidas, menos montanhosa.
Dezembro de 1997 foi mês-Cortázar: leituras de El Examen (a 17) e de Octaedro (30), além da já então re-leitura de Blow Up e Outras Histórias (também a 17). Tal como Calvino & Mann, o grande Argentino é santo cativo do meu bibliómano altar pagão.
Dezembro/98 começou da melhor maneira: a 8, Peregrino e Estrangeiro, da maravilhosa Marguerite Yourcenar.
Na madrugada de 28/XII/1999, concluí a primeira volta integral ao magnífico Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, do nosso boníssimo Manuel António Pina.
O derradeiro mês do ano 2000 foi ocasião propícia para o usufruto de uma obra-prima: a 23, Conversa na Catedral, do peruano Mario Vargas Llosa. Livro profundíssimo, de fortíssima construção.
Na última madrugada de 2001, tive a companhia de uma Senhora. Esclareço: companhia por correspondênciaEngano Astucioso, da ladina Ruth Rendell.
Em Dezembro de 2002, li muito Maigret /Simenon.
Um ano depois, aprendi muitíssimo com um brasileiro que é para aí umas cem (ou mil) vezes melhor cronista do que eu: Luiz Fernando Veríssimo – a 4, Comédias da Vida Privada (101 Crónicas Escolhidas); a 29, Novas Comédias da Vida Privada; nos entrementes veríssimos, papei, a 21, do também brasileiro Fernando Sabino, o excelentíssimo romance O Encontro Marcado.
Acelerando ora o passo antes que o espaço se me acabe:
de Dezembro de 2004, destaco O Ente Querido, de Evelyn Waugh (a 6) e La Symphonie Pastorale (a 21), de André Gide;
XII/2005: teatro do insigne Harold Pinter – O Quarto (a 21); Feliz Aniversário (a 27); O Serviço, a 29;
XII/2006: dentre o mais, a biografia Joan Manuel Serrat, belo cantor catalão (d)escrito pelo gigante, e catalão também, Manuel Vásquez Montalbán (a 26);
XII/2007: andei mormente pelas anglografias – o fantástico (na dupla acepção do termo) E.A. Poe, mais H. Walpole, S. Warren, Prosper Mérimée, E.P. Oppenheim, A. Berkeley, juntando-se a estes insignes senhores o casal Cole (George Douglas Howard & Margaret);
na tarde de 8/XII/2008, li Sobre Não Estares, do nosso Joaquim Jorge Carvalho;
na noite de 28/XII/2009, foi a vez de O Livro da Confiança, de um senhor padre chamado Thomas de Saint Laurent;
o último livro consumido em Dezembro/2010 foi, na noite de 16, de uma estrela literária alemã, Peter Handke de sua graça: Uma Breve Carta para um Longo Adeus;
em 2011, excelentíssimo início do mês terminal: Crónicas de Fernão Lopes (escolhidas e anotadas pela sábia senhora D.ª Maria Ema Tarracha Ferreira).
[Calma, que estamos quase a chegar ao presente.]
2012, dias 4, 10, 13 & 27/XII – viajei pelo Portugal Século XX - Crónica em Imagens, com direcção de Joaquim Vieira para o Círculo de Leitores: é obra monumental que (nos) abarca como Povo de 1900 a 2000, à razão de um volume por década – finíssima síntese documental;
Dezembro de 2013 foi de altíssimo quilate – frequentei com grande proveito, se aproveitamento não, Guy de Maupassant, Brecht, D.H. Lawrence amaila densíssima senhora que houve por nome Virginia Woolf: respectivamente, Bel-Ami (a 6), Histórias de Almanaque (a 12), O Raposo (a 14) & Um Quarto que Seja Seu (a 30);
dos demais de Dezembro/2014, sublinho, do magnífico historiador francês Georges Duby (grande escritor!), As Damas do Século XII (a 12), e a Correspondência 1905-1922 do nosso Fernando Pessoa, a 17.
Já em Dezembro do ano passado, calhou a vez a um bom achado d’alfarrábio que entretanto fizera numa banca de rua (por um eurito): La Crise de la Démocratie Contemporaine, obra ominosamente saída em 1931, ou seja, no imediato pré-hitletarianismo, da autoria de um tal Joseph-Barthélemy.
No corrente mês do ano que, areia entre os dedos, se nos acaba, li finalmente de ponta a ponta Os Simples, do nosso poeta Guerra Junqueiro, lírica precedida de um precioso ensaio de Moniz Barreto intitulado A Literatura Portuguesa no Século XIX.
Hoje, quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016, estou a ler o noss’ O Ribatejo. E tu também. 

Thursday, December 08, 2016

FALA O CRÓNICO - in Rosário Breve nº 484 - in O RIBATEJO de 8 de Dezembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Fala o crónico



Uma volta sem pressa nem ânsia dei por beira-rio, já a tarde declinava o latim do recolhimento de si mesma. Visto de fora, levava-me um corpo como todos: saco de vísceras atado em cima por um olhar em constante retrocesso daquilo a que os pios chamam alma mas os ímpios, lembradura. Desafeito a procurar o que seja ou a esperar o que for, não levava tema nem me traziam motivo, fito ou assunto para a crónica. Ia por ali disponível às possibilidades combinatórias do mundo local – o qual, por artes & manhas do pensamento matizado de doideiras líricas, nunca é apenas o chão que se pisa ou o céu que se não voa, nem apenas o plátano de que se partilha o ar vertical, nem tão-só a imitação de rio que cada um é porque feito quase todo de água também.
Como os doidinhos-mansos, é verdade que me fui apanhando a sorrir sem interlocutor visível, por exemplo ao ocorrer-me aquilo do ex-casamento que tanta má-língua faz salivar por edis terras de Tomar, ou aquilo do afiar-navalhas-amolar-tesouras pró-Autárquicas-2017 por bandas de Abrantes (na forja laranja mormente), ou pela fatal Santarém em que se pranteia (mais uma) degradação a céu-aberto (cf. pavilhão desportivo), ou aquele anedótico tiro-no-pé da petição anti-vinda do Papa a Fátima, ou in Cartaxo a confessa & assumida desunião que grassa entre as corporações bombeirais do distrito, ou o anacronismo da velha ponte entre a Chamusca e a Golegã mais estreita do que a minha carteira, ou o fétido cancro em que o Tejo se volve mercê de um punhado de gananciosos que se não reconhecem feitos da mesma matéria dos rios, da chuva, do mar – que formas são todas do colostro mater-universal.
A todo este rol enxotei porém como a moscas desalmadas. Se por mim o mundo se não perde, também por mim se não salva. Esperto, fui auferindo a branda brisa que em pleno voo caduco rodopi’anim’ava das árvores as folhas terminais: belo é o strip-tease outonal. Abanquei o rosto-de-baixo em uma afável & amável esplanada servida por & de raparigas. Já o entardenoitecer esp(o)alhava derredor sua sangria de açúcar colorido. Era um daqueles instantes sem data que nos maculam de nostalgia: espécie de eternitarde tardia & não-eterna. Aí te apercebes sem esforço de teres nascido sem que to perguntassem & de ires morrer sem que te respondam.
Por precaução posológica, receitei-me uma cerveja fria, de que me ungi qual cristão mui dado à comunhão da fé-33-centilitros. Fui amainando os meus cavalos íntimos até uma espécie de dormência sem pecado nem humilhação.
Um toque no ombro – fecham cedo, à semana. Paguei com as últimas moedas da terça-feira, rederivei o retorno pelas pègadas da vi(n)da, achei-me recomposto em formato de última-página: é-me crónico que a crónica acabe acontecendo.
Para minha boa-sorte, no postigo da página só se me vê o olhar, não o saco visceral que ele ata com guita de lentes bem mais progressivas do que eu. Do que eu – e do que uns quantos que em Tomar, Abrantes, Santarém, Fátima, Chamusca, Golegã & Cartaxo, de Tejo à vista, etc. etc. etc.


Thursday, December 01, 2016

SIMPLESMENTE MARIA - (republicação) - in Rosário Breve nº 483 - in O RIBATEJO de 1 de Dezembro de 2016 - www.oribatejo.pt





Simplesmente Maria




O título desta crónica é copiado.
Era como se chamava uma fotonovela (tenebrosa como todas as foto, rádio e telenovelas) que na minha infância enfraqueceu as coronárias a muita costureira. Directamente provinda da pobreza, a Maria em questão chegava à cidade montada num burrinho delicodoce, alcançando, depois de peripécias mil ou novecentas, o clímax e o casamento. Não m’alembra o resto da história, pelo que passo a especular.
Tudo acaba quando acaba em casamento. Ou não? Dissestes vós alguma coisa? Não? Posso continuar? Enfim, agora que o meu outono particular começa amarelecendo até as folhas dos cadernos onde lapijo estas histórias irremediáveis, dou por mim pensando em Maria. Deve ser ela, hoje, mulher dos seus cinquenta e muitos. O mais certo é ter-se separado do engenheiro ou médico ou arquitecto ou advogado de sonho com quem, então, aliançou suspiros. Deve ter-se fartado das patilhas dele, do apartamento em Santo António dos Cavaleiros, das pontas arrefecidas de Ritz a boiar no laguinho triste da sanita. Talvez ele lhe tenha prometido um futuro de manteiga que com os anos se volveu margarina, simplesmente margarina. Quase aposto que ele teve e manteve amantes enquanto ela se aborrecia no cabeleireiro a erguer vasos de cabelo à senhora Knorr e à senhora Maggie e à senhora Vaqueiro e à senhora Dabri e à senhora Tokalon e à senhora Creme Byly. Mas também pode ser que, aos cinquenta e tal, se tenha ela arranjado com um rapazinho directamente provindo da pobreza para tentar na cidade uma carreira de cantor pleibeque ou coisa assim. (O bom de escrever é que tudo pode ser.)
O futuro torna-se, com o passar dos anos, menor do que o passado, essa é que é essa. O passado é o sítio mental onde as donzelas pobres, escarranchadas em burrinhos, continuam chegando à cidade pirilampada de reclamos luminosos na noite cosmopolita. E é também, bem mais bastas vezes do que gostaria, o meu sítio. Nele busco, com a ponta do lápis, as referências mais ínclitas, os mais egrégios avós, os heróis de um mar a que basta somar ia para dar Maria.
Maria que, sozinha de novo, liquida o salão de cabeleireira e regressa, não de burrinho mas de Clio, às berças natais. A taberna tornou-se snack, o padre já não é Sacramento mas Eliseu, a primária fechou por falta de crianças, o outeiro onde as cabras pastavam com lenta filosofia está agora crivado de rápidas maisons fechadas onze meses ao ano, a avó de Maria simplesmente morreu de ter noventa anos há mais de trinta, os cães já não comem broa e o pai de Maria, que lhe perdoou a fuga, lacrimeja pingentes de velho comovido à aparição da filha, cujo telemóvel começa a tocar quando ela o abraça.
Estou, sim pois, é assim, agora já não dá, não, se voltar é porque acabaste de vez com essa sirigaita, tu é que sabes, tu é que sabes, só tenho de saber que acabas de vez, é assim, isso e as beatas no laguinho triste da sanita, caso contrário não dá, Bernardo. Bernardo promete que dá.
O passado acaba sempre bem.

Thursday, November 24, 2016

A IDADE DE DEUS & A MINHA - Rosário Breve nº 482 - in O RIBATEJO de 24 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt

A idade de Deus & a minha

Uma boa maneira de haver menos idiotas no mundo é não fazermos mais filhos às mulheres deles. Digo-o eu, assim um bocadito co’s nervos. Mas só um bocadito: na minha idade, é bem mais curial cansar-me galgando escadas do que dando fôlego à globalizada imbecilidade que pelo mundo campeia e ao mundo infesta.
Ah, tivera eu hoje menos uns vint’anitos no couro que decerto me indignara mais & com mais férrea força ante tanta incomunicação-dita-social do jornaleirismo-croquete em voga. Sabeis? A gula dos mirones ante as sessões de porrada Carrilho-Bárbara. A gosma dos voyeurs perante as neonamoradas do Futebol Pinto da Costa & do Sporting Carvalho do Bruno. O frisson do galinhedo paraliterário cacarejando o-Dylan-merece-o-Nobel-porque-sim-sim-senhores e/ou por-causa-disso-é-que-o-Leonard-Cohen-morreu-de-desgosto e/ou/ainda com-a-azia-o-Lob’Antunes-já-deve-andar-a-sonhar-com-pelo-menos-um-Grammy-para-o-ano-que-vem.
E depois, aquela farruscada toda da questão dos taxistas (de Lx., note-se) co’ a Uber & a Cabify, a qual só me desperta uma ilação de pronto & evidentíssimo teor homofóbicoiso e que é a seguinte: nunca é de confiar num gajo que nos deixa ir atrás. Ou então aquela que mete meninas: o Instituto Nacional de (ment’)Estatística revela que em Lisboa existem 189 meninas virgens por cada taxista sério – mas só há prova confirmada de 188.
Mais: a clara & flagrante certeza de as praxes estarem para a dignidade académica como o Relvas para a mesma. Isto por causa de uma equivalência que me parece clara como aquilo à volta da gema do ovo: se o analfabetismo funcional fizesse ondas, o ensino-dito-superior português seria um tsunami de alto-lá-co’-baile-e-pára-o-charuto.
E a carneirada das selfies? Não V. faz impressão, nas tragicomediantes redes-alegadamente-sociais, aquela malta toda só com um braço? O problema de tanta clonestupidez é afinal napoleónico: por causa do seguidismo, vai tudo para (o) maneta.
E a rábula do declara-não-declaro-nada-o-património dos indigitados (tu)barões daquela Caixa que dizem ser nossa? Ide por mim: fornicar os ricos não é sexo – é amor.
Ainda há pouco, era voz-corrente esta barbaridade acéfala: “Taxar os gajos de 500 mil euros p’ra cima é matar o investimento.” Ai é? Ai é? E fomentar o desemprego é o quê, ó cáfila de cornúpetos descalcificados?
Cá p’ra mim, a pessoa deixa de ser criança quando cessa de acreditar no Pai Natal. E volta a sê-lo quando começa a acreditar no Sócras. Foi como com aquilo das entrevistas do juiz Carlos Alexandre – só achei mal ele ter escolhido a SIC e o Expresso. Sim, mal: então duas vezes o exclusivo para o PSD-à-la-Balsemão porquê? Não há mais papagaios nas outras gamelas partidário-jornaleiras? Há. Então, quid juris?
Ai, estranha és, ó Madre-Língua-Portuguesa minha. Estranha mas bela. Bela mas estranha. Quando decides elogiar alguém, dizes: “Não há pai para fulano.” Ou seja, valorizas o fidapu. Há mas é que não confundir o burkini raso com o Burkina Faso. E saber que a frieira rebenta a pele por vir da geada islâmica. E topar de antemão que a melhor maneira de abrir buracos num green novo é praticar o golf pérsico. O Deus de cá sabe que eu nisto tenho toda a razão, o (a)lá deles é que não. Quanto a mim, só sei que a fé & a ignorância são unha-com-carne vezes de mais. E que não é solução roer as unhas até fazer carne-viva.
E agora que a UE já não é só p’ra-inglês-ver? Agora que a UE já não é só p’ra-inglês-ver, retenhamos do brexit ao menos uma coisa boa, muito boa, pelo menos uma: são maiores as hipóteses de vermos menos por cá os execráveis McCann.
Ó pessoal, por favor atenção: apesar de todo o desarrazoado supra, sou muito menos esquisito do que o mundo em geral & do que a TV-por-cabo em particular. Ainda agora. Olhai-m’esta: acabo de ver uma série com cenas de vampiras lésbicas. Sim. Vampiras. Lésbicas. Coitadas! Devem namorar uma só vez por mês. (Como eu aqui em casa, aliás, num mês bom.) Ai, saudades do tempo da ditadura da RTP-única….Em casa de meus saudosos Pais, certa vez. Certa vez, em casa de meus saudosos Pais, o som do televisor pifou-se. A imagem, na mesma. Mas o som, népias. Eu era então tão moço, que cri com esperança naquilo resolver-se por si só. Continuei a ver. Nisto, aparecem as Doce. Lembrai-vos das Doce? Sem som embora, gostei muito de vê-las cantar. Idade feliz, essa minha. Não é como a idade de Deus. Deus perdoa, a idade não.
Nem eu.


Wednesday, November 23, 2016

Às 12h07m de hoje mesmo, 23/XI/2016, esta estrofe de quatro linhas (não é o mesmo que 'quadra') por causa e para o meu Amigo Joaquim Jorge Carvalho





O mundo é sempre do tamanho do mundo.
Aceita-me, bom King, este truísmo.
Alto de sua fundura, de sua altura fundo:
a terra faz de céu - e o céu, de abismo.

Sunday, November 20, 2016

Eliot, Cesário, Diniz & o 31 que O Ribatejo é - Rosário Breve nº 481 - in O RIBATEJO de 17 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt

Eliot, Cesário, Diniz & o 31 que O Ribatejo é

O nosso Jornal perfaz por estes dias a idade que foi terminal para dois vultos absolutamente maiores da nossa portugalidade: Cesário Verde e Júlio Diniz. Estes dois rapazes finaram-se com 31-anos-31, idade em que se deveria florescer, não descer à catacumba. Obstinadamente, O Ribatejo não se propõe morrer – antes sim ( para desgosto antigo de um Moita de que já ninguém mal se lembra & para desgosto presente de um Gonçalves que não deixará boa lembrança) renasce a cada aniversário: mesmo que sem esmoleres capas-falsas. Este periódico continua a ser um trinta-e-um, por assim dizer.
Tenho aqui no bolso, para a festa aniversária do meu/Vosso Semanário de eleição, a prenda de uns versos que não são de Cesário nem de Diniz [sim, insisto no Z do Autor da Morgadinha por ser como o próprio (se) assinava]:
«O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.»
Os versos são de T.S. Eliot (in Quatro Quartetos, tradução de Gualter Cunha, Ed. Relógio d’Água).
Cuidado: tenho ainda & aqui mais versos para a mesma festa. Estes é que já não são de Eliot. São de João Alves Coelho, versejador que, com o compositor José Maria Pereira (também) Coelho, criou o célebre Fado do 31:
«Ai… Ólarilolela
Como este não há nenhum (…)»
E é que não há. Nenhum. Aos 31 anos de idade, este Jornal continua a não embarcar em seguidismos acríticos, a não embalar-se de modismos trengos (ou trendy – olá, vereador Luís Farinha!), a não ser maria-vai-c’as-outras. O Ribatejo é eliotiano por saber que
«Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.»
Como irredimível é, por grave e baixo exemplo, a rábula da Loja do Cidadão em Santarém, que é mas não há. Como eternamente presente é, mas não deveria ser, a tragicomédia das Barreiras/Estrada da Estação/Pró-ano-é-que-é-a-culpa-é-do-Tribunal-de-Contas. Idem-aspas para a lixarada daninha que infesta a Cidade, cujo pecado-capital é ser capital de nada. Não falo no abstracto. Eliot connosco, se fazeis favor:
«O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Somente num mundo de especulação.»
Especular é duplamente congeminar e espelhar. Trocadilhando com outro versejador de grandíssima qualidade, Sérgio Godinho, espelhem a notícia.
Enfim. Retornemos à casa-de-partida. O Ribatejo sopra 31 velas acesas de pura resistência: resistência à sacana da (des)economia, resistência aos ventos adversos da politiquice, resistência ao desinteresse acéfalo do rebanho. Mas, felizmente, também as sopra em persistência: em nome dos que lêem porque pensam & dos que pensam porque, já agora, lêem.
Cá por mim, tanto leio O Ribatejo como Eliot:
«O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.»
A partir desta edição, é já no ano 32 que V. escrevo.
Assim sendo, e posto tudo isto assim, termino por hoje com esta rima trinta-e-um-mente bela:
«Ólarilolela».

Thursday, November 10, 2016

MEIO SÉCULO DE 'O JUDEU' - Rosário Breve nº 480 - in O RIBATEJO de 10 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt






Meio século de O Judeu



O Judeu de Bernardo Santareno foi publicado há 50 anos.
Obra-prima da literatura dramatúrgica portuguesa do século XX (e de todos os que vierem), é ponto cimeiro do extraordinário repertório teatral criado por António Martinho do Rosário, nome civil do dramaturgo nascido a 19 de Novembro de 1920 na scalabitana freguesia de Marvila.
O Judeu marca, também e ainda, a incursão de Santareno na dimensão épica do entrecho discursivo-dramático, monumento que alguns tolos (críticos de pacotilha, revolucionários de café) acharam “irrepresentável em palco”. (Talvez os engulhasse o parentesco brechtiano da viragem formal da escrita do Santareno pós-neo-realista.) Mas não só. A peça de Santareno tem por núcleo primacial a tragédia pessoal de António José da Silva (1705-1739), autor, como Santareno, de uma produção dramática incómoda (exasperante até) para o regime seu contemporâneo. As sátiras espirituosas deste cristão-novo (como As Guerras do Alecrim e da Manjerona) caíram mal, para dizer o mínimo, entre os intolerantes e fanáticos monstros da “Santa” Inquisição, que de muito mais não precisaram para o queimar em público auto-da-fé a 18 de Outubro de 1739.
Retratado & retratista (António ambos) irmanam-se na desventura trágica das respectivas existências terrenas. A António José da Silva corresponde Bernardo Santareno do paralelo modo como ao Santo Ofício dos séculos XVI a XIX corresponde a PIDE do século XX. A polícia política de Salazar não extinguiu fisicamente, é certo, Bernardo Santareno – mas tudo fez para lhe sufocar a Obra, a torrencial & primorosa obra teatral com que Santareno fustigou o despotismo ao tempo mesmo que exalçava a peremptoriedade da dignidade humana, essa dignidade que outra coisa não é, ou outro nome não tem, que isto & este: Liberdade (e da incondicional).
Em e a partir desse remo(r)to ano de 1966, O Judeu não pôde, naturalmente (aqui, o itálico não é de resignação fatalista mas de fatal acusação), ser levado à cena. Saiu em livro, para prontamente ser perseguido pelas feras cinzentas & analfabetas do salazarismo, que nessa década de 60/XX já estertorava de necrose. Todavia, um facto triste veio adensar a solidão vitalícia do grande escritor. (Faço aqui parágrafo para mais distintamente vos sublinhar a injustiça e a ingratidão dos factos:)
Não havendo, depois do 25 de Abril, qualquer razão (bem antes pelo contrário) para não representar O Judeu, as tricas & baldricas aparentemente fatais do milieu intelectual(óide…) português obstaram a que a magnífica peça tivesse palco & plateia antes da morte física de Bernardo Santareno. Com efeito, o grande dramaturgo, morrendo a 30 de Agosto de 1980, não assistiu já à estreia do seu opus-magnum, que ocorreu apenas e quase meio ano depois (a 20 de Fevereiro de 1981, no Teatro Nacional de D.ª Maria, com encenação de Rogério Paulo). Bem e acertadamente andou Luiz Francisco Rebello quando escreveu (in O Jornal de 5/9/1980):
Santareno não morreu na fogueira acesa pela Inquisição para suprimir o Judeu da sua obra-prima []mas consumiram-no as chamas de mil pequenos fogos ateados pela mesquinhez, pela intolerância, pelo ódio, até pela indiferença às vezes mais cruel ainda, que desde muito longe, desde Gil Vicente e mais atrás, têm sufocado a respiração do teatro português.
Consolemo-nos, digo eu, com a certeza de o gigante Santareno ter morrido na consciência muito íntima da sublime valia não só de O Judeu como de toda a sua Obra literária, a qual, resistindo à corrosão inapelável do Tempo, se iniciou em 1954 com A Morte na Raiz (poesia), permanecendo viva & actual para além da extinção corpórea do Homem/Artista que no-la deu.
Resta-nos demonstrar, como Público & como Povo, que somos merecedores de tão descomunal, tão alta, tão preciosa oferenda. Ou então que, não dela merecedores, ardamos a frio nessa labareda de gelo chamada esquecimento.


Thursday, November 03, 2016

OU ESTUDO OU NADA - Rosário Breve nº 479 - in O RIBATEJO de 3 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Ou estudo ou nada


Licenciei-me em Letras pela Universidade de Coimbra.
Antes porém dessa glória que para sempre me distingue, melhora, enobrece & separa da reles plebe mortal, tive de fazer (uma-duas-três-quatro) a 4.ª Classe do Ensino Primário – com exame na 3.ª & com exame na 4.ª.
Seguiram-se os 1.º & 2.º Anos do Ciclo Preparatório. Entrou então em vigor a nomenclatura da Escolaridade, pelo que dei por mim cursando (um-dois-três) os 7.º, 8.º & 9.º Anos – com exame no 9.º.
Por essa altura, vieram-me chegando, tomando-me sem remédio, o acne & a estranha consciência da existência do sexo-oposto. Borbulhas & raparigas cercaram-me (um-dois-três) os Anos 10.º, 11.º & 12.º – com exames no 11.º & no 12.º. Só depois, finalmente, as Letras, a Universidade, a Glória.
Través este percurso, dei-me paralelamente a práticas não-obrigatórias & a trabalhos não-forçados. Pratiquei piano, natação, xadrez, guitarra, andebol, futebol, acne & raparigas.
Certo dia, chegou a altura de ir trabalhar. Lá fui. Uns anos, fui professor do Ensino Secundário. Outros pós-estes, fui jornalista encarteirado. Quando sem saída nem fim-de-mês, fui pintor da construção civil. Também fui pai de duas meninas, profissão que nunca é possível trocar por outra impossivelmente mais bem remunerada. Hoje, que nem a pintura de paredes chama muito, vivo do que ganha a minha mulher.
O curso que nunca tirei, Senhores & Damas, foi o de jota. A minha universidade não era de Verão. A minha universidade dava trabalho do Outono à Primavera – e desde a 1.ª Classe. Não encarreirei, portanto. Nem (me) falsifiquei. Os meus livros, sou eu a escrevê-los.  
Sobre (mais uns) escândalos de licenciaturas falsas, digo nada. Limito-me a ter muita pena desta gente alérgica ao honesto estudo, desta maltosa impermeável à qualificação honesta, desta canalha que não sabe nem saberá jamais o que a Glória faz a um homem.
Que o diga a senhora minha mulher.


Friday, October 28, 2016

Thursday, October 27, 2016

ESCREVER NAS FOLGAS - Rosário Breve nº 478 - in O RIBATEJO de 27 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt



Escrever nas folgas


Um amigo meu é historiador amador. Comete monografias. Sabe coisas impensáveis que as mais das vezes resultam genealógicas. Ou pior. Uma inscrição de fontanário extasia-o como a mim só me acontece com, com quê?, talvez c’a Sophia Loren aqui há uns oitenta anitos. Da I República para trás e para os lados todos, cimabaixestiborbombordo, sabe tudo – menos o que será desta de agora.
Acontece que ontem, sob a morrinha persistente que acinzentava mais o dia do que à nossa vista a passagem de uma viúva sincera, apanhei-o esmifrado de nervos & sudorífero de raivas. Indaguei:
– Atão, pá? Tás c’umas beiças qu’inté parece que te caiu um músculo a dormir, home’! Qu’é que foi? Morreu-te a vizinha de baixo ou debaixo?
Ele desganiu-se-me com a explicação:
– Rafeiro, fui ao Arquivo Municipal ver se catava uma data infalível e olha, népias.
Tentei ajudar, claro. (Eu sou assim, ajudante. Nunca hei-de chegar a chefe por causa de ser assim, assim bom, assim porreirinho, assim amigalhaço, assim sempre-de-ajudar, assim mentiroso.)
– Que filão é que escavaste?
E ele:
Os Anais, claro. Mas aquilo era só folgas.
E eu:
Pá, isso é mau. Anais com folgas… E eram todos de trânsito só de-dentro-p’a-fora?
E ele:
Goza, meu ganda-marreco-das-orelhas, goza pr’aí. Era coisa importante, pá, coisa importantezinha, mat’rial necessário ó Pobo, pá, necessário cumò pão pà boca, cumò pão pà boca, pá.
Solidarizei-me. Ofereci-lhe que beber. (Só beber. É de lei que, co’ comer & co’ fumar & co’ aquele resto que toda a gente sabe, cada um paga o seu. E o dever acima de tudo, como na tropa.) Fomos ao Ramiro Tira-Linhas a modos que esvurmar uma tal pomada que ele lá tem, mas tal, que os médicos só não a receitam para o ranger das artroses e para as borrachas da figadeira porque isto de médicos e laboratórios, pá, isto de médicos e laboratórios é tudo Roque-da-Amiga & Amiga-do-Roque. É-é, mas-é-qu’é mesm’assim. Entonces, depois de umas pucheiritas lá mudámos para o cântaro, que sempre fica mais em conta.
Na brevidade que a vida é, por contar menos um dia do que o carnaval, a pajens-tantos intentei cognoscer (no mínimo, cognoscer, que eu ainda fiz o quinto-ano antigo), quer’eu dizer, apurar o âmbito & o intuito das anais escavações do meu amigo.
Ele recognosceu-me ist’assim:
Tinha a ver com a data exacta, ali exactinha preto-no-branco, da última vez em que a Câmbra interveio, pá, sei lá, nos problemas. Os problemas, tás-a-ver?, as cenas que dão mau nome aqui à parvónia, pá, aqui à parvónia, pá, mau nome, tás-a-ver?
E eu:
Tar-a-ver-tou. Mas assim tipo alguma zona em particular, sei lá, tipo ali nas Trigosas?
E o sacana do gajo a esgalhar-se todo de risota & a cuspinhar farelo de pevides pa’ todo o lado, o sacana do gajo assim na mouche qu’eu às vezes c’a pomada fico:
Trigosas? Trigosas? Ó meu, bebe cérélác sem grumos cuspidos, meu! Eles lá nas Trigosas não são de folgas, meu. Se precisam, não pedem nem esperam. Fazem. Fazem ali feitinho. Entre todos. Para todos. E pluribus unum, carago! Mete lá esta nos teus anais, anda.
E eu meti. Tanto meti, qu’inté escrevi esta de pé e tudo.


Thursday, October 20, 2016

TRÊS DE JANEIRO, POR EXEMPLO - Rosário Breve nº 477 - in O RIBATEJO de 20 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt






Três de Janeiro, por exemplo



A 3 de Janeiro de 1903, Alois Hitler, pai do Adolf, morreu. O mal estava já feito, todavia. Klara, a mulher dele, foi definitivamente roída pelo cancro em 1907 – mas o mal não apenas teimava feito como crescia. Sobre a morte desse obscuro funcionário público austríaco, o mesmo há a reter que da sua vida: cinza uma como cinza outra. A coisa passou-se.
Exactamente 22 anos depois, eram suprimidos em Itália os partidos políticos que queriam ser oposição à meteórica trajectória ascendente de um tolo perigoso chamado Benito. (Nessa precisa data de 3/I/1925, contava a senhora minha Mãe 68 dias de vida – e era decerto feliz, pois que então purificada pelo esquecimento do futuro.)
O futuro é que se não esqueceu do seu destino demolidor. Assim foi pois que, num terceiro dia januário também, mas o de 1935, se assiste em Coimbra a uma cena causadora de colectiva tristeza. Tem a ver com demolição & destino: por decisão da Câmara Municipal, é demolida a altaneira e histórica Torre de Santa Cruz, em frente ao formoso Jardim da Manga. A construção ameaçava iminente & eminente derrocada. Tinha de um lado o Celeiro dos frades crúzios (onde funciona hoje em dia a esquadra da PSP) e do outro a Enfermaria, que foi depois residência do senhor Prior e biblioteca até se tornar no que é hoje: a Escola Secundária de Jaime Cortesão.
Treze anos exactos se esfumam. Não estamos já em Coimbra lacrimejando de impotência à face do sacro entulho. É ora em Lisboa que estamos. Por magia, quantos são hoje? 3 de Janeiro. O ano é 1948. A noite promete: há fadistagem no Café Luso, como de costume, mas este serão é especial por ser o da consagração de um fadista chamado Alfredo. Desde outro Janeiro (o de 1941) que o Luso já não é na Avenida da Liberdade (onde nascera em 1927), trasladado que foi para as antigas adegas e cocheiras do Palácio do Largo de São Roque, ali à Travessa da Queimada (8-A, telefone 32 889). Chama-se agora Cervejaria Luso. Há menos de três anos que o filho do tal Alois foi ter com o pai. Há menos de três anos que o Benito foi pendurado pelas patas como uma carcaça de açougue. Os ventos da democratização que por (alguma) Europa grassam, não desgraçam porém a cinzenta nau ibérica, cujos timoneiros se chamam Franco e Salazar. Muitos Janeiros hão-de arder a frio até que seja Abril. Mas hão-de.
Ainda assim, e meros doze anos passados sobre a boémia consagratória do fadista Marceneiro, a estagnação estadonovista é furiosamente sacudida de cabo a rabo. 3/I/1960 – de uma das mais perversas prisões de alta-segurança da Ditadura, o Forte de Peniche (que nos nossos tristes presentes dias os patarecos da dinheirama fácil & rápida parece quererem transformar em amnésica hotelaria), chega notícia de sensação: fugiram uns gajos que ali estavam presos “por seu livre pensamento” (cf. fado Abandono, vulgo Fado Peniche, pela divina Amália). Eram eles: Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, Rogério de Carvalho, Francisco Martino Rodrigues & um tal Álvaro Barreirinhas Cunhal. A intrépida evasão roça a ironia histórica. Porquê? Por se dar precisamente dez anos & um dia depois da morte de Militão Ribeiro, acontecida a 2 de Janeiro de 1950 na Penitenciária de Lisboa, supostamente ao cabo da greve de fome que a cabo levava contra a falta de assistência médica. Militão e Cunhal haviam sido presos conjuntamente pela PIDE em 1949. Nunca mais seriam presos: Militão, pela absoluta libertação chamada Morte; Cunhal, pela absoluta liberdade chamada Vida.
De modo que: 1903, 1925, 1935, 1948, 1960. Tudo depois de Cristo. E a 3 de Janeiro tudo. Queira todavia o meu Leitor tomar nota ainda de uma outra efeméride. A próxima edição deste Jornal não há-de esperar pelo 3 de Janeiro do ano que há-de vir. Pois não. A próxima acontece a 27 de Outubro.
Ora, a 27 de Outubro nasceu a senhora minha Mãe.
Mas aí a História, porque futura, porque purificada, porque nunca esquecida, aí a História já é outra.

Thursday, October 13, 2016

Coisas que a vida e Abrantes me ensinam - Rosário Breve nº 476 - in O RIBATEJO de 13 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt



Coisas que a vida e Abrantes me ensinam



1. “Lamento ter nascido.”; “Gostei muito de ter nascido.” A primeira frase é do ensimesmado poeta António Ramos Rosa. A segunda, do feliz & polivalente fazedor de campeões Moniz Pereira. Constam ambas de um livro intitulado O que a Vida me Ensinou. A obra compreende 34 depoimentos (23 homens, onze mulheres) de notórias figuras da nossa intelectualidade contemporânea coligidos pelo jornalista Valdemar Cruz para o semanário Expresso entre 2002 e 2005. A edição livresca aconteceu em Março de 2007, sob a chancela editorial da Temas e Debates. À data do livro, três dos entrevistados haviam morrido já. No entretanto destes nove anos & sete meses, muitos deles partiram já também. Todos tinham não menos do que 70 anos quando o jornalista com eles se encontrou.
A leitura enriqueceu-me. É um trabalho limpo, que vivamente recomendo a todos quantos dispensam à livralhada uma atenção & uma intenção que só proveitosas podem ser. Sublinhei muito, gastei todo um lápis. Adriano Moreira patenteou sem esforço a sua clara, incontornável sageza. O excesso pró-aforístico de Agustina não me aborreceu tanto, não desta vez. Siza Vieira, todo elegância. O sobredito Ramos Rosa pareceu-me o que o labor poético dele me parece: cansado & cansativo. Gostei muito do auto-retrato vital da fadista Argentina Santos. Eduardo Lourenço é um monumento. O investigador Fernando Catarino deu-me ideia de areia a menos para a camioneta exibida. Fernando Lanhas, giro, patusco, sábio. M.ª Helena da Rocha Pereira, maravilhosa. Manoel de Oliveira, banal & sobrevalorizado. D. Manuel Martins, vero filantropo & alma boa. Maria Keil do Amaral angustiou-me. Nella Maissa, prodigiosa. Óscar Lopes, outro monumento. Margarida Tengarrinha, humaníssima & exemplar. Sequeira Costa, profundo, grave, ortoépio. O industrial José Manuel de Mello, absolutamente execrável. Completam o rol: Anthimio de Azevedo, Borges Coelho, Eunice Muñoz, Fernando Távora, Galopim de Carvalho, Glicínia Quartim, Helena Sá e Costa, José Pinto da Costa, José Saramago, Júlio Pomar, Júlio Resende, Luísa Dacosta, M.ª de Lourdes Levy, Nuno Grande, Ruy de Carvalho e Vítor Crespo. Da minha leitura, mais por ora não digo. Diga-me da sua o Leitor, se caso disso for.

2. Outra proveitosa leitura que fiz por estes dias: Intelectuais Portugueses na Primeira Metade de Oitocentos (de M.ª de Lourdes Costa Lima dos Santos para a Editorial Presença, Lx., 1988). É tese de doutoramento muitíssimo bem lavrada. A poucas páginas do fim, aprendi que foi fundada em Abrantes, no remo(r)to ano de 1802, uma tal Sociedade Literária Tubuciana. Era dela figura-de-proa um Rodrigo da Silva Bivar, “Inspector da Plantação das Amoreiras e Director da Fiação da Seda”. A doutoranda Autora remete o interessado (em a nota remissivo-bibliográfica n.º 11, pp. 325) para uma monografia de há 40 anos – A Academia Tubuciana e os seus Membros, de Luís Bivar Guerra, in Anais da Academia Portuguesa de História, Lx., 1976. A abrantina agremiação de nome esquisito não esgotava o intuito pragmático na amoreira e no bicho-da-seda. Não. Leia-se: “(…) os seus objectivos eram mais vastos, visando concorrer para a felicidade da Nação através dos trabalhos dos seus membros nos campos mais variados (nos Programas da Tubuciana para 1803 e 1804 os assuntos propostos para apresentar comunicações abarcavam os domínios da História, da Literatura, do Direito, da Economia Política e da Agricultura).”
Mais: a Tubuciana não queria saber de não ser na Capital que tinha a sede. Pelo contrário, chateava Lisboa sempre que tinha por bem chateá-la. Exemplo: faltando “provimento de professores de primeiras-letras e de latim em Abrantes”, Diogo Bivar (filho e sucessor de Rodrigo) foi de mandar “uma representação ao Governo, censurando a Junta da Directoria Geral dos Estudos”. Lisboa ainda refilou, dando ordem ao juiz-de-fora de Abrantes (que até presidia à Tubuciana…) no sentido de “repreender severamente a ousadia com que na representação tinham sido caluniadas as diligências públicas da Junta” – mas o certo é que, “logo depois”, houve mando de “abrir concurso para que as cadeiras de latim e de primeiras-letras fossem providas de professores seculares com os devidos ordenados”.

3. Que aprendi eu, pois & assim? Aprendi que nem a Vida nem Abrantes me parecem ser já o que eram dantes.




Thursday, October 06, 2016

Rosário Breve nº 475 - in O RIBATEJO de 6 de Outubro de 2016 - www.oribatejo.pt



À vista armada (crónica a olho nu)



Agosto passado, voltei a perder os óculos. Até poder usar uns novos, o mundo volveu-se-me ilegível. Ilegível e ainda mais ininteligível do que de costume. Foram maus dias. Era como, sem ser peixe, habitar um aquário. Na rua, as pessoas (a)pareciam-me como espectros glaucos, o ar ardendo em aura à volta de nódoas escuras que eram as cabeças – um pouco à maneira do povo dos sonhos: adumbrações exiladas de qualquer esperança de nitidez. Da vizinha do quarto-andar, o gato tomou ameaçador & furtivo aparato de tigre. Foi mau. Livros, nem pensar. Internet, adeus. A minha assinatura em papel do noss’O RIBATEJO só trazia fotografias molhadas sob a tutela escarlate do título. O pior passou-se com a minha própria mulher.
Com a minha própria mulher, passou-se que, como eu não a distinguia das outras, comecei a chamar-lhe nomes que ela não tem nem merece. Conseguintemente, passei a dormir exilado na saleta de passar a roupa a ferro. Convivi com meias, pijamas, bonés & camisas que eu já não sabia que tinha ainda. A minha cabeceira foi uma caixa de sapatos sem sapatos mas plena de identidades (e de oportunidades) perdidas. Explico-me: era a caixa de cartões caídos (como eu nesta vida tantas vezes, hélas!) em inutilidade anacrónica por desuso. Revi então as minhas mocidades à-la-minuta:
o meu cartão de xadrezista aos 12 anos pela Académica;
aos 13, o meu passe de iniciado pelo futebol do União;
a quadrícula de director-auxiliar da Tuna, aos 16;
a cédula de pescador fluvial, que acabei por renegar ao descobrir que aquilo era, afinal, uma licença-para-matar;
o meu primeiro BI, amarelidão de documento autenticador mas falsário de uma filiação que por todo o lado, todos os dias & a toda a hora, com ou sem óculos, procuro entre os vivos mas não encontro: o meu Pai, a minha Mãe;
convenientemente roído, o meu certificado de sócio-fundador da Federação Portuguesa de Onicofagia;
o diploma-de-mérito da Sociedade Nacional de Fermentadas & Destiladas;
e ainda, também e finalmente, a certidão de utente da Sopa dos Pobres que ficava ali ao pé da Igreja do Deus-me-Livre.
Chegado o Setembro, a minha Graça condoeu-se. Era muito dia de eu desandar por este triste mundo tiquetaqueando as calçadas de bengalinha extensível de alumínio às risquinhas vermelhas-e-brancas com um cão também cego ao joelho. Comprou-me umas cangalhas novas e mais caras do que os olhos da cara. Lentes progressivas do-perto-ao-longe, muito fixolas, de finas hastes que configuram, no meu rosto de pergaminho, uma iluminura de artista-frade-&-copista. É com elas armadas que V. escrevo.
Olhai ali, por maravilha: beira-rio, os choupos translúcidos filtrafarfalhando a doce luz do novel Outubro. Vêde comigo, além: um maduro de calções pedalando a reforma gorda a cavalo da BTTcicleta de três mil euros, no mínimo três milenas do belo. Assisti Vós ao que ora assisto: pespontando a azul-ferrete a qualidade diáfana da aragem da manhã, uma rapariga clara como a transparência do mais lúcido acetato.
E ainda: o solícito senhor carteiro do meu bairro, portador desta mesma edição do noss’O RIBATEJO, miraculosamente & de novo repleto de palavras que me devolvem uma identidade chamada pertença, esse tipo de pertença ao meu Leitor & ao meu Jornal a partir da qual nem preciso de óculos, por ser, como sempre tem sido & há-de ser sempre, uma coisa de olhos nos olhos.

Thursday, September 29, 2016

Rosário Breve nº 474 - in O RIBATEJO de 29 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt





Eu e José António Saraiva



1 Dirigi (oficiosamente, um; oficialmente, outro) dois jornais na minha vida de jornalista encartado. Nenhum deles expressamente viu o sol. Vale-me isto: eram mesmo jornais. Um era o Correio de Pombal. Outro, o Dito e Feito, sito na mesma parvónia. De ambos me livrei com o coxear rápido dos inválidos ante a ameaça das carroças sem travões. Tudo isto para preambular a minha leitura, que acabo de fazer, de “Eu e os Políticos”, de José António Saraiva, antigo director do Expresso e do Sol.

2 Li. Juro que li. É um nojo. Cheira a cuecas mentais que nenhum sabão de honestidade intelectual lavou. Está mal escrito, foi mal revisto, é mal intencionado. Custa-me mais por causa disto: José António Saraiva é filho de António José Saraiva (1917-1993), figura absolutamente maior da História Cultural Portuguesa. Custa-me menos por causa disto: é também, afinal, sobrinho de José Hermano Saraiva, contador de tretas reciclado pós-25 de Abril apesar de fascistóide ministro da Educação aquando da Crise Académica de 1969. Sim, li a coisa. Tem almoços, tem má sintaxe, tem promiscuidade, tem Lisboa a mais e País a menos. Destapa mortalhas sexuais que recobriam pessoas mortas. E gaba Maria Cavaco Silva por conseguir perceber o que ele/EU escrevia, em nome de um confessado (mas frívolo, mas falso, mas ignóbil) cartesianismo (página 43, sff) de quem nem da própria idiotia tem dúvidas.

3 António José Saraiva, pai deste Zé-Tó, foi (e segue sendo-o, mercê da perpetuidade devida aos livros bem escritos) o meu gajo absolutamente referencial da História da Literatura Portuguesa, em co-autoria com o também gigante Óscar Lopes. Pela portuense Editorial Inova (vivam os meus 17 anos, carago!), o título Inquisição e Cristãos-Novos mora-me e demora-me no saber necessário da identidade histórica deste (ainda?) Povo que somos. O volume da Bertrand (capa amarela, riscada obliquamente) de 1977, Filhos de Saturno, trazia o polemista ex-PCP de outras velhas-guardas. Mas era um plumitivo do caraças, o Doutor António José Saraiva! Adunco, fanhoso, bigode obstinado. Nada a ver com este arquitecto desvelador das Câncios e das Marantes, dos mentideros propiciadores da amnésia rápida e da influência nenhuma. Nenhuma. Ou: se alguma – mudar de passeio, até por nojo de alguma contagiosíssima sífilis estilística, à vista de tal deserdado.

Este jornal em que escrevo não oferece almoços in nas espeluncas caras de Lisboa. Mas também não bate em mortos que não podem defender-se, quiçá, dos boatos de alcova arrepanhados à liça por um medíocre que nunca escreveu no Correio de Pombal, quanto mais no Dito e Feito, quanto menos em O RIBATEJO

Thursday, September 22, 2016

Rosário Breve nº 473 - in O RIBATEJO de 22 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt





Santa Engrácia, vera padroeira de Santarém



1 Findava-se a manhã quando, dirigindo-me eu da marquise à cozinha no intuito de apurar do apuro da enxúndia galinácea que há duas horas borbotava ao lume brando, me ocorreu, em uma espécie de estremeção messiânico, o que acima botei por título. Senti logo que a frecha da verdade me varara o peito. Se a epifania pecava, era por genuína que pecava. Dúvida nenhuma, senhorinhos leitorões meus, pois que:
Obras da EN 114? – Santa Engrácia.
Loja do Cidadão? – Santa Engrácia.
Recolha & tratamento capazes, eficazes, a tempo-e-horas e limpinhos do lixo? – Santa Engrácia.
[E a este pouco santo descaminho parece ir deitando pernada a prometida (para este mesmo Setembro) intervenção consolidadora das Barreiras.]
Não sei bem a que propósito, ocorreu-me o malogro das cabaças na Torre a que elas cabaças deram nome, essas sonoras e repercucientes cabaças ocas que cabeças idem esvaziaram mais ’inda. O altaneiro e cabaceiro relógio torrejão não despede já chamada laboral de pega & despega aos trabalhadores que já não há por essas lezírias que a haver continuam. Mas adiante, que a cabaça é outra.

2 Recolhendo da cozinha ao chuveiro, fui esfregu’ensaboando-me as misérias dérmicas, envolto eu mais de vapor que de nevoeiro o pobre menino D. Sebastião. A acima relatada revelação untara-me de um vago misticismo pagão. Embrulhado no toalhão de felpuda crina que nos ofereceu uma senhora muito boazinha da Obra do Padre Américo que não perde um pobre, passarinhei descalço & pingão até à estante onde nos existe & nos assiste outra santidade, doméstica e máscula esta: São João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett. Sentindo-me o refulgente círio do olhar, logo esse meu adorado Cânone assim para mim:
“Era uma ideia vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas.”
Santarém, queria ele dizer – e disse – logo no capítulo primo das justamente célebres Viagens suas por arredores nossos. Num arroubo profano, fui de responder-lhe que:
“Meu senhor Clássico, meu apogeu Romântico, meu Primeiro Moderno: pois olha que Santarém continua tudo que dela disseste – Histórica de mais um século e mais seis décadas e mais dois anos desde que te finaste; Monumental de ferrolhos caretas e de cerradas tranquetas; e Vila – pois que de citadino pendão tem tão-só o vício administrativo e a canga fiscal, que, de resto, é mais brejo matoso de esguedelhada erva daninha sem corte por quanto é sítio público: assim conseguintemente, Santarém, de cidade, só a tarjeta autárquica e a clientela viciosa e a indecorosa camarilha de lusitanóide costume. Capital do Ribatejo, então, muito mais cada vez menos. Fica ciente. E o Vale da tua Joaninha cheira a voadoras fossas ubíquas e a frades mal lavados. Ciente ficas, meu bom Joaninheiro.”

3 Enxuto finalmente, ornei-me de não possidónias roupagens puídas mas limpinhas. (Ou limpinhas mas puídas – é conforme me dá na resignação ou no desassombro.)
Deu-se-me então o 1.º Desastre. Ao vergar a mola mole do espinhaço para efeito de encruzilhação dos atacadores sapatais, fendeu-se-me em irreversível rasgão a costura que vai do cós posterior à base da braguilha. Senti logo a friúra da aragem nas pudendas reentrâncias. Como só tenho aquele par de calças (descontando o de casamento, que há trinta anos me não sobe o joelho, quanto menos içar posso à ilharga), foi de calções de caqui cigano que saí à rua.
Deu-se-me então o 2.º Desastre. Ao lustral sol da praça já, lembrei-me do caldo ao lume. Aflição imediatamente vascular-cerebral! Apocalíptica bofetada de arrelia! E exsudorífera agonia fria. Deslarguei-me a correr de calções como se por milagre houvesse voltado a menino. Não esperei pelo elevador. Galguei mas foi degraus & patins – não aos saltinhos científicos à Nelson Évora, não, mas sim à marido de bombeira na antemão de caçado em flagrante por fogo-posto ao próprio casebre. Na esfalfad’arfante atrapalhação, deixei cair as chaves para aí umas setenta-e-catorze vezes. Adentro já, a esconsa cozinha volvera-se numa ominosa espécie de sauna crematória. Desfolhei do fogão a obstinada rosa do gás, deitei ao diabo o testo da panela sem tempo para urrar o calão das queimaduras, espreitei o mais actor-trágico possível: galináceo cremado, caldo evaporado e o fundo todo esturricado. Moral da história já a seguir no ponto 4 e último:

4 Com toda esta desEngrácia de Câmara, viver em Santarém não é canja.  

Thursday, September 15, 2016

Rosário Breve nº 472 - in O RIBATEJO de 15 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Madrigal



Voltei a despertar sem alarme e a levantar-me às seis da manhã. Durante o aparentemente infindável Verão, tornou-se-me impossível tal madrugação. Estou agora todavia pronto a retomar a vocação de guarda-matinas. É outra higiene mental, garanto-vo-lo sem tretas. É vocação erma & linda.
A cru, desjejuo a catacumba gástrica com um copo de água tépida. Deixo ferver no vazio. A nutrição mastigante tem tempo. O mundo da Casa renasce entretanto em tal singeleza, que nem de palavras precisa. Nem rádio, nem televisão, nem computador. Para que raio me serviria saber da rotineira balbúrdia dos acessos viários a Lisboa e Porto, igual todos os dias com seus toques por trás à Rotunda do Relógio e/ou à Fábrica de Produtos Estrela? E dos famigerados “mercados” abrindo em baixo hoje o que ontem fecharam mais abaixo ainda? Em vez disso, passarada trabalhando música lá fora, isso sim. Descerro o estore, deixo entrar o mercúrio frescote da primeira linha d’alva. Da cadeira do quarto, faço por revertebrar as roupas quebradas, demando os sapatos desirmanados, esqueço-me dos óculos afinal já postos ao norte da tromba.
As decisões começam impondo-se-me já, porém. Raspar a barba hoje – sim ou não? Calças de lavado? Se sim, as azuis ou as castanhas? Nestum ou resto da sandes de atum? E até que seja meio-dia – Aquilino ou Cesário? Tudo opções com algum aparato de complexidade, que adio para depois da chuveirada na carcaça.
Descaso-me. À face oriental da ponte, sustenho a passada para arbitrar uma verbosa porfia entre vendedeiras. Ao que percebo, receiam ambas (ou ambas desejam muito) vir a ser comadres: o filho da das couves & a filha da das fanecas etc.-&-tal já com bambino feito e a caminho. Alvitro-lhes que o melhor ainda seja esperar por quinta-feira, dia em que o Jornal sai com a minha decisão por escrito. Acham-me sensato. Isso maravilha-me: serão talvez as duas únicas mulheres do mundo a achá-lo-me. Maravilhado, desando & sigo.
Os expressos da Rodoviária disparam já à rosa-dos-ventos-cardeais. O de Lisboa leva um pouco mais de maralhal do que os outros. O de Abrantes leva a velha dos tremoços. O de Santarém acarreta sete ucranianos que vão para as obras das barreiras mas, pelo que (não) ouvi dizer, se calhar vão mas é de passeio à senhora-da-asneira. O de Coimbra não me leva.
Aos poucos, a terriola fervilha quanto pode. Já há velhas-do-galão-margarina-no-pão pelas pastelarias. Toxiarrumadores esbracejam já ao níquel no baldio que, dizem, a Câmara não tarda muito a eriçar de parquímetros mamões. O cónego da Sé paquidermandarilha com o breviário do Record.
Não deram ainda as oito & meia, mas os panos de relva do Jardim, rociados ainda do refrigério nocturno, surgem já esmaltados do sol salvífico. A estátua do Poeta Oficial, devidamente cagada das pombas à imitação do que lhe fizeram à Obra as moscas, boceja de bronze na praça das arcadas. Sob estas, tomam anis os grossistas e ponche os retalhistas: de riscado, de tabaco, de faianças, de retrosaria, de pitrol & de outros alternes com ou sem kizom(pim)ba.
Ao quarto-para-as-dez, a madrugada é já uma improbabilidade crepuscular. O nervo do dia tempera o aço da jorna. Um cantoneiro, furioso por ter tropeçado na tampa de saneamento que o madraço do gajo das Águas deixou esbeiçada de esguelha, vai ali à Alice Zarolha amandar-lhe c’um branco só por causa das merdas. Da gaiola aberta do andaime, o pintor adere esfregaço de tinta areada a uma empena de terceiro-andar. De patitas carcomidas pela própria dejecção, pombas coxeiam como polícias reformados. Passa mais além, de rolos-projectos à sovaqueira, aquele empreitovigarista que é amigalhaço do ex-cunhado do vereador que tem a mulher metida naquilo do Gás. Carrinhos-bebés passeiam paridas-solteiras. Do Anselmo das Bifanas mana um fio maravilhoso de petinga frita agorinha-mesmo que nenhuma perfumaria de Paris pode alguma vez emular.
Parece impossível: onz&quarent&sete são já elas. Campeio por berma-rio o retorno ao casebre. Na passadeira, deixo passar, que vai doida, uma ambulância de tal maneira aos uivos que deve ser um lobo a ir ao guiador. Quando meto a chave à ranhura, soa a sirena da Cerâmica. Que fazer primeiro? A crónica ou o almoço? Decido-me pelo raspar da barba, que hoje pode muito bem ainda vir hora de ser visto pela Ermelinda (erma, linda), a quem nem Cesário nem Aquilino aquentam ou arrenfentam, à semelhança do deitar-cedo-e-cedo-erguer, que a gente um dia é toda morrer, case-se ou não o filho da das couves com a faneca da filha da outra.


ENCONTROS DE BOLSO - republicação de texto, agora como crónica n.º 11 da série CONTRA OS CANHÕES - in Quinzenário TREVIM (Lousã), edição de 15 de Setembro de 2016



Encontros de Bolso



Junta-se um sem-fim de coisas nos bolsos. Cada um (não) sabe das suas. É preciso despejar os bolsos de vez em quando. Caso contrário, o acumulado toma-nos conta da vida.
Ia eu no comboio descendente. Meti a mão ao bolso à cata de uma afiadeira. Encontrei um lenço agora enxuto, resto mortal de um amor que deixou de valer a pena molhar. Encontrei a chave de um carro que não tenho há muitos anos por me ter esquecido de onde o estacionei. Encontrei uma unha que roí numa quinta-feira do ano passado. Encontrei o calor da minha mão. Encontrei um peixe que se tinha abrigado de não estar a chover. Encontrei um bilhete manuscrito com a voz do meu Pai a dizer “há arroz de frango está no fogão”. Encontrei o arroz, mas não o meu Pai. Encontrei uma maneira diferente de escutar as árvores. Encontrei um pássaro desenhado a feltro azul por uma estrela de cinco pontas. Encontrei uma estrela de cinco pontas que era, a feltro encarnado, uma mão de menina. Encontrei uma carta impreterível do banco. Encontrei a peça principal de uma máquina do futuro. Encontrei uma ponta de cigarro fumado por outra boca. Encontrei um jornal publicado antes de tu teres nascido. Encontrei duas folhas de árvore: a nervura de uma indicava a certeza da morte, a transparência da outra demonstrava a necessidade de nascermos. Encontrei um bilhete manuscrito com a voz da minha Mãe a dizer “se não quiseres o arroz estrela ovos não sujes o fogão todo”. Encontrei a tatuagem do marinheiro que todos deveríamos ter sido. Encontrei um brilhozinho nos olhos sem olhos. Encontrei o mapa dos rios do sangue. Encontrei a visão aérea da solidão. Encontrei uma pulga que fazia poupanças há quinze anos para comprar um cão maior. Encontrei a fotografia que vê a minha irmã vestida de verde a olhar pela janela uma manhã sem remédio.
Só não encontrei a afiadeira com que costumo aguçar o lápis que escreve estas histórias.