Thursday, February 20, 2014

Rosário Breve n.º 346 in O RIBATEJO de 20 de Fevereiro de 2014 - www.oribatejo.pt



Equivalências adversativas em nome do Diabo

Chamar universidade à Lusófona é o mesmo que chamar doutor ao Relvas. Fé na Virgem e o Diabo a correr. É como o Vara, por uns meros robalos, apanhar-se doutorado em Piscicultura. A Educação estropiada em antros afins, da pré-primária ao superior. Colegiais contratos-de-associação com paralelismo-pedagógico. Milhões públicos ao desbarato privado. Licenciaturas falsas como Judas pago a lentilhas corrupto-milionárias. Euromilhões do bacoco de província capaz de erguer um gimnodesportivo de cartolina para o futsal do 12.º sem esforço. Diplomas de carne-picada à bolonhesa segundo o tratante Tratado de Bolonha: faço de ti doutor-engenheiro mais depressa do que a desAssunção inEsteves há-de perceber o que seja um prefixo de negação. Para um imbecil académicoa praxe é um direito fundamental; para um imbecil jota todos os direitos fundamentais são referendáveis. Imbecil por imbecil, a coisa compõe-se. Mas no dia em que a deficiência mental for por lei equiparada à deficiência motora, os palácios e os terreiros-do-passos vão ter uma data de rampas. Deixa-me ouvir o que diz o Marcelo que sabe disto. Especialista, ele também, do culto do instantâneo, da retórica frívola, da papagueação de encher-olho com a boca cheia de nada. Já tivemos Presidentes da República por bem menos. O Capucho corrido à pedrada pelos estalinistas cor-de-laranja. Mas o Rui Nunes, in Uma Viagem no Outono, a dizer que “O futuro onde estamos tem a iníqua alegria dos sacanas.” Pois estamos. Pois tem. Mas o Júlio Isidro, no Diário de Notícias de 17 de Fevereiro do corrente, a dizer que “Só as pessoas felizes é que são livres.” Pois são, elas sim, mas então aqui a gente vai toda presa, pois que a tristura nos algema olhos e mãos. O Stig Dagerman afiançando algures que “O jornalismo é a arte de chegar tarde o mais cedo possível.” Mas ser muito mais fácil o Cardozo marcar com êxito um penalty decisivo do que chamar jornalismo, por exemplo, ao Prós & Contras, programa em que tudo o que possa ser sério é arquivado para amnésia futura enquanto a sacerdotisa-de-serviço se arregala e saracoteia. A nossa dignidade derradeira estilhaçando-se em irrecicláveis despojos de granada-de-fragmentação. A República ser constitucionalmente laica mas ter e pagar na mesma uns milhares de euros ao, aliás reformado, próximo bispo-capelão das Forças Armadas. O País quase todo a barafustar contra o atraso do Porto naquele jogo da Taça da Liga – mas quase ninguém a vituperar o atraso de décadas do mesmo País de patuscos, i.e., Nós quase todos. O cómico-trágico desta pandilha litoral que tem por nome Portugal estar escarrapachado na implacável sucessão de encerramentos de tribunais, centros de saúde, escolas, oficinas – mas, só por nevar da pala de um campo-da-bola, ai-Jesus-que-falta-o-ar à carneirada. E tudo ilibado no caso dos submarinos: pelo que porta-aviões-da-Justiça ao fundo. Mais o paradoxo pulha de agilizar o despedimento com uma pata enquanto a outra (oh mas quão blandiciosamente!) drapeja a bandeirola do milagre económico. A Virgem correndo e o Diabo a rir-se. À privatização das águas, há-de seguir-se a do ar, a do sol, a da lua e a das mães deles, até agora públicas. As mães. Venda-se os Mirós todos mas não nos lixem a Joana Vasconcelos, essa nossa kitsch de últimos-socorros para basbaques parisienses. Explica-desenhar a cores aos drogados deste morredouro-de-seringas que o Caran d’Ache rima com haxe mas não é para fumar. A maldição de Circe, que foi a de transformar os homens em porcos, continuando viva e esperneante no Orwell dos porcos-ao-poder. A literatura de hipermercado acabando de esvaziar as mentes das professoritas do tal ensino particular sempre tão mortinhas por beijocar a boca-de-sapo do Sousa Tavares a ver se descobrem a que é que sabe a beiça de um príncipe-do-nada. A tal Lusófona a dar cobertura ao bisonho Bisonte-dux-badameco do Meco e ameaçando processar os pais dos afogados por calúnia e atentado ao bom-nome da instituição. A Virgem a querer saber – Mas qual bom-nome? – e o Diabo a dizer-lhe – O meu, querida, pois de quem querias tu que fosse?
E tudo isto nos causar uma estranha espécie de surdez diurética, que consiste no já nem os podermos ouvir mas nos mijarmos a rir de todos eles na mesma.

Thursday, February 13, 2014

Rosário Breve n.º 345 - in O RIBATEJO de 13 de Fevereiro de 2014 - www.oribatejo.pt



Diferimento


Figura de homem com gorro azul entre profusa instrumentália científica. Num quarto alto, dando a janela o rosto à foz do rio. O fotógrafo esteve com o cientista de cabeça azul da parte da tarde. À noite, o fotógrafo janta a sós numa casa-de-pasto cuja clientela regular é feita de seres irrecicláveis para esta vida. Depois, vai a um boteco mobilado de madeiras escuras cujo televisor trabalha com o som em off. O inglês Eccles e o inglês Green travam uma final muito bem servida de triplos-vinte. O fotógrafo gosta de ver dardos bem atirados. À quarta leg, Green leva vantagem: 3 a 1. Nem Green nem Eccles são já rapazes. O fotógrafo já não pensa no cientista cujo gorro azul indiciava rotina e serenidade. Solidão também, talvez. O homem oferecera-lhe uma bebida no Café do rés-de-chão do prédio. Aceitou. Tomaram-na na esplanada, que era pequena e soalheira, dando ela também para a grande foz que esteve, e está, na base da razão de os Antepassados ali terem erigido a capital. Têm entre ambos vinte anos de diferença, mas a vida parece tê-los consumado e consumido à mesma velocidade. O fotógrafo não pensa nisso. Talvez se nem lembre já do homem gentil e pouco expansivo que usa há tantos anos o mesmo gorro e o mesmo azul e o mesmo quarto de vidraça em rosto para o rio. A final Eccles/Green é muito agradável de seguir. O fotógrafo permite-se outro shot de Jameson antes de rodar a primeira cerveja do serão. Escassa clientela derredor. O patrão vem sentar-se à mesa do lado direito. Comentam a final, o fotógrafo aproveita uma ida do patrão ao balcão para lhe pedir a cerveja. O homem traz-lha mas não volta a sentar-se. Dois casais ainda moços entraram. Já trazem algum álcool no bucho, a atmosfera range como um móvel velho. Pedem ao patrão que mude o canal para outro de música. O patrão diz que não. Porquê? – querem os audaciosos saber. O patrão diz que há gente a ver as setas. Eles dizem que é só uma pessoa. O patrão diz que são duas – e aponta o polegar de gigante ao próprio peito. Uma das raparigas diz que não faz mal, que dá para conversarem enquanto bebem um copo, mas o namorado da outra, o do porquê?, diz que sendo assim não, que o dinheiro deles é mal empregado ali, espera uma reacção do gigante da casa mas não a tem porque o homem se foi sentar à mesa do fotógrafo com dois copos largos de Jameson puro e mais duas Corona geladas com rodela de limão embutida no gargalo. E depois sentem o silêncio nas costas. E em frente Green vence Eccles, os dois lançadores abraçam-se com desportivismo, depois há saltos de ski mas em diferido, como tudo, cedo ou tarde, acaba sendo.

Tuesday, February 04, 2014

Faz 70 anos a minha rica Irmã(e)


Xelinha x 70

Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014, onze horas menos alguns minutos da manhã – a minha única Irmã faz setenta anos. A prole dos meus Pais começou, portanto, a uma sexta-feira bissexta. Davam as onze horas.
Única menina e primeira de sete, viu-se depressa entregue à condição de Irmã(e) dos seis pimpolhos subsequentes. Eu, vinte anos depois para sempre, que o diga: porque sétimo, porque último e porque escusável.
Ela foi a rosa-perpétua do nosso Pai, senhor que se quedava apreensivo sempre que, mirando-a em prisma de pedra-filosofal, não percebia por que motivo, tendo ele em cadinho de crisol crismado a ouro o sol, fez dela ainda mais seis réplicas em latão. Misérias do desejo progenitor, enfim.
Foi ela também, em luz-íris a mais caleidoscópica, a sombra duplicada da nossa Mãe n.º 1, a cuja velhice terminal amparou mais em encanto de Irmã do que enquanto Filha.
Pós uma mocidade de chitas pobres, remendados sonhos, bailes fugazes e ingénuos platonismos de cine-magazine, a vida deu-lhe entretanto, través o concurso carnal de um quase assustado alto-beirão de olhos bonitos, dentes perfeitos e nome José Maria, uma menina e um menino. As fotografias da época que viu tais nascenças comprovam sem esforço e com glória o clarão capilar-tritíceo dos rebentos: dois cortazàrianos “relâmpagos de trigo”. Ficou doida por eles, doidice que, aliás, os anos não abrandam, antes extremam. Com o nascimento da neta, aqui há uns pouquíssimos anos-segundos, viu-se na posse de um tesouro incalculável, que indefessa e avaramente resguarda em vigilância de escopeta municiada a zagalote grosso, atenta em pura raiva aos bandoleiros de encruzilhada-de-alminhas sob o luar sinistro que o heterónimo-mor da Vida (o Diabo) gosta de entenebrecer riscando na pedra as cuneiformes pègadas da cabra do Assombro.
Em moça, cantava – e então, a filomela toda dela rouxinolava dramalhões de fado menor em redondilha maior, paixões lúgubres e fatais relativas àquela Carmencita em revoadas pícaras de ciganos e novelescas fugas a cavalo través montes com cartão cénico por fundo e de uma poética-de-cordel por insígnia.
Sempre tomou uma taça de espumante por ano – era pelo nosso Natal pagão, quando, à mesa, todos éramos vivos e morrer era uma coisa que só lá fora, coitados dos vizinhos.
Mestre nunca amável e jamais afável, o Tempo, por agravo, a todos nos amestra e resigna sem brandura nem apelo. Cada manhã se faz tarde, sendo a noite mais certa do que a tal improvável perpetuidade de umas tais rosas provadas. O que não posso, porém, é deixar de sorrir ao acaso de, às exactas onze horas deste Fevereiro-4, uma fresca frecha de sol vir pelo ar varar a cinzura februária e a empena da casa em frente, de pronto rutilando de jóias vivas os pardais ao beiral dela inscritos como sentinelas gráficas.
Sim, sorrio à imagem pensada da netita da minha Irmã(e), criança que nem sabe, mas há-de saber, a sorte que houve em ter começado a nascer não há meros três mas há precisamente setenta anos, ainda a Carmencita congeminava a fuga –  como tudo aliás acaba fugindo, menos o amor invencível que temos por aquela que a cantava.

Monday, February 03, 2014

Un poema en mal estado intoxica a 13 personas de melancolía

http://www.elmundotoday.com/2012/02/un-poema-en-mal-estado-intoxica-a-13-personas-de-melancolia/



SEIS DE LOS AFECTADOS SIGUEN INGRESADOS CON "PESADEZ DE CORAZÓN"
Publicado por Kike García el 5 de febrero, 2012


Al menos 13 personas han sufrido una intoxicación el pasado fin de semana después de asistir a la lectura pública de un poema en mal estado, según han señalado fuentes del Institut Català de la Salut (ICS). De las 13 personas afectadas de “pesadumbre vital, dolor del alma y un amor desbocado hacia una persona indeterminada, quizá un ideal”, entre otros síntomas, al menos 6 continuaban la tarde del domingo llorando en el Hospital de Sant Pau y “buscando respuestas en el ocaso”, en palabras de los médicos que las atendieron.
La rosa del desierto, el local barcelonés en el que tuvo lugar la lectura pública del poema en mal estado, ha sido clausurado esta mañana. “La poesía es un arma cargada de futuro, y si cae en malas manos pasa lo que pasa, coño. Por suerte, hay pocos aficionados a la poesía hoy en día y no tenemos que hablar de pandemia”, explica uno de los policías que ha cerrado el establecimiento. El poema, que no se puede reproducir por motivos evidentes, arrancaba con los versos “No alabes mi belleza maltrecha” y terminaba con la expresión “pozo sombrío”.
El departamento de intoxicaciones alimentarias del ICS ha abierto ya una investigación para determinar, mediante comentarios de texto, cuál de los versos es el que habría sumido en un profundo estado de pesadumbre a los que asistieron a la lectura. El poeta aficionado, autor del poema en cuestión, ya ha pasado a disposición judicial y se verá en la obligación de justificar todos los recursos estilísticos usados en el texto. Se comprobará así si los copió de algún sitio y si el poeta está capacitado para abrir su corazón en locales públicos o debería conformarse con guardar sus versos en un cajón y sentirse incomprendido y eternamente desamparado.

Las personas intoxicadas solo pueden hablar usando un “lenguaje florido”

“Cuando salí del café ya empecé a notarme raro, pero al llegar a casa sentí una desazón que parecía que se me iba a partir el alma en dos”, confiesa uno de los afectados. Desde entonces, no ha sido capaz de superar la aflicción en la que se encuentra sumido ni de dejar de hablar “en lenguaje florido”. Al otro lado del teléfono, reconoce que ha sentido deseos de terminar con su vida. “Visto desde fuera parece horrible morir, pero puede que sea la única salida ante esta confusión total que es la vida, a la que podemos considerar el cálculo total de algo que en realidad no ha ocurrido”. Al colgar dijo: “No puedo dejar de anotar la belleza de este momento en mi cartera, olmo verdecido”.
No todos los afectados acudieron por iniciativa propia a los centros hospitalarios, muchos fueron aconsejados por sus familiares, que los encontraron extraños. “A mi marido se ve que le caló mucho un verso de Petrarca que leyeron en la lectura esa y se vistió en plan medieval y empezó a recitar ‘Marisa, siento por ti un fuego helado y tus dientes relucen como radiadores domésticos’ y otros recursos típicos del petrarquismo pero usados con muy mala fortuna. Me debatí entre pegarle dos hostias o llevarle al hospital y, para no ponerle más triste, le llevé al hospital”, explica. Otro de los afectados no deja de decir “Me siento completamente viernes”, lo que ha obligado a los médicos que le atienden a improvisar un pequeño foro literario para interpretar entre todos lo que “el poeta” está intentando decir y así poder diagnosticarle.
No es el primer caso de poesía en mal estado que ha saltado a los medios en los últimos meses. El pasado noviembre, la policía interceptó en el puerto de Barcelona un cargamento de poemas del “Machado chino” que estaban construidos a base de falsos sentimientos.

Sunday, February 02, 2014

Do caderno 27 (CÃO) da série LEITE DOS SANTOS

CINQUENTA: PERDURAÇÃO - II

Leiria, terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

Nada perdura que humano seja
– assim Maio escrevi ano passado.
Ora, o arvoredo, despassarado,
semelha ao vento um frio vão de igreja.

É como se antigamente o Inverno.
É como se nada fosse – e não é.
É como se a vida mesma, aqui ao pé,
ázima invernasse o pão que vier no

restolho de outros dias perduráveis:
esses mais amáveis e mais amados,
esses idos já todos, já passados.

Do conto incontável dos dias-tempo,
não lâmpada sobra nem filamento.
Humanos são só os não perdurados.