Friday, December 30, 2011

Rosário Breve nº 239 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 29 de Dezembro de 2011




(P(r)enso logo existo

A 3 de Maio de 1966, o jornal londrino Times fez uma coisa que em dois séculos nunca fizera: passou a incluir notícias na primeira página. Até então, o rosto de cada número era território exclusivo de anúncios e afins mensagens publicitárias. Tenho todas as razões e mais algumas para crer que tal efeméride é uma tristonha maneira de se sentirem tristes os armando-varas, os duarte-limas, os dias-loureiros, os penedos, os godinhos, os sucata-socratas, os soares-sucedâneos, os cruz-sucedâneos e os afins tristes do género.
Jornais com notícias são perigosos para todos os bivalves privados lapamente alapados à rocha do erário alheio, da pública moralidade e da “démócracia” sem sentinela nem siso, nem aviso nem sisa.
Tenha o leitor em conta, porém, que não advogo o “jornalismo” à la Felícia Cabrita / Estripador de Lisboa, nem o “intervencionismo” à la Moura Guedes, nem o “pisca-olhismo” à la Rodrigues dos Santos, nem o “prozac-ismo” à la Alberta Fernandes, nem “ismo” algum afim dessa comandita.
Sou mais pelo quê-quem-quando-onde-como-porquê nu & cru & puro & duro.
Gosto de notícias, não de “conteúdos”. Sou pela verdade, não pelas “sinergias”.
Antigamente, eu ganhava o pão de cada dia na imprensa regional. Reportava juntas e municípios, noticiava pequenos, médios e grandes roubos, bolçava éditos notariais e subidas de divisão dos cascalheiras futebol clube locais, ia às associações recreativas cronicar o teatro e sofrer os fados.
Devo ter chegado a ser famoso, já que alguns tiranos-sauros autárquicos ainda me apontam às netinhas como o homem-do-saco se elas não comerem a maizena toda. Deixei-me disso a tempo e horas. Hoje, sou um dos leitores matinal-cafeínos do correio do crime da manhã que se deliciam tanto com o hirto PGR como com, precisamente, os anúncios tão sugestivos como onomatopaicos das massagens brasileiras.
(No fundo, no fundo, a verdade é que suspiro, eu também, em ademanes de nostalgia, pela paz podre e pobre do 2 de Maio de 1966. Ou do 29 de Maio de 1926. Bons velhos “times” esses, em que a liberdade de imprensa não prejudicava quem não quer saber e tem raiva a quem pensa.)

Wednesday, December 28, 2011

LIGAÇÃO À MEDUSA - início de publicação




LIGAÇÃO À MEDUSA


Que o livro há-de ser o que vai escrito nele.

Bernardim Ribeiro, MENINA E MOÇA



para o ANIANO, em memória viva




entre terça-feira, 12 de Julho de 2011, e quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011



PRÓLOGO:
AGORA QUE ESQUEÇO MAIS DEPRESSA

Leiria, terça-feira, 12 de Julho de 2011

O admirável dia novo veio matizado dos ademanes que pôde: orlas e fímbrias filtrando frontes, fontes, volúpias e venturas, a havê-las. Na cidade já velha, uma esfera de palácios sem gente dentro. As pessoas, na antiga urbe, como satélites langorosos. As pessoas, fauna sempre insólita e solitária sempre: a quem amo sem corpo. Às pessoas, aliás, imolo e abjuro – juro. Escrevo em frémito, porém e sempre, súbdito eu-mesmo da autoridade da tristeza. Atento a tempo ao Tempo, esse areal invisível que funciona em matadouro de pavões & gansos & crianças & horas. Aí está ele, o Tempo, que a Ele-mesmo-se-mata-em-sendo. De Portugal para o Resto-do-Mundo: andorinhas-de-barro em umbrais caiados como putas japonesas. De Portugal para o Resto-do-Mundo:

Vela panda que anda bela
Voa branca ao estendal do sal
Drapejando vento que a anela
Não sei eu se pense nela
Com ramo de frescas rosas, rosas dela
Vela panda que anda nela.

Atento. Oscilo e consolo. Escrevendo, dou um bolo. Lendo, um dolo recado. Contemplo. Induljo. Se calhar, encanto. Prolo(n)go-me quanto posso, que este vai ser livro de ligação à medusa. Tudo o que for, tendo sido: digo: traves, aves, acontecimentos espiralados como cadernos cosmogónicos, entreténs-de-tempo, vícios óptico-roseirais, o Diabo e a Ausência de Deus. Um ramo de rosas frescas. O rumor e/ou do amor na mesma concha. Um glaciar azul e puro como só um glaciar e como só a cor azul que faz o céu acontecer de uma só vez sobre todo o glaciar. Ou as Cidades que pesponto a ponto por ponto: nomes de ruas, gente sem nome, cemitérios & berçários, acontecimentos musicais &/ou pedreiros, vagas ânsias arenosas no diafragma, versos perdidos de pessoas achadas, secas & molhadas. Música, enfim. Veio matizado o admirável dia novo. Isto é a minha vida. Um frémito drapejado: árvores fluviais remolhando vernizes & esmaltes como pessoas amantes em plena ginástica herética, digo, erótica. Essas coisas de que só falamos quando um copo de mau champanhe nos obriga a ser bons. Esta terça-feira – ou outra qualquer. Esta cidade – como qualquer outra. Esta vida – como só esta, só embora. Eu tenho andado muito na antemão do já-ido. Por igual, procedido tenho eu muito à audição de seres falantes que nem lêem nem escrevem. Só que a força das forças cria novos e admiráveis dias, a começar pela Música. Então, eu repouso o aparo sem amparo: e volvo-me audaz ave de tímpanos expostos à salsugem das partituras.

Como putas japonesas feitas de chá-de-papel. Kawabata etc. A face das pessoas: o olhar ao alto desse penhasco: é de onde cai.

Agora que esqueço mais depressa,
agora é ’inda tempo de ir sendo,
d’ir indo, meu lindo.

Não controlo nem a bondade nem a falta dela.

Monday, December 26, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 63 - trechos do POSFÁCIO - 5 a 11 de Julho de 2011



A minha morte pensa em mim, irada,
como amante toda a vida desprezada.

*

Vento que o rio treme no trecho da cidade:
é agradável estar vivo como uma pomba
a ele exposta.
Esta é a única resposta
que tenho e mantenho
na quarta-feira leiriense.
Um quase-frio, um quase-nada,
sabes,
a vida.


*

Agora a cidade continua jade, idade. Ela, jasmim, jaz-me. Estou pronto até para o que não der nem vier. Toda a manhã (10 de Julho de 2011, domingo) por campos que nem um ribeiro avizinha. A pé, em frente, toda a manhã. Respirei eucalipticamente, lavandei-me andante e andando. Tomei café devagar, vi as igrejas presidindo aos casais, as cegonhas às igrejas. Devo ter sido feliz. Pessoas orlavam a ribeira, avançavam na claridade e na clareza do matino-domingo português. Alfaias, máquinas agrícolas, muitos pássaros. Mas as manhãs acabam e as cidades renascem na noite. Acabo o domingo num café mecanizado pela ginástica de ferro da solidão urbana. Um homem lendo sem atenção o jornal já velho, acabado já. Um naufrágio na Rússia, um sismo no Japão, uma tragédia ferroviária, não ouvi onde. O duque de Bragança, não sei quê. A noite muito viva em tudo quanto é sítio, quanto é mundo. Um sítio chamado Mar Báltico, um mundo chamado Mar Morto.
Traficantes de droga, lavadores de dinheiro, pequenos meliantes, poetas de freguesia limitada & concelho limítrofe, jacarandás explodindo viole(n)tamente nas urbes, escrituras & panegíricos, Isabel & Dinis, Demétrio & Nicole, é-apenas-a-morte-é-apenas-a-morte, gritam os arautos da Senhora-da-Boa-Idem, vi as relíquias de Madre Maria do Lado, um fragmento do cérebro, um fragmento do corpete, um fragmento do véu, um monocandelabro: pobre rapariga louriçalense viva & morta em transes da Superstição.
Dois homens caminhando à chuva num cemitério. Vista aérea de uma aldeia de casas feitas de terra. O sol nessa tarde edificada. Rapazes mordendo pão com carne num café de Leiria. Serôdias puberdades, livros que reamanhecem limiares pessoais.
O Sol numa montanha: o festival que isso é, a música disso, a Música que isso é. O sol dando casas de terra com água por vizinhança. Os regueiros, o milharal, o arrozal, as cegonhas. Os corpos exsudando ribeiras, a pé, toda a manhã.
Dinis & Isabel pela linha terras-ribeira. Na cidade, uma mulher tatuada como uma iguana.
Os horrores omnívoros das guerras ecuménico-económicas. A ONU, os agriões da ribeira. A comezinha vida das espécies. Os Grandes Gelos, a tristeza glaciar. Um bigodudo de olhos verdes como duas cegueiras lúcidas de sierra-madre. A iguana sorri servindo bebidas. Leiria, século XXI.
Áreas sobrevoadas por pessoa sonhando. Ribeiras que ribatejam transmontanamente. Piscinas de água-de-olhos. Um novo livro na calha dos escritores mortos, dos passados idos leitores deles. Poupar costelas, não cautelas. Lábios não sábios, que ébrios, nem cúpidos, que sóbrios.
Famílias como quimonos: assombrações de seda & papel & dragões combustíveis carburados. Crianças em vitelina pele, aclarando as vozes da manhã (toda a manhã). Valor da superfície das coisas, agora que vamos morrer. Aventuras marinheiras em terra (mas as ribeiras, Isabel, a água-pele delas, recorda).
Estes dias que vou queimar-me.
Estas manhãs-tão-noites-tão-amanhãs, Senhora. Polícias tresandando a convento. Lápis urdindo filas-formigas no alfarrábio-sensorial.

*

A costureira Júlia é casada com o caixeiro Arnaldo.
A Sarmentinha serve petiscos com vinho-do-lavrador.
Na secagem do arroz, andorinhas e cegonhas nidificam.
Eu nada-fico, (d)escrevendo embora renascimentos,

os mínimos renascimentos da cidade sem mar
que no mar pensa, nem saber por-ou-para-quê.

Um homem moreno-ar-livre com um saco de papel:
pão, grão, agrião, feijão.
Ele bebe um copo de vinho, tasquinha um pires
de tremoços.

E na orla marítima, por estas horas, bandeiras:
pinceladas de cor que o vento dá de cor.
Por cá, ruas sem calções nem sandálias, tão-só
o império regional do que-s’afoda-matilde.

Brava alegria, ainda assim: coretos e gares recebem
a convocatória palavrosa da tanta quantas as pessoas
realidade.

Noutro tempo, eu frequentava o Café Ripa, a Cervejaria
Nau, a Bibliografia Steinbeck, o Liceu Infanta D.ª
Maria, o Café Paris, o Barroca, o Haussmann,
o Galego da Rua de Santa Prepúcia – agora
adeus, ó Lúcia!

Um delíquiourazul toma a imaginação,
hei-de manipular como sempre a aguardente
verbal que água se imagina versilivremente.
(No resto, como toda a gente.)


Monday, December 19, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 1 - Coimbra, 8 a 15 de Março de 2011 - (II-4)



II-4 

Algo na cabeça dele (como que um elemento exterior) lhe diz:

– Quero matar a morte dos meus mortos, querida.

Espera ouvir dela:

– Deixa-os morrer, pois que te amo.

Ouve dela:

– Deixa-os morrer, pois que te amo.

É outra vez terça-feira, ele pára na rua.
Ele é o velho das laranjas, um corvo em cada ombro.
E então: o que é isto, o que é isto, que será isto?
É o frémito das laranjeiras debruadas a azul-chuva na voragem das terças-feiras.
É a beleza olímpica do cavalo.
É a sessão-contínua da consciência.
É ter morado tempo de mais em quartos sem janela.
É ter ido de comboio a caminho de mulheres que não eram a dele, esta.
É eu não ser o elemento exterior mas a tua notícia, a tua sombra, o teu cão.
É isso e é isto e isto mesmo.
Algo na minha cabeça feita coração.

Sunday, December 18, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 1 - Coimbra, 8 a 15 de Março de 2011 - (I-4)




I-4

Andam descalços ambos pela casa dela. Ele veio. Ele veio a caminho dela. Reconheceram-se pelo cheiro na gare ferroviária. Ele apanhou o das 13h38m, chegou às 14h35m. Antes de vir, Dinis acordou na cama de um quarto de uma casa que não sentiu sua – porque Isabel não estava. De imediato, os mortos dele rondaram-no, acossando-o com a amarga doçura da perda. Então, para se livrar do mal, ele telefonou-lhe. Ela não pôde atender logo, devolveu-lhe a chamada uma meia hora depois.

– Amo-te.
– E eu a ti, querida.

E ele viaja de comboio até ela, chega a casa dela, descalçam-se na ronda um do outro, parece mentira ser feliz. A viagem dele (que ele lhe conta) é feita de armadilhas ópticas: o rio, as árvores, as nidificações, os pátios com tanques de lavar a roupa e laranjeiras de lavar a alma, apeadeiros devastados pelo vento de tanto inverno interior, janelas verdes como esmeraldas de peitoril, a ilusória esterilidade do cascalho, a vida, a respiração, a inimitabilidade do amor de cada amor.

Friday, December 16, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 1 - Coimbra, 8 a 15 de Março de 2011 - (II-2, I-3/fragmento e II-3)




II-2

Ama-se uma mulher viva mortalmente.
Um homem porta dentro seus mortos, que o tornam, também a ele, pedinte.
Este homem deste lado do aqui-agora.
O amor torna-o alguém que chega do futuro.
É estranho – mas assim é.
Choveu de manhã e todo o ontem.
À tarde (é uma terça-feira), o sol deflagrou como uma gardénia sem tutor.
E então a mortalidade é toda floricultora.

I-3
(fragmento)

Uma revoada odorífera de hortelã acode às narinas dos dois em cidades diferentes no instante mesmo – e ambos, à fragrância, sentem que o nada é tudo, à distância.
Um dos dois (mas qual, se não o mesmo?) vê um octogenário passar. Vai de balde cheio de laranjas. Tem mulher, ainda, em casa, leva-lhe as laranjas. Ambos compreendem a epifania. O velho passa.

II-3

Sou o velho do balde com laranjas.
Vivo ainda a minha vida, o meu amor caseiro.
Pude chegar aqui com o corpo, nem sempre fui eterno.
Tenho uma horta com árvores fruteiras.
Sou um homem no inverno, serei depois outro e ninguém e outra estação: serei uma laranja.

Thursday, December 15, 2011

Rosário Breve nº 237 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 15 de Dezembro de 2011





Tenho andado por aí



Circunstâncias da minha vida levaram-me a deixar aos 22 anos a terra onde nasci, aquela de que se canta e diz ter “mais encanto na hora da despedida”. Iniciei então um périplo que só ainda não parou porque todos os cães têm sorte.
Se se é para sempre de onde se viu pela vez primeira a luz do dia, então sou de Coimbra. Todavia, é verdade também que sempre se acaba pertencendo ao rincão socioterritorial em que se está – ou se vai estando, enquanto não dobra por nós a sineta da capela mais próxima.
Assim, no quarto de século já volvido a partir da minha saída das berças natais, fui íncola de Peniche, Figueira da Foz, Lousã, Louriçal, Pombal, Leça da Palmeira/Matosinhos, Aveiro, Lisboa, Tondela, Caramulo, Viseu e Leiria. Em todas provei o vinho, em todas saudei a manhã e suportei a noite, em todas me debitaram imposto e em todas tive terças-feiras de melancólica felicidade, que é a alvíssara da volta do triste pelo passeio dos alegres.
Santarém, Abrantes, Tomar, Coruche, Almeirim, Salvaterra, Constância, Torres Novas, Golegã, Alpiarça, Cartaxo, Chamusca, Xira e afins não me aconteceram ainda. Sublinho: não ainda. E sublinho que este sublinhar me decorre de um nomadismo que se me volveu natural (para não dizer fatídico) num país em que morrer parece ser o mais pertinente projecto de vida.
Ora, dada a sua iniludível portugalidade – para o bem como para o medíocre –, o Ribatejo parece-me tão boa região onde cair morto como qualquer outra. Nem que seja de riso.
Nem que seja de riso, a avaliar pelo era-para-ser autódromo de Fórmula 1 da Quinta do Gualdim, pelo basebol de Abrantes (cf. Dr. Eurico Consciência), pelo tango (ou “tanga”) de cadeiras do IEFP (que miserabiliza a mais curial essência de serviço público – cf. PS/Madelino vs. PSD/Oliveira), pela batida, velha & revelha “esmolaridade” dos pedinchórios natalícios (como tão acertada e editorialmente zurziu o duartirector deste jornal) e, enfim, pelo nanismo político-administrativo de um senhor de nomes vegetais que não é carne nem peixe mas cuja auto-anunciada não recandidatura pode ter finalmente encanto, na hora do despe-te & vai-à-vida.

Wednesday, December 14, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 1 - Coimbra, 8 a 15 de Março de 2011 - (I-1)



Um homem e uma mulher noivam-se – e as pérolas dos olhos sufragam-se-lhes na tarde fluvipluvial. Gaivotas e patos comunicam peixe sobre o rio. É tudo um jazz macio. Dá-se o gregarismo dos elementos em prol de um fim comum. Entre os humanos, faz o amor às vezes de tal instinto gregário. Eles sabem-no – já lá estiveram: ou pensaram estar. Agora, porém, aqui estão: e sufragam a fluvialidade vespertina de Março, a par, em par.

Lema

Chávena de café vista de cima com olho de telemóvel




Como seriam as conversas entrecruzadas dos antigamentes? Dois feirantes medievos. Dois caixeiros republicanos em 1898, Lisboa. Uma mulher na fonte com outras duas, século XVII. Ou no Café da Rosa, Leiria, terça-feira, 5 de Julho de 2011:

– Agora não pinga
– Coitadinho é quem precisa
– O gajo, o Ricardo
– Esta mariàmélia que lá vai
– Não é assim, tem de ’tar um cheio
– Tem de ter mais capacidade
– Varões metálicos, há muitos, só de capacete
– Só que ela trabalha ali onde está o trambolho
– Entrei por trás, pela parte da igreja
– Ela falou em oitocentuzónovecentos
– Mesmo que seja ao mês
– Sem teiquezaùêis nenhuns é só pequenalmoço
– Até fiquei azul
– Se calhar são mil&quinhentos
– Uma coisinha bruta, meu, ela mostrou-ma
– O senhor está bem?, moi je n’ai pas faim
– Salvem mas é as gordurinhas
– Percebo onde quero chegar
– Um gajo nunca tem problemas, não é?
– Um gajo nunca está bêbado, o macadame
– Olha lá, meu caga-tacos do caralho
– Seu-quero problemas, arranjo-os já
– Arranjuzá
– Já ’tás a pôr exigências?
– É assim à Lagardère
(Venham as balizas e o Inverno
Venha à pele o que for terno
Eu não tenho, é mortalhas
Mais t’enterras se trabalhas)
– Bem!
– Lixo
– Visual
– S’ ele fosse mas era c’o caralho
– Cop’América
– Trazesmuma-água?
– Corpo, cor, pó
– Da altura dos anjos, nada a fazer
– O Protocolo
– Emanações de Espanha
– Sinceramente, não sabemos
– Com respeito ao jogo
– Um homem experiente
– Matrix
– Emirados Árabes Unidos
– Súbito óbito súbdito por hábito édito
– Ó patrão, posso?
– Impassível e impossível
– Nunca sair daqui
– Nunca sair disto
– Ó Guarda, então não tinha?
– Tinha
– Um dia a energia acaba-se
(Os livros que agora sublinho – uma Voz Aqui Dentro mo pergunta – serão (re)lidos por mim por minha gente?)
– Depois há ocasiões em que as pessoas imaginam coisas
– Vinho rápido-do (do-do-do, dá-dá-dá) lado-direito
– O blusão era para a outra
– Era para onde vai haver aquela treta lá de Coimbra
– Vidal
– Confirma-se que era bem assinalado
– Uma pêra
– A realidade chilena, o corte
– Ao menos tens onde comer
– E muito bem, viste?
– Este é ferro, outro jovem
– Quem pára, pára para
– Muito jovem
– Novamente
– Pela lateral excelente
– Só se já foi
– Não!
– Eu acho que é
– Lance de perigo
– Mais um trabalho
– Mas já com alguma dificuldade
– Longa, a perder-se
– Quatro nazis
– Ouviste falar com apenas dezoito anos?
– A mota, o que eu não dava pela mota
– O que eu não dava pelo corte
– Mais uma corrida
– Isto na Feira de Maio
– COITADINHO É QUEM PRECISA
– Tudo com muita calma
– Numa zona perigosa
– Uma ilha é mesmo assim, uma ilha
– Treina-se a fala mas depois, tu sabes
– Um café
– Pareceu-me para ele na esquerda
– Dolorosa
– México, perigoso, perigosa
– Dona Rosa!
– Vamos ver
– .

Friday, December 09, 2011

Episódio de Leiria, esta sexta-feira, este 9 deste Dezembro deste 2011

O senhor escreve tanto – disse-me a senhora do café com tanta piedade.

Tem de ser… – disse-lhe eu com a suspeitosa lentidão silábica das reticências.

E ela olhou-me com os olhos líquidos equivalentes a

Deixe lá o senhor, que isso há-de passar, tudo há-de correr pelo melhor, assim queira Deus.

E como Deus não quer nem existe nem sabe ler, deixei isto por escrito e deixei passar o Senhor.


ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 62 - Leiria, terça-feira, 5 de Julho de 2011(fragmento 2)

Imagem obtida com telemóvel: Sala às escuras com televisor ligado (em negativo)



O corpo conta-me coisas (lances) plenas (os) de mínimos nadas que procuram um sentido, no sentido duplo de rumo e significado. Escuto-as com a tranquilidade possível:
Um homem à pesca do alto da falésia lobrigando o ardor (o milhão de espelhos, o milhão de rubis dourados) do mar;
Um ser envelhecido pedindo cigarros a pares d’enamorados nos jardins púb(l)icos;
A mulher que, perfumada de cânfora, ânfora passa em corpo por áleas oleiras;
A rapariga chamada Raquel digitando nervos púberes numa coisa parecida com um transístor;
Desfazendo-se nas folhas de mármore, até os nomes morrem (as datas, não);
A estridência oftalmológica dos metais ao sol;
Pessoas no chão raso vistas da varanda muito alta: formigas que uma formiga olha;
A Festa de Marrazes;
A Feira de Maio (desolado e poeirento, em Julho, o terrado dela):
A página manu-210-scri(p)ta deste caderno. 

Monday, December 05, 2011

Gentileza de Amadeu Baptista

http://amadeubaptista.blogspot.com/2011/12/daniel-abrunheiro.html

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 58 - Coimbra, quarta-feira, 29 de Junho de 2011

58. VOLVERÁ

Coimbra, quarta-feira, 29 de Junho de 2011

A árvore sobe da terra, dela os frutos para a terra pendem descendo. É um bonito espectáculo, que aproveito na viragem da hora, acabada (subida do chão) a manhã, fruflorturescendo a tarde já, que à noite da terra volverá.  

Sunday, December 04, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 56. EPIFANIAS E ENDECHAS E EPIFANIAS (conclusão)





56. EPIFANIAS E ENDECHAS E EPIFANIAS (conclusão)

Louriçal e Leiria, domingo, 26 de Junho de 2011
Coimbra, segunda-feira, 27 de Junho de 2011


 O dia vira de si mesmo a página, eis-me, uma vez mais, ainda (era) uma vez, nesta Cidade – Coimbra, a que por bandas dos Covões, relanço endechas:

A farta senhora / de vestido ’scuro
’ind’ é sedutora / sob o pinho puro.

Ao sol de Coimbra / também eu fulguro
e auguro ainda / novas do futuro.

Vai larga e alta a manhã local: parece uma camélia menos dada a róseos encarnados que ao maciço verde e ao azul aguado. O bafo do Estio já fincou a tenda. As dermes amorenam-se, o suor oleia as juntas dos corpos portugueses. Um insecto minúsculo lê-me o caderno na página seguinte, que ainda não escrevo mas vou, enquanto espero que Isabel venha da Hematologia. Na mesa em frente à minha, um pequeno-casal-almoço: ele chupa laranjada de lata verde por um tubo de plástico preto e come um pão com uma tira de carne seca; ela come coisa homóloga, mas preferiu uma garrafa com ambrosia, ou néctar, de pêssego. Ele é narigudo e pré-careca, rosto bem escanhoado, relógio de bracelete, largo-metal no pulso direito; ela tem um relógio parecido no esquerdo, vestido de fina gaze com motivos florais claros. São jovens, casados uma em outro. Conversam com serenidade: átomos, habituados a fazer da inflexão a mensagem mesma. Ele comeu a sandes toda; ela, metade da dela, embrulhando a sobra no guardanapo de papel. Ele tem um sinal lateral no nariz e outro na narin’asa direita. Ela está grávida a metade da gestação: parece-me mulher de meio-meio, dada a sandes e o filho. Recebe um telefonema, percebo que percebe do ofício bancário. Dá indicações precisas sobre depósitos, cauções e movimentos, determina instruções activas de modo sumário e claro – até eu saberia o que fazer ao dinheiro, seguindo-a. Ela tem um sinal alto e escuro sobre o lábio superior, que aliás a não desfeia. Terminaram, partem. Ele dá-lhe a mão esquerda quando descem o breve lanço de escadas da saída do bar do hospital. Manhã alta e larga e local.

Um eucaliptal denso enriquece a vista a oriente. Dois pinhos-mansos, depois quatro, guardam um relvado e uma vivenda branca com grandes portadas de vidro. A serpente murcha de uma mangueira dormita no relvado. Muitos carros ao sol sobre um chão de árida gravilha. Riscos de música: vozear de pássaros velocíssimos contornando as esquinas e as rotundas da brisa. Um enfermeiro inchado e lento acende um cigarro-pausa ao pé de um carro vermelho. Uma rapariga das limpezas sorumbatiza agarrada a um esfregão. Um doente das tripas amareleja de pantufas pela álea érea principal. Quanta lhaneza chã, a da humanidade livre de demandar os cantos da existência-prisão, senhorita Yourcenar, verdade?

Ouço (12h54m): cerrada serração sonora de cegarregas: músic’açucena da infância que hei sido: ressonância, portanto, do ser, do ter sido, do ir-sendo, do a-ser.

Mais do que como pessoas, é como gerações que as estátuas envelhecem; mais do que como gerações, é como séculos que as catedrais envelhecem; mais do que como catedrais, é como milénios que os séculos envelhecem em pessoa.

Penso na minha morte sempre que a sinto pensar em mim. Não é morbidez: é a lucidez dela, a evidência da clarividência dela.

Deixámos, Isabel e eu, Coimbra para trás. Por uma via (EN 248) interior, nomes marginais em placas remetem para sítios não visitados: Sebal, Cavada, Oureça, Casal do Brás, Pouca Pena, Alencarce de Baixo, Quinta de Dona Maria, Grisoma, Carvalheira, S. José do Pinheiro, Brunhós, Samuel, Gesteira: coágulos arteriais do sangue habitacional.
E Casalinhos etc.

Saturday, December 03, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 56 - Louriçal, Leiria e Coimbra, domingo, 26, e segunda-feira, 27 de Junho de 2011 (fragmento 1)

56. EPIFANIAS E ENDECHAS E EPIFANIAS

Louriçal e Leiria, domingo, 26 de Junho de 2011
Coimbra, segunda-feira, 27 de Junho de 2011

Entre a aparição e a revelação, a epifania: o que fala no centro-dentro. As minhas epifanias são todas verbais:

As árvores com seus vestidos de Verão.
A elegia eléctrica da Noite-Cidade: estrelas e janelas pespontando o veludo negr’azul.
A brisa cre-tre-pitando-dando palhetas de sol nas árvores fluviais (tontas de frescura ficam elas ressumando).
Florestas em perfume, caça em moção: mosqueado arvoredo, matizados animais em manso pânico.
Consumar e consumir alegrias e alegorias, ternas e tenras analogias sumptuosas, passi-compassivas contemplações: como a escuridão se adensa ao deflagrar do fósforo, o último dobre do sino condensa o silêncio da Aldeia-Mundo: o essencial calamento da vida.
Um vitral consumindo (consumando, ressumando passiva, compassivamente) luz-cor-alegria (como na infância os prospectos dos bailes associo-recreativos): numa face-nave de igreja ou em um jazigo de próspera linhagem acabada.
A música fazendo-se, de vento, luz: ramalhar de faias, álam’oboés, clari’plátanos, viol’amieiros, pinh’arpas.
A germinação fulgurante dos números-cores: as flores.
A irreparabilidade de cada crepúsculo.
Uma vinha enferrujando vermelhamente: vindo o Outono, feita a vindima.
As várias idades de uma pessoa: como cotas geológicas.
E os bosques submarinos tão minerais também, os corais?
A água-viva-em-espelho-transparente que a medusa é.
O descomunal congresso de aranhas que um aguaceiro é.
A trovoada que purifica o ar.
A tempestade no mar.
O cheiro benigno da terra quando a terra arfa como um animal saciado. 

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO (trechos finais da entrada n.º 55, datada de Leiria, 4ª feira, 22 de Junho de 2011)

Em levitante translação, aguardo a minha estrela no perveniente veludo da noite. Enquanto não, o azul da manhã fez-se tarde – e uma demorada insolação esprai’alteia-se em campânul’abóbada. Céu de Portugal, Junho de Portugal: esplendor cromático, (f)estival. Sonhei com a Montanha, com a Raposa, com a Laranjeira viva de sentinela ao defunto casario dos Emigrados. Portugal acontece-me muito. Moços rapazes bicicletam-se sem metafísica nem anfetaminas pelas ribeiras-páginas-de-guarda do Lis. Matronas-pé-de-vaca-com-grão-de-bico escarram com discrição oratórias excreções anti-genros. Um “stândér” de automóveis espera patos-bravos pró-BMWs. Num talho, os enchidos auroram paradamente em colorau boreal. Portugal, Portugal, Portugal: nascermos-te não nos faz bem, morrer-te-nos faz-nos mal.

Não só ao sol devo
estar só, ao sol. 

Delidas infantas no tule dos séculos
propagandeiam, da feminil condição,
as carnes, as gomas, urzes e tubérculos
e coisas mais tristes do pé para a mão.

De centro e arredores da vida económica hei sempre sido.
Da vívida vida, não – que a tenho vivido.

Ouvido a um bilharista:

– Não tenho sorte nenhuma. Quando a tenho, estrago-a.

Outro bilharista, a propósito:

– Juro que sim, pela saúde do meu cão.

Wednesday, November 30, 2011

57. LENDO E VENDO E SENDO, de Duarte Belo, NO NÚCLEO DA CLARIDADE – entre as palavras de Ruy Belo






para o dito Duarte, naturalmente



Leiria, quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

Melhores dias não virão talvez
salvar-nos da carestia anunciada
de de borla morrer e de viver pra nada
a meio da graciosa desgraça do português

como este-aquele ali, que pelas esplanadas
pedincha o cêntimo para a sopa, o tostão pró-pão,
por sua alma de cristão que é para pão,
pela pobreza da minha roupa que é prá-sopa,

isto não é que me comova mas amargura-me,
mais de meia população vive do ar, que não da terra,
o resto vai a pé a Fátima ver a boneca, cura-me,
ó Virgem de louça, da cegueira que nos aterra,

não, melhores dias não virão,
sabeis,
mas não tarda será Verão,
vereis.

*

Cresceram duas mãos de homem
ao cabo dos meus braços de menino:
vou para velho, não mais já jovem
– dizem que é fado, que é destino.

*

Estou aqui sentado entretido a ser português
ao sol morno e manso qual leão saciado.
Eu já nunca mais para sempre vivo outra vez,
é melhor portanto curtir o banco encontrado.

*

Acaba-se-nos hoje o mês
O primeiro Novembro a seguir à vida
da minha Mãe
Não é fácil nem tenro nem terno
ser um órfão descriado à beira
do Inverno.

Sunday, November 27, 2011

Manhã leiriense de beira-Lis, domingo, 27 de Novembro de 2011


© Saul Steinberg


Leiria, domingo, 27 de Novembro de 2011

Despertei com o instantâneo amargo-de-boca de ter sonhado que escrevia um livro apócrifo. Devo, portanto, ter utilizado uma heterográfica (não um lápis) para o efeito. Para me absolver dessa quase auto-traição, pensei em certas pessoas boas e tristes que conheci. Durou felizmente pouco esse transe: já a gata, sempre positiva e coruja sempre, me saudava com o silêncio fito dos grandes olhos dela. Levantei dali o corpo, meti-me em abluções, recorri ao café-com-leite para obviar as circunvalações gástricas e renais e tripeiras que fazem de canalização a toda a pessoa – e fui-me deixando de priapismos & quejandos. Vesti a camisola preta, que guardei com o blusão verde-musgo-escuro. A Cidade, quando dominical e às oito, tinha voltado a ser um campo-santo de adormecidos. Até uma rola ouvi, algures em pardieiro imemorial. Lembrei-me, sem por nem para quê, de que Fernão Lopes escrevia lâmpado para significar o que hoje dizemos relâmpago. Sorri por causa disso – sou dado a consolações sem explicação (que algum sentido terão: o da vida talvez, até).
À face do Lis, numa esplanada sem história e sem audácia, dei-me às matinas com um atraso de três horas, posto que eram já as nove. Amaviosa, a atitude da luz tinha chegado para ser suavíssima montaria. Atirei olhos aos quase-nadas que sempre foram o meu tudo:
uns panos de relva orvalhada a preceito pelos claustros da noite;
a colina, negra ainda do anoitecimento anterior, a que o Castelo trepou na legenda dos séculos (como se para ser a Guernsey de Victor Hugo nenhum);
a detença altaneira do arvoredo à contra-seda azul do primeiro céu da manhã;
outrossim a ordenança sujeito-objectos da vida filmada no dentro da cabeça, esse território medular e palaciano onde uma pessoa é obrigada a viver para sempre;
a atenuação (a anestesia) dos sinais álgicos que resultam de pensar nos mortos e causam o repensar nos mortos;
(a camisola preta muito morna sob o musgo-blusão);
da outra beira do Rio, o cu muito escuro de um cão preto ao cabo do rabo vertical: perfeito ponto-de-exclamação (sorrio a isso, querida);
os patos às gargalhadas de desenho-animado no Lis (corre-lhes a vida bem, aos sacanas);
eu ser um pajem da mordomia do mundo – e o meu papel ser um lápis;
a qualidade póstuma do portal que cada vida foi;
a pouquidade – por muita idade que, embora – de cada vida;
a pousadia versilibrista assentando praça nos sonhos acordados;
a prazia das sombras das árvores como códigos-de-barras que cifram o comércio & indústria dos poetas naturaferidos;
as migalhas de lápis que resultam do afiá-lo com um prazer tecnicista de outra-vez-criança-na-primária;
a puridade do idioma abrindo janelas maravilhosas na empena da vida comezinha;
a importância deste comenos;
e as 9h48m, já.

Está tomado o café, aguçado duas vezes o ápice do lápis, já a catacumba-estômago me pede o bom-trato de caldo & pão. Concedo um minuto terminal ao derradeiro cigarro do maço, que aproveito para visões periféricas em regime de à-la-minuta:
um cinquentão de fato-de-treino pedonalando o trilho aeróbico de beira-rio na companhia do filho do primeiro casamento da mulher;
uma trintona de fato-de-treino encomendando galão & meia-torrada para o pedro-miguel de que é mãe-solteira;
a frescura oxigenada atribuindo um embriagador viço vital à duração;
o fim do cigarro e o anonimato disso.