08/08/2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 14 - fragmento 10 (fecho do dia 13 de Junho de 2010)


Pintura de Columbano Bordalo Pinheiro, Retrato de Raul Brandão (1896, Museu do Chiado, Lisboa)



A amargura de Brandão, Raul, espera-me em A Farsa, capítulo II. Talvez outros conimbricenses, neste (im)preciso instante, se resgatem do Tempo lendo livros também, não sei, daqui não se vê. O 13 alemão, Müller, mete o terceiro na baliza marsupial. Acenderam as luzes do Bingo, que fica ao nível térreo do Estádio. O 14, Cacau, brasileiro naturalizado (mais um…) alemão, faz o quarto aos koalas: é o chamado “come e koala”. A tarde encaneceu de vez (20h58m). Entram quatro mamas, por acaso jeitosas, a comprar cigarros. Novitas, as portadoras delas. A mais alta compra Marlboro (embalagem mole); a mais baixa, Português Vermelho. Acabo de afiar um lápis comprado nos Chineses para sublinhar o meu Raul Brandão. Recôndito prazer de há décadas: afiar um lápis, encetar um livro, descobrir uma frase iluminada por dentro, cheirar uma borracha, recarregar a caneta de tinta permanente. No mesmo Domingo mesmo, deve ser um bocadito chato estar australiano. Se fosse rugby, os alemães estariam lixados, valha a verdade. Toca o telelé do imigrante afro (o toque é kuduru ou quejanda coisa, claro), ele atende, crioula-se todo em voz altifalante e ao rir-se faz-me desfalecer de inveja daquela dentição maravilhosa: Deus deu-me só as nozes. A esta hora mesma, um Miroslav come pão negro, um Vladimir bebe vodka, um irlandês O’ Something abafa dois arenques, e o Joaquim da Pampilhosa, no regresso da tasca, começa a bater na mulher. Este domingo nunca mais acaba na Austrália. Se calhar, pelo fuso horário, até já acabou, coitados, que levam quatro a ó e já é segunda-feira de ir trabalhar. Acaba o Alemanha-Austrália. Fico a saber pelo locutor que o jogo teve lugar numa cidade pessoana: Durban. A cabeça daquele senhor poderia ser a de Errol Flynn em velho. Este português sofre de uma obesidade nada humorística: o bandulho, vasto como um colchão-de-água, exige-lhe mais uma cilha do que um cinto. Deve mandar fazer os fatos à medida, só pode. É de uma bonomia silenciosa, raras vezes o escutei, toma o que tem a tomar, paga e sai. Mas é cliente regular, deve morar perto, o café é familiar. Não há-de ser fácil com um corpo megalómano. Mais quatro mamas (mas menos jeitosas e menos novas) a comprar tabaco: um maço de Português Azul para cada uma x 2. Instaura-se a Noite, finalmente (21h27m). Há ainda uns resquícios cinzazuis do que foi Dia, mas é uma luta inglória. Raul Brandão quer acontecer, também ele, ele, como o Domingo, mesmo. A Farsa, página 17:

Mas há ocasiões na vida em que as figuras humanas adquirem uma expressão extraordinária. Basta que outra luz as ilumine diferente daquela em que estamos habituados a vê-las. Às vezes basta uma palavra – e descobrimos um mundo novo que nos surpreende.

E a páginas 24:

Entre o dia de hoje e o outro longínquo a diferença não existe.

Instante-antecâmara do regresso ao Quarto-Casa: chávena de chá, Chesterton/Padre Brown, merecimento do sono – e sono. Pouco resta de domingo, pouco mais de hora e meia. (Não sei por nem para quê este cavalheiro esmalta o cabelo com uma tinta que lhe volve mais anacrónica ainda a cabeça.) Dois casais jovens de carnes grossas à mesa por baixo do televisor. Os machos fumam Marlboro Intense, elas não fumam. Minto: uma fuma. (“Uma fuma” – tem aquele ritmo e sonoridade.) Vê-se a alça direita do soutien da que fuma. A outra prolonga a cabeça num rabo-de-cavalo por lavar. Um almeida da Câmara bem vuer uma cafèzada. Perde a santidade o dia-santo. A fadiga toma-me dos pés aos olhos. Já catrapisco – hoje se calhar não vai dar muito Chesterton/Brown. A idiotia do apresentador do concurso televisivo chega a ser lustral. E agora, prémio-excelência para aquelas Mãe & Filha: vestidas de idênticas sobrecamisas de ganga índigo, gordas ambas como peanhas de massa-consistente, de óculos iguais. Maravilha maior do que a da multiplicação dos peixes, esta duplicação de cetáceos. Nunca as houvera visto, mas agora fico à espera da revisão. Às tantas (especulo na ausência do senhor), o Marido & Pai é algum jaquinzinho frito, desses pequenitos que se enganam uma vez na rotunda e nunca mais são livres de deixar a contramão. Rica senhora e rica moçoila, sinceramente – para aí uns duzentos e quarenta quilos de riqueza. (Por falar nisso, amanhã tenho de comprar banha de porco para os refogados.) Pronto, finalmente sorri (eu) um pouco hoje. Sessenta cêntimos pelo café, boas-noites, amargura, e obrigado.

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Canzoada Assaltante