Sunday, April 18, 2010

Quatro Dias do meu Futuro Recente - IV

Pombal, manhã de 16 de Abril de 2010



Ante pessoas as mais desconhecidas embora, nunca deixo de nos sentir (a todas elas, a mim também) fluviais. É o termo. Isto não tem grande explicação porque decorre de uma espécie de benigno martírio: a vidente cegueira chamada Poesia. Acontece-me sempre e a todo o instante. Se vejo fantasmas? Vejo – e até os vivo. E toda a gente é fluvial. Espectros de rio: palavras-montante, gestos-jusante, olhos-nascente, sexos-foz. Margens de sentido. Chorões de pé na água. Sonhos translúcidos como peixes acabados de pescar. Laranjas caídas à flor: das águas. Ciganos, cigarros, carros abandonados, mansíssimos pederastas que vivem em mansas mansardas com mães velhíssimas. As sombras dos nossos Pais coruscando cursos, areias, limos, flúvios & eflúvios, fragmentos de cortiça, cacos de louça, estilhaços de outro século, jantares de ervilhas com olho-ovo escalfado, pequeníssimos ardis da ternura: a trança da Avó embalsamada entre fotografias pret&brancas, merendas outonais em quintas do povo. Tudo isto é tão fácil, feliz, fluvial e fantasmático. As pessoas todas, as conhecidas como as reconhecidas, as desconhecidas como as desaparecidas: veias fluviâmbulas do corpo da terra, metabolismos à base de seixos, cascalhos auríferos, vendedeiras de tremoços & pevides, torneiozitos de chinquilho em tardada operária-dominical. Coimbra, que é minha matriz, floreja choupalina na minha fantasmagoria gráfica. Tenho uma ideia de ter sido menino, depois rapaz, depois um quase-nada homem entre choupos, as pernas cortando vórtices de brisa sobre ponte de madeira, perto já da Quinta dos Borges, região de milagre sobrevoada de milhafres de absoluta lusitanidade local. A prodigiosa contenção de emoções sincretiza a quadra de ténis, a arquitectura do canavial-da-Índia, a casa verde do guarda-florestal e o barzito de madeira para um ovo cozido e uma cerveja preta. Algumas coisas também agridem. Isto é explicável: como sair impune da subida a Santa Clara sem que Filomena Maria Capêla Daniel de novo? No Real das Canas, ainda Maria Helena da Rocha Pereira e Carlos Alberto Louro da Fonseca? O Paulo, filho do senhor Fernando Mendes, morto por um automóvel sem governo quando cavalgava em descanso um motociclo parado, ao alto da Santa que é Clara e da Rainha que foi Santa? Rios, sôbolos todos (nós).
Agora: uma mulher de blusa preta com BENETTON inscrito a pedrículas brilhantes de quase-prata quase-nada acima do rebordo baiano das mamas. Antes: uma coruscação de mata-nacional, um lampejo-lapso de sol derradeirando eiras, garagens convertidas oficinas aposentadas, pessoas que – morrendo – nos morreram a nós. Um clarão morno do grande Nat King Cole, o relato de um Sporting-Barreirense, rios de rios de águas de pessoas. Os problemas das pessoas: o pobre com um molar apertado de pus, o chinês que mandarina uma emigração pós-maoísta, a reedição de Berlin Alexanderplatz de Döblin, os rapazes que enfermam de casas-de-putas onde são tratados como adultos ou patos-bravos da alvenaria autárquica. Técnicas de guitarra e manuais de instalação de escapes de automóvel. As Grandes Orquestras Casinantes de Ray Conniff, Fausto Papetti, James Last e Shegundo Galarza. Os anos que batem tijolos ao pórtico dos pavilhões auriculares. Cimbalinos e timbalões. O Conde de Valbom e a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica. O cu desta rapariga: tangerina preta, descascável a dente.

1 comment:

Joaquim Jorge Carvalho said...

Uma das agressões fluviais (pelo menos, uma) também me afligiu-aflige: essa Filomena impossivelmente morta.
Reconheço parte da tua Dublin coimbrinha e, no jusante exercício, reencontro parte da minha própria infância e juvenilidade.
Muito bema! Abraço. QJ