Saturday, April 17, 2010

Quatro Dias do meu Futuro Recente - II

II



Pombal, tarde de 14 de Abril de 2010


À bolina procelosa de interior vento,
suspendo a minha morte por instantes.
Serei ora não mais quanto fui dantes,
’ma sombra lapijada a traço lento.


Homem a contas com demónios
civilizados e pouco daninhos,
derivo vãos de escadas por domínios
e redijo alguns signos estremenhos.


Outras vezes, uma bandeira é o que
sinto ao ar frio do corpo da cidade.
Digo assim: sombra, sideração,
gesso, máquina, peixe-voador.


Flâmula não extinta ainda da tarde,
ondulo verberações tão cidadãs
quão o perfil rugoso do castelo,
quão das árvores a humidade alada.


Belas maquinações, as ideias emocionadas
pelo tacto do ar, a rama das frases,
a vírgula toda gráfica das caudas dos cães,
a fonte perpétua que convoca a sede.


Meu Portugal inócuo e demorado,
minha terra de canas de milho,
minha serra de abelhas, meu vespeiro,
minha telúrica mãe-terra pobrezita.


Vivo de viver no idioma, cintiladas
a ouro-verde as manchas eucaliptais.
É muito bonito tocar com a mão
que não escreve o que fica escrito.


Uma doçura de crianças amoranga a visão
picotada a verde da reincidente primavera.
Meia dúzia de casas: um pasto:
a maciça vaca afinal leve, sentimental.


Um rio de homens cerceado de feminis margens
moira o duro dia de trabalho reparador.
Mil morenidões brunem o trigo do sol,
cuja rosa é gás branco, nuclear.


Às vezes fico à porta do meu coração
e nem campainha toco por cautela.
Sou feliz devagar no casulo da amargura,
viver contrai doenças, a mor é pensar.


Mas amo devagar o que e quem amo.
Gosto de ver as batas das cabeleireiras
branquejando a laca do ar da velha urbe.
Também me comove a velha dos sacos, dos gatos.


Um pouco de atenção basta a despistar
do perfil do vivo a silhueta morta:
números de um deus amnésico somos
todos até que ninguém se renove gente.


Um poeta foi ao cais sentir os barcos,
a língua da água paginava a pedra.
Ele era feliz dentro de um tal casulo,
as refeições magras tomadas em sobrelojas.


Sim, amor, quanta beleza decorre
da língua molhando os dentes, olhando os olhos.
Quanta demonstração um castelo é,
ou um divórcio, ou um verso cru.


Os viciados mais pobres colhem beatas
dos cinzeiros à porta das instituições.
Homens e mulheres são, só que se perderam
de algo, alguém, alguma coisa – ou quase nada.


Serena mansidão de águas azuis
catolicizam olhos de lagos siderais.
Eis o homem, ei-la a mulher, eis
as faldas do monte, os cumes de estrelas depois.


Sinceramente, a beleza é tanta: inumerada
e linda de si mesma como olhos em espelho.
Seminários, confeitarias, carros a gasóleo e bazares
albergam gente – e os sonhos dela.

Sabes esse rumor todo cardíaco da música de cinema?
Conheces o restolho outonal dos ossos em jazida?
Lembras-te de ser uma coisa verde, uma coisa azul?
Quando chove nas igrejas, não é triste que ficas?


Flébil débil dúctil inconsútil
ramagem verbosa da minha vida:
eu aconteço sombra em luz a plena
na praça de uma cidadela de província.


Rapazinhos repetem alheia a minha infância,
casas mudam de cor como acontecimentos,
a Norte os fios de oiro são vindimas outonais
– e nem sempre é fácil falar com a humana gente.


Revoadas de tensa chuva acodem a arrepiar
a pele do Tejo, caminho da Índia.
Se a morte te contrata, rescinde-a,
não sejas parvo nem estejas a armar.


Pupilas de meus verbais olhos não obnubilo,
é contra a Costa-de-África ser lusitano.
Outra melhor seria ir (fazer-me) ao Nilo,
não gastar em Pombal todo o meu ano.


Mas entretanto, Mãe, olhemos os gnomos
de laranja que passam cor-de-rosa:
as pessoas que não são salgueiromaia,
as pessoas que nem pessoas mas, enfim, gente.


Fui ontem integrante do féretro de Carlos Alberto Fernandes.
Foi na Pedrulha, Coimbra, dia ontem, 13.
A cara das pessoas na minha idade:
um pouquito mais cinza, mas também ainda,


como se diz?, a vida interior da vida,
um vento.

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