Saturday, April 03, 2010

Jura sobre Rostos e Linhas Afins

 Julia Margaret Cameron (mãe de Virginia Woolf) – retrato por © Julia Jackson




I. JURA SOBRE ROSTOS


Pombal, fim da manhã de 31 de Março de 2010


Rosto é como se chama a luz que encima os corpos
Os faz subir ao ar do dia dos anos
Um rosto é quanto basta para se chegar a pessoa
A pessoa é quanto rosto pode ao ar do corpo.


Um rosto tem-se como casa móvel
Também como moeda de prata ao ouro do Sol
O nosso rosto é o nosso nome escrito a água-de-olhos
A boca do rosto é que canta a Língua.


Conheço rostos altos como bandeiras
O pisco pardal surpreendo em alguns
A mansa vaca maternal a outros encima
Mas tudo enfim luz ao câmbio da moeda.


A fatigada flor demora-se em bruna tez
A pátina nívea é nítida astralina
O rosto do velho, o rosto da menina
Tudo enfim luz que vê e que vês.


Que fará de si o rosto quando o dormimos?
Que retrato prepara do que a vida nos foi?
Que peça de música? Que des’astro?
Quanto do dos meus transito no meu?


O rosto é o fulgor da cinza portátil
Também é o passaporte da especiaria
O vero com os olhos fala do tecto do mundo
O mundo é o que começa no rosto, é o rosto.


O meu olha por mim as viùvinhas às compras
Escangalhadas aves do reuma transitárias
O meu olha-me em ti, em vós também
O rosto é quanto posso até toda a gente.


Felício, Joel, Damião, Eduardo,
Rebeca, Raquel, Guidita Maria:
Por vós eu arrasto o rosto que guardo
Par’ uma outra noite, par’ um outro dia.


Rostos eu sei por aí banhados de Jesus
Outros mais hirsutos dados a Maomé
O mundo do rosto é todo enfim luz
Que eu juro que é, que eu juro que é.


II. NÃO SABER AMANHÃ SE(NÃO) ESCREVER


Ibidem


Algo de alabastro tocou esta face
O cisne de porcelana habita este colo
Cerceado a cimento o lago é verde pútrido
Olho que cega o céu a ele descido.


Hoje há batatas-fritas-arroz-e-salada
Amanhã não sei mas serei, talvez, serei
O pó das ruas espera a chuva nova
O senhor polícia anda com tosse, coitado.


Longa, ilíaca, empregada no comércio,
Ricardina Joana almoça bitoque
’tá casada com Palma, filho de Natércio,
Qu’ antigament’ inha mui carvão-de-coque.


Algumas senhoras são ’inda caixinhas-de-música
Com quem bonito seria namorar aos domingos
Delas o porcelacisne tão alabastrino
O roça da renda, o lastro, o destino,
Amanhã não sei, mas serei?, não sei.


III. DÍSTICOS PARA O PARDAL

Pombal e Guia, manhã de 31 de Março de 2010


O mais dos pardais é a pureza
Ilesa da humana bicheza.


Pardal é poesia por acaso portuguesa
Perfeita voadora paleta de castanhos.


Comovo-me sem lágrimas ante o pardal
O mesmo sempre no espaço-tempo.


O velho pardal jovem para sempre
É português como a janela ao vento.


IV. AÇUCENA


Pombal, tarde de 30 de Março de 2010


Meu pão da vida, minha meia-dúzia de versos
Minha couraça coimbrã, meu falido Mondego
Meu rio com nome de cão, meu seguro amor
Uma pessoa é da terra tal uma árvor’ é.


Lindíssima palavra açucena
Faz da minha pena um dardo de sol
Sou um entre mil ao céu anil
Cobalto de prata e jad’ esmeralda
E homem cidadão negrejando o cais
À tardinha pelo recolher dos barcos.


Circulam a oxigénio as flores vermelhas
Torra laranja final o sol-poente
Mais alta a alma mais t’ ajoelhas
A ser igual à igual e banal gente.


A urgência é aguentar os cavalos
À chuva tirados, é ser feliz devagar
Como um pêssego, um cálice de cicuta,
Um baile dos bombeiros, uma frase boa
A urgência é atropelar sombras de passadeira-
-zebra condição, é ser pêssego devagar.


Boca de ouro, crisóstomo coração
Nosso vilipendiado de chãs intrigas:
Tu não queiras ser menos que coração
Produtor reprodutor de íris-cantigas


Que do olhar arboreamente respiram
A retina molhada da bondade do cavalo,
A materna vaca, o doce susto do anho,
O cair da noite sobre as barracas,
Os barcos do cais, o negro humano
Que gala é da tristeza eufórica.


Quanta beleza, Jesus Senhor nosso:
As arrecadas de ouro-velho lobular,
A peixeira de vulva amanhada,
O salitre da respiração em o jardim.

Quanta, mas quanta, Jesus Senhor:
O calibre azulíneo de uns dois olhos,
A cera das mãos do morto em esquife,
A porra da condição bordando fios de prata
Numa manhã de azulejos e Trás-os-Montes,
A pele dos jornais tatuada de acidincidentes na rodovi(d)a.


Um belo dia o planeta rebenta – e
Tudo o que foi, enfim, será fim.
Os extraterrestres terão de parodiar Camões
E é se quiserem, no Chiado p’la tardinha às vezes.


Sim, meu caro Amigo, o coração é
Quanto observatório posso
Na farmácia como na vida
Os genéricos princípios activos:
E a actina e o caracol cosmogónico
E Prévert perto do Sena e de D. Robert.


Se um dia chega a ser flor-poente
E se a humana condição não veget’ ainda,
Mor razão sobra a achar a vida linda,
Vivid’ ainda p’la comum gente.

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