Monday, March 01, 2010

Um Pouco de Tudo Quase Nada (III)

III

Uma vez na Sertã, bifanas e vinho puro, há quantos anos não sei já.
Uma vez em Tomar, a luz solar dissolvida no Rio Nabão.
Uma vez no posto da Guarda Fiscal em Peniche, a madrugada lá fora congelando o Forte.
Uma vez na Pontinha, o pasteleiro gordo que se roçava pelos clientes muito dengoso de massa-tenra.
Uma vez em Sesimbra, aquele recife infantedomhenriqueando a eternidade do Mar.
Uma vez na conimbricense Rua Antero de Quental, ao 210, ouvindo cassetes com Marillion, Echo and The Bunnymen, Robert Palmer e The Tubes.
Uma vez na Serra da Boa Viagem, com a São Pinto, a recordação batendo na Lua.
Uma vez em Matosinhos, tripas enfarinhadas e fanecas fritas com arroz de feijão e geral alegria comensal de marítimos & estivadores.
Uma vez em Santa Clara-a-Nova, num velório irremediável como todos.
Uma vez na Póvoa de Lanhoso, noite fria como o caralho, que é como se diz “muito frio” na Póvoa de Lanhoso e no resto da Pátria.
Uma vez em Celorico da Beira, tinha eu catorze anos, saía em Lisboa pelo Círculo de Poesia da Moraes Editores O Escriba Acocorado de Rui Knopfli com posfácio de Eugénio Lisboa, era 1978 o ano.
Uma vez no Instituto Britânico em Lisboa, um rosto de rapariga de perfeição absoluta, uma exacta década depois do comboio suburbano Figueira da Foz-Coimbra, de que descia no apeadeiro da Abrunheira um rosto perfeito de absoluta rapariga, eras 1996-1987.
Uma vez no Porto, bifes de cebolada na Nanda depois de me ofertarem um livro de Herberto Helder, era 1994.
Uma vez em Lagos, o suicídio de vinte e seis baleotes na Meia-Praia, era 1976.
Uma vez em Santarém, duas rosas à Porta do Sol.
(Era) Uma vez em Antuzede, o pai do Joaquim Jorge.
Uma vez na praia ante o Mar, não sei onde, nem quando, nem para quê.
Uma vez num livro de Dinis Machado, a iluminação toda interior.
Uma vez no quintal, dia 7 de Maio de 1977, sentado numa cadeira de tampo e espaldar verdes, ao Sol filtrado pelo pessegueiro.
Uma vez nas bombas de gasolina da Redinha, a paz tomando o corpo às sete e picos da manhã.
Uma vez em 1972, talvez várias.
Uma vez a Filomena Maria Capêlo Daniel, 1982-86, depois já não, nunca mais.
Uma vez no Balneário Municipal ao Martim Moniz, em Lisboa.
Uma vez em S. José de Coimbra, ao Calhabé, portando L’Homme de Londres do Simenon.
Uma vez aí também, mas no Centro Paroquial, em recital de Roberto Olabarrieta.
Uma vez por outra, no Teatro do Príncipe Real, depois Avenida, depois nada.
Uma vez em Febres, com os manos Cruz, cruzando vias e cordura e gentileza e arremesso de pacotes de esparguete.
Uma vez em Seia, 12 de Dezembro de 2007, a Lua batendo na recordação.
Uma vez no Alto de S. João, não sei já se no de Lisboa, se no de Coimbra.
Uma vez com o João da Bininha depois do Só Rock no Jardim da Sereia, corria Julho de 1980, no Teatro Académico de Gil Vicente, ante Didier Lockwood, Christian Escoudé e Henri Texier, tínhamos 16, eu, e 17 ele havia uma semana.
Uma vez na sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Piedade, na Pedrulha, em 1982.
Uma vez em Madrid, Lope de Vega e a movida sabatina.
Uma vez é uma vez só, excepto quando por fim deixada escrita.

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