Sunday, March 28, 2010

Subscrever a Tinta Verde a Força Tremenda

Pombal, tarde de 11 de Março de 2010

I

A roda do mundo tem férreos dentes que mordem.
Mordem, rasgam, espedaçam e desagasalham.
Famílias ceiam peixe assado dentro de covis numerados.
Às vezes, acontece a existência ser improcedente por a essência.
A biografia rompe (férrea, dentada) tantas vezes o corpo pensado.
Lojas fundas e sombrias albergam enchidos, latas, botelhas, caixas e mais caixas de bacalhau, víveres que os pobres são levados a ansiar como a ícones primevos.
Criam-se os verdes a brancas águas e a transparente luz, as terras correm como apeadas aves, leiras sangram húmus, benignos fantasmas de romance inglês assarapantam o sono lusíada.
Por mim, de tudo guardo a lição do Nada, que tudo vale à coisa pensada.
Oução” é “bichinho pequeno” – ensina o Professor Rodrigues Lapa, explicador das cartas de Frei António das Chagas.
Mais ocorre a tarde benevolente: tocam frias as sombras, sim, mas a explosão solar adoça tudo: as empenas das casas, o casaco dos cães, a pele do rio (cobra, prata, cobra de prata), as árvores estatuárias.
Com cachos de minhocas furadas a linha de coser e em ponta de cana de milho atadas se apetrecha a ferramenta piscatória de enguias das valas: a sartela.
Túmulos legíveis dão a ler o súbito da vida súbdita.
Subjuga-se uma pessoa a seus canis afectuosos: a maravilhosa coloratura do silêncio que preside à existência e que à essência subjaz.
Terá isto assim razão de ser?
Não rarefaremos a primeira vez: antes nos rarefaremos.
E ainda assim vale a pena pontuar com correcção, alinhar os ditos ainda que não falados, subscrever a tinta verde a força tremenda do papel em branco.
E em campo os actores, os jogadores em palco.

II

As cidades, ando-as – o mesmo me faz por mim a vida.
Tenho sido um amanuense.
Um fitofarmacólogo sem balcão.
O meu balcão é a veia aberta da via.
O Bairro da Agorreta, a Zona da Formiga, a Rua do Quintalão e a do Mancha-Pé: vias-veias.
Entre 1978 e 1981, desenvolvi uma técnica de jogo-sozinho no Monte; uma bola de borracha cor-de-tijolo enchia-me o pátio-estádio; (o Joaquim Jorge sabe de que estou a falar); os cães achavam estranho, mas acabavam por correr tanto como eu atrás do esférico, que era como antigamente se chamava a bola; depois de cada jornada, voltava a casa mas o meu Pai era vivo: foi quando fui campeão.
Agora, a cidade de Pombal estremece à luz.
Eu ando Pombal.
Se virdes passar um casaco de capuz dado ao borboto e uns sapatos fornidos de ponteira d’aço, ler-ver-me-eis.
É tão fácil, isto.
Ora reparai: moça balconista de buço mexicano; mamas ávidas que havidas; nádegas globoculares; sapatilhas de enfermeira obrigada a servir por fora; cabeleira murcha, oleodúctil, espremida, fraca como lã de cão, tendo o cão morrido; boa pessoa.
Agora aquele homem: angariador de seguros rápidos; vendedor de ar, portanto; barba-de-três-dias calculada ao figurino tipo leitor-de-expresso; então-é-assinzante; chapéu-cabeleira espanhol autocolado no cu do carro; boa pessoa.
Fortuna da áurea mediocridade minha: dar a ver de encerrados olhos.
(Isto um dia ser livro – e eu, livre.)
Quando a Vânia Carvalho fez treze anos, descemos ao pátio de tantos outros campeonatos sozinhos.
Havia laranjadas, a Avó dela organizava os víveres, presidia ao sindicato dos filhos, conhecia sem literatura o esplendor da confirmação.
Viver já então semelhava gerir os quartos, a humidade imanente aos rés-do-chão e à vida em geral.
Ela depois fez catorze.
Eu agora, por assim dizer, não faço tanto por me chamarem a festas de anos.
Os anos são festas na mesma, eu sei, mas desvâniecem-se-me os motivos festivos vivos.
Enfim: a onicofagia é uma autofagia tal como a poesia.
(Roía eu o anular esquerdo quando me sobreveio esta evidência.)
Há coisa de quase quarenta anos, aterrava em o aeromilitar Figo Maduro um meu senhor amigo chamado Manuel. Tive um irmão de segundo nome Manuel, já não tenho, a morte amadurece-nos os figos.
(A importância dos sentimentos é geral; a arte literária, não.)
Há pouco, entre o ofício e a casa, vi uma senhora ainda nova, mas botija-de-gás é que de todo não já; a cintura dela apetecia um violoncelo; “ancas de viola”, como julgo ter escrito há muitos anos a propósito de outra ginovisão; fendia-se-lhe a venusidade a golpe vertical de ganga; rosto escorreitíssimo (mas quem olha um rosto ante tais gangas?); era e ainda é uma primavera-de-todo-o-ano; vi-a existir como uma montra parisiense: um certo olha-me-mas-não-me-te-chegues; e gostei da ideia de um clone nosso (meu e dos leitores-homens) abifarem um dia, até por amor, aquela carnação que a cultura etimológica traduz por “cravo”; sim: (vi)ver: o que vi, dou a ver.
Fraca instância da minha inteligência foi querer ter cedo de mais os Ensaios de António Sérgio. Deu-me-os logo, certo senhor da minha vida que recebia esmoleres de barbas alvíssimas. Depois, Mishima e Pasolini: sebastiões ambos e ambos santos: não fica fácil, vo-lo garanto.
Revoada rubra: não ocular (felizmente), mas verbal: a silabação fitofarmacêutica: alfacezitas mindinhas crescidas para amostra como pilas de menino – ali, em, aqui, Pombal.
Limbo todo exterior de laminados pés, esses pobres (ir)mãos das mãos que (és).
Cavalheiro alto, de bombazina preta, tomador de carioca (não paulista) de limão.
Ar seu de suficiência sua.
Pega num relógio de esmalte: se ele avaria, é um dente.
Tenho um dente estragado à berma da nossa Língua: e escrever é o que pus.

1 comment:

Joaquim Jorge Carvalho said...

Do que te foste lembrar, Daniel!
À boleia, acrescento que eu jogava também, da garagem da Dona Lurdes à sala de minha mãe, aparentemente sozinho, mas relatando as defesas de Damas, as jogadas do trio Manuel Fernandes-Quim Jorge-Jordão, os quase-goooooolos do inimigo Benfica. A Dona Lurdes ouvia o relato da varanda, a minha mãe nem tanto. O pátio tinha uma árvore, que era um poste da baliza norte. Um dia, cortaram a árvore. O "resto", que é estarmos aqui mais ou menos vivos, conta-lo tu magnificamente em teu texto d'oiro.
Abraço!
JJC