Friday, March 05, 2010

Rosário Breve nº 145 - www.oribatejo.pt

Livros da Anita agora adulta



Sobra-nos bem pouco amor nestes tempos de cólera. A nossa abananada República conta este Outubro cem anos de solidão, nestes cus-de-Judas onde só o conhecimento do Inferno dá para uma explicação de pássaros tais. Não vejo maneira de nos darmos por levantados do chão, com tão mau tempo no canal. Quatro prisões debaixo de armas são praticamente impossíveis, dadas estas supremas procuradorias e estas procuradas supremacias que não conjugam crime e castigo. O homem na cidade sabe que o problema não é o segredo, mas o degredo da Justiça. Não apenas o estrangeiro é já o homem revoltado. Os lusíadas desempregados que o digam. A tenda dos milagres deu já o que não tinha a dar, pois que cada vez mais os velhos marinheiros são capitães da areia. Pávidos e não serenos, de que nos adianta sabermos que o carreirismo é um carteirismo? Todos os nomes ensaiam a cegueira no rio triste dos dias e dos prodígios. Os meninos de ouro podem à fartazana repetir o erro de Descartes com a apologia de Sócrates, que o platónico banquete seguirá tinindo suas obscenas facas de prata. As palavras são pedras mas não partem ossos, por mais filosofais. Portugal, Portugal: um quarto com vista para uma seara de vento debaixo do vulcão, deste lado do paraíso onde nem já a noite é terna. A vida é difícil nas cidades invisíveis. Resta o quê aos gaibéus? Aprender a rezar na era da técnica ou arranjar uma máquina de fazer espanhóis? O tempo e o modo são o presente indicativo de que as palavras e as coisas já não têm sentimento de si. A culpa é dos indiferentes, dos homens sem qualidades, das serenatas ao luar com angústia para o jantar, dos joões com medo, dos principezinhos, dos vagões-jotas, das ninfomaníacas e das outras. Trocar de rosa com obstinado rigor é urgente no país possível. Uma pessoa despede-se da terra da alegria com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Dar grandes passeios aos domingos, só na selva dos emigrantes. Em viagem ao fim da noite, um gajo sente-se deus passeando pela brisa da tarde. Mas, como um homem não chora, era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto antes de dizermos adeus às armas e enquanto os suínos cobram por nós as flores do mal e as mãos e os frutos para sempre e até ao fim, Anita.





6 comments:

Anonymous said...

todos os livros que lemos
ou todas as vidas que fomos...

bluesmile

Manuel da Mata said...

Gostei, claro.
Não sei se já te tinha dito que o livro que li mais vezes é o "Estrangeiro". Não "O Homem Revoltado", mas tambem "AS BODAS" (Les Noces).
No teu texto reencontrei-me com alguns dos meus.
E como estou em maré de abraço, aí vai outro. "Vale"?

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Vale sempre, Manel.

Joaquim Jorge Carvalho said...

Podias lá ter metido os Desapontamentos dos Dias (eheheh). Entrava bem na sintaxe e imortalizavas-me num brilhante Rosário Breve.
Abraço.
JJC

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Mea culpa, King.

a saber said...

muito boa a lembrança.coisa curiosa a minha palavra para este comentário ser joysings.