Friday, March 12, 2010

O QUE É NOITE FAZ-SE MANHÃ

Oeuvre de Vladimir Kush





Pombal, Café Ripa, noite de 10 (I) e Restaurante Ti São, manhã de 11 (II) de Março de 2010


I



Somos ainda os jogadores em campo, os actores em palco, estrelas apeadas do breve céu da infância, somos.
O nosso império foi cercado: farmacêuticos, cobradores, poetas, jeovás, veterinários, erotómanos, canalizadores – não nos largam.
(Aquele homem é de olhos azuis, ele azula o jornal que folheia, esquecido na mesa o quartilho de água mineral.)
(Ele é de olhos azuis, mas escrevo-os a verde.)
Perseguimos uma arte epigráfica, julgo que todos nós o fazemos.
Olho as minhas mãos encantadamente.
A chávena que usei é muito bonita.
Está pousada como um acontecimento branco na mesa de madeira castanha.
Vivemos a preto-e-branco entre cores que nos lamentam a surdez óptica.
Celebro a vossa graça triste, irmã da minha.
Tive um tio chamado Arménio, era a bondade feita pessoa, uma vez, na Figueira da Foz, deu-me uma caixa de línguas-de-gato de chocolate, um single do fadista Tristão da Silva Júnior e levou-me ao circo, agora ele continua morto e eu tenho pena da bondade dele, da graça triste dele.
Só nunca tive uma quinta em África como a Karen B.
Às vezes dou por mim a pensar como se fosse outra pessoa.
Gosto de árvores porque elas sobem, nós deitamo-nos.
É bom quando nos telefonam para saber de nós.
Conheço pessoas muito pobres, mas as pobrezas divergem, nem todas são de dinheiro.
Totalmente eidético, aquele mendigo de barba branca a quem o meu Pai comprava calendários religiosos, eles conversavam na oficina de pintura do meu Velho, eu assistia em silêncio, era extraordinária a brancura daquelas barbas, eu queria que ele tivesse uma casa ali perto, o meu Pai comprava-lhe os calendários às escondidas da minha Mãe, não porque a minha Velhota fosse má, mas ela era quem fazia a nossa casa funcionar como as outras: o pão na mesa, a renda no senhorio, televisão e telefone fomos dos primeiros da rua a tê-los, o telefone também era branco.
Penso que afinal já não irei a Florença.
Descobri uma rádio holandesa na Rede, ponho os auscultadores, encerro os olhos e ouço a disciplinada loucura dos Barrocos.
Eu não sei música que chegue.
Sou de superstições inofensivas: a poesia é a mais recorrente delas, mas também me sinto benzido de ter vindo ao mundo num país marítimo, coitados dos Suíços.
Viver é uma fera delicadeza.
Sinto-vos dessoutro lado do meu rosto.
Há pessoas que tomam químicos para não estar tão vivas dentro delas mesmas.
O meu Pai e aquele homem tão branco na oficina, eu pousado no fio da conversa deles como uma ave no fio telefónico.
A minha pobreza é uma estratégia para a morte não dar nada por mim.
Este poema acontece à minha frente como uma estrada atravessada pela raposa.
Quando as mulheres adormecem depois do amor, os homens deveriam guardá-las como cães gratos.
Pensar que se pensa – é como chorar à chuva.
Em Folhadosa, na Serra da Estrela, há uma festa comunitária em que as pessoas trocam comida.
Gosto de ir a Coimbra ver as putas comendo bolos-de-bacalhau nas tabernas, entre empregados da Câmara e doutores alcoolizados com muita fineza de maneiras.
Às vezes, todos encoiramos o nosso bocado.
A estas horas, a minha Mãe já deve estar deitada, sozinha há tantos anos na cama.
Outras vezes, gostaria de ser aquele homem que escreve com duas bandeiras para os aviões lerem o que se passa em terra.
A gente quer sempre ser além da gente.
Mas quando levanto a cabeça, é outra vez noite, a minha Mãe já dorme, sumida já no bosque a raposa.

II

A Ti São da casa-de-pasto que leva o nome dela canta fados de Lisboa enquanto trabalha na cozinha. Canta bem. É em Pombal, cidadezinha da União Europeia. O Sol pinta as ruas com uma paleta de laranjeiras e mulheres maduras. Expedientes económicos movem os carros. Um homem de mãos deformadas alimenta-se ao balcão. É um trabalhador. Não alto, largo, com essa pujança dos operários pobres que movem o mundo. Além, vejo passando o Tó-Zé Aguiar, um dos melhores músicos que já conheci em pessoa. Bom rapaz, casado há uma data de anos com a Ana Cabral. Sim, o mundo existe, o mundo resiste. E os produtos adquiridos não podem ser devolvidos. José da Silva Henriques é armazenista de vinhos, diz aquele calendário. Armazém e residência daquele Zé-das-Pingas em Pernelhas, Leiria. Também armazena na Marinha Grande. A Policlínica de Pombal (Lda.) recorda-nos que é proibida a venda de tabaco a menores. A idade, em caso de necessidade derivada da descúnfia, haverá de ser comprovada por qualquer documento identificativo com fotografia. Posso entrar aqui porque sigo os ditames do art.º 30º do Decreto-Lei nº 57/2002, de 11 de Março, a saber: manifesto a intenção de utilizar os serviços prestados, não me recuso a cumprir as normas de funcionamento privativas do estabelecimento e não penetro nas áreas de acesso vedado.

Ai ai ai ai
Olha o cheiro que a rosa deu
Ai ai ai ai
Vem à janela
Donzela
Sou eu

– canta a Ti São.
A beleza disto: uma voz de cozinha, as laranjeiras coroando a manhã de diademas, execução de todo o tipo de trabalhos com motosserra. Felicidade fina das oratórias do mundo, sua cinefilia: primeiro plano do empregado da Câmara arrostando o contentor-de-rodas sobre fundo de carrinha de abastecimento de produtos de limpeza, o repuxo espermático da água pública, o pescoço daquela senhora velado a torniquete azul de cachecol.
Meus velados olhos, meu destino viático, viário, diário, aviário.
Crispação mandibular: a(b)cesso de nervos.
Telefonemas picotando o éter sideral, roda do mundo, admirável mundo velho, retrato do artista quando jovem vulcão.

2 comments:

Joaquim Jorge Carvalho said...

Vou-me deitar hoje com uma iluminação nova:
"Este poema acontece à minha frente como uma estrada atravessada pela raposa."
A universalidade da poesia (com)prova-se nesta absoluta identificação leitora com o enunciado. Uma vezes raposa, outras estrada - é "isso".
Já nem é Parabéns o que te digo, pá: é Obrigado.
Abraço!
JJC

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Isto é uma arte canhota para gente dextra. Mas ainda não escrevi nem meio verso que valha a sombra sequer da amizade que nos tem(p)os.