Saturday, March 27, 2010

De Perth ao Longe (5)

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Pombal, manhã de 24 de Março de 2010



O bilhar-grande destas paragens é pequeno; as voltas maiores, dou-as por dentro. Os dias recentes, vivi-os em trânsito cordial: fui a Ansião, à Figueira da Foz, à Guia e ao Seixo da Guia. Estive numa fábrica de urnas. Passei o corpo rente ao mar. Respirei sem pensar nisso em andança pelo pombalense Bairro da Agorreta. Consultei a montra do mundo: conferi blusões de napa, gravidezes intumescendo, fritos frios de pescado, distribuidores de mercearias, engenheiros de hidráulica melancolia, maquinetas de rodar meio euro à troca de uma tablete de chocolate caganeto. A vida é deveras bonita, carago. Sobretudo a nossa, aqui na província sem remorso porque sem memória e sem remédio. Miúdas da idade das minhas bambinas escolarizam a realidade de mochilas. Um jeitoso roça os quarenta alado de suíças já grisalhas, o casaco de bombazina muito preto com cotoveleiras cor-de-mel de origem, a gravata vermelha como um grito de ambulância atirado a lâmpada azul. Uma divorciada casadoira dá de laca-madeixa a lúmen: resfolega asmas televisivas, rastilha uma fragrância laboratorial de pretenso jardim francês, abandona lastros de cona viva pela calçada aeróstata. O mediador de seguros desconta a pensão de alimentos no i-érre-ésse do outro, o que casou com ela depois dele. Um pintor da construção civil atira uma cerveja gelada para as furnas de dentro. Súbito, súbdito jamais, o Sol incandesce sua Rosa: e a manhã terminal torna-se toda pintura; e as casas fotografam-se a si mesmas e sem retorno. A breve vida abandona textos longos: é o meu trabalho. O problema foi, escoada a infância, ter começado a tentar deixar escrita a passagem. Mais segura glória (e mor saúde dentária, já agora) decorrido haveria de não escrever o que fosse, ou que sido houvesse, ou vontade de haver. Alegria de não parlapiar, segurança – até comercial, contribuinte até – de carreira, normalidade endócrina, fulgor de moléculas nervosas, paz & sossego e missa ao domingo. Nada, porém, nem a fazer nem a desfazer: a linha está traçada, o (ir)remédio é anotar tudo rumo ao quase-nada do posfácio, do bilhar.

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