Wednesday, February 03, 2010

Viagem Souto – Caldas da Rainha – Souto

Tarde e noite de 3 de Fevereiro de 2010




1. CARRO NA LUZ



O segundo dia deste Fevereiro trouxe uma tarde de Sol completamente pintor. O mundo aparece simples ouro-branco. A magnificência dos eucaliptais é catedrálica, não tenho nem quero outra maneira de dizê-lo. Vamos no carro entre as demais formigas enlatadas da humanidade viária. A muita literatura da realidade sugere poupança de seis cêntimos por litro às terças e sextas, cerveja Bohemia, alternativas A1-A8-A17, um centro de lavagens auto com a chancela Palomas, posto nº 157 de telefone SOS, apelos à moderação de velocidade em caso de chuva ou nevoeiro, não é hoje o caso. Ver é ler. Vamos em equilibrado sossego estrada afora. A luz dá demãos de verniz no arvoredo vasto. Entre massas vegetais, uma que outra casa: qualidade fantasmática de ermidas. O relógio da estrada marca 15h59m. Uma capela nova atira o giz do campanário à remota ardósia do Céu. Saibro e argila, máquinas amarelas de esventrar terra, azimute da Ribeira de Agudim, sinal do Mosteiro de Alcobaça (Património Mundial), um camião da Companhia Pereira & Pestana, legalidade da roubalheira (informação relativa aos preços dos combustíveis), sinal do Castelo de Leiria (património local), largueza de panorama até para lá da ânsia e da indiferença, Leiria, Ourém, Marinha Grande e Monte Real assinalados à cautela, panos de contraluz estendidos largamente pelos bosques sucessivos, antenas vibráteis como asas de nariz, a N113 leva a Tomar, os nomes dos sítios brotam do ar como aves caligráficas, é mais fácil passar do que ficar, e então as cores deflagram como sílabas ou cerejas, o fulvo, o tijolo, o escarlate, o grená, um dos mil-e-um verdes, Bridgestone e Firestone, New Holland e Tecofix, Lubrifores e Fabory, Alidata e Mater, Socilux e GH, depois mais erva à luz, Corcho e Caiado. À cintura de Leiria, o cordão industrial. Já passámos à vista de Parceiros. A equanimidade operário/operático é de uma evidência por assim dizer metafísica. A oeste, o clarão pressentido do mar. A8 e siga. Números: 8, 22, 23, 128. A Ortigosa capta água: sonda, fura. Às vezes, a vida mente – quando parece que não chegámos ainda a ela. Esta tarde (este Sol) é o perfeito desmentido de tal. Operamos em conformidade com essa (esta) evidência. A8, km 116. Saída para Pataias e Porto de Mós a dois mil metros (N242-4). Sinal de um triângulo sentimental: Nazaré – Alcobaça – Valado dos Frades: peixe – fruta – louça (N8-5). Sobrepassa-se o Rio da Areia (metáfora perfeita para Tempo), comentamos a luz formidável. Dois pinheiros mansos, a estibordo, declinam uma mancha gráfica em absoluto perfeita. Breve aventura: travessia de túnel. Ao fundo dele, todo o ouro branco explode, quando se anuncia já a não lonjura de Óbidos. De modo que Alfeizerão e S. Martinho do Porto são consequências naturais (N242). E Caldas da Rainha a minutos não largos.



2. CALDAS DA (D. LEONOR) RAINHA



A esta coroada senhora usurpei o nome da minha primeira filha. Fiz bem. A Pastelaria Machado (excelentes pastéis de feijão, óptimo café à bica) é na Rua de Camões, que a outra Lianor levou à fonte. Tarde abençoada em frente, o Parque D. Carlos I (o Abatido) expõe-se ao Sol que declina já, mas não sem antes exuberar de pardais, coreto, árvores e bancos encarnados. Alguns minitraficantes de haxixe e derivados: peles amarelas, olhares hepáticos. Uma mulher soliloquaz distribui boas-tardes e comeres columbófilos. Mais se apre(e)nde que o arquitecto das termas locais se chamou Rodrigo Maria Berquo e andou vivo entre 1839 e 1896. Há patos no lago em frente à Casa dos Barcos. Há muitas pombas, profissionais da migalha que particulares lhes vêm publicar aos pés. Leopoldo de Almeida fez esta estátua vertical de Ramalho Ortigão. José Malhoa também existe em estatuária. E António Montez, que fundou e dirigiu o museu dedicado ao grande artista nascido nas Caldas da Rainha a 28 de Abril de 1855 e defunto em Figueiró dos Vinhos a 26 de Outubro de 1933. E Soares dos Reis. E uma representação da Dor por Francisco Franco. O Sol contribui para a beleza de estatuárias e outros lances de uma terra elevada a cidade no dia 26 de Agosto de 1927. Algumas datas: Hospital Rainha D. Leonor, 1485; Casa da Cultura, 1837; Parque D. Carlos I, 1799 (ainda o senhor não era vivo, portanto); Balneário Novo, 1855; Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, 1500. Perto, há cavacas e trouxas de ovos. Também se arranja maneira de chegar a requeijões e a morcelas, benditamente. Um nome de artéria: Rua da Amargura. Outra via tem nome de jornal: Diário de Notícias. Paro num café chamado Amarelo. Com a dissolução da tarde, sinto isto de há tantos anos: que as terras portuguesas mais antigas têm uma vocação iniludível para o anoitecimento. E que também escrevem. Leio nesta terra termal as epifanias tristes e os catálogos humildes que resultam da convivência do casario antigo com os ainda-vivos do presente. De que falo? Falo de ginopessoas que vi, delas sendo evidente o comércio de alugar o corpo ao manifesto. De putos americanizados dentro de calças aluídas que deixam ver a matrícula vertical do rêgo do cu. De lojas de tecidos estampados, sempre tão vernáculas à vista e ao trato. De quiosques com carregamento de telemóveis e cópia de chaves. Um cavalheiro careca passa atrelado a um cão enorme, pretíssimo e hirsuto como um arbusto. Há um cavalo branco em fotografia na parede, à esquerda de quem entra, do Café Amarelo. Ele há de tudo, enfim. Há esta mãe-de-filhos de decente e remediado aspecto: mulher-sardinha-portuguesa, pequenina e redonda nos cantos. Olho castanho-económico de pardal-sardinha, sapato de napa sem pelica. Nylon cor-de-carne. E de repente, em conversa com outra portuguesa, sai-se ela com esta: “A nossa mente é tão complexa, tão complexa!”. E quando concordo com ela em perfeito silêncio, sinto o tácito ar humano que faria do Café Vila Faia, à rua 31 de Janeiro, vivera eu nas Caldas, o meu estabelecimento de café quotidiano. Então, finalmente, permito-me a leitura do jornal do dia, o Correio da Manhã, que me evade de cá sem me tirar de aqui. Apre(e)ndo: que há um supermercado chamado Mantinho Bento na Sobreda (Almada); que um jovem de 19 anos foi esfaqueado na cara e na Reboleira (Amadora); que uma “actriz” (todas as gajas são “actrizes” agora, mas só em Portugal) esfaqueou os pulsos à avó (dela) na Avenida de Roma (Lx.); que o Mário Crespo está refodido com a desgovernança socialistóide pátria; que o Armando Vara está vivo e continua a estar; que a Linda Mala-de-Cartão de Suza se queixa de ter sido roubada forte e feio por gente que se aproveitou dela feia e fraca (mas o aparato aparece na página de “Cultura & Espectáculos” do CM, mesminho ao ladinho do jiboiante e irrelevante Fr. Zé Viegas); que o nome completo da Linda é Teolinda Joaquina de Sousa Lança; e que a Teolinda é natural de Beringel (Beja); e que já marca 61 anos no conta-quilómetros; que outros nomes (e outras corruptelas) portugueses (/as) podem ser: Zé Penedos & filho Paulo, Manel Godinho & Maribel sua secretária, Paiva-EDP-Nunes-Imobiliária & João Godinho filho do Manel idem, Guilhermina vereadora Rego do “Conhecimento” e da “Coesão Social” da Câmara (ou Cambra) Municipal do Porto, que-se-diz-que; que o Pinto da Costa tem uma amiga brasileira de 23 anos que-nada-diz-que; que Fernando Graça, dono da Cervejaria Tradicional, em Benfica (Lx.), já não é, ao contrário de Armando (chamado à) Vara, vivo por causa de ter sido baleado na cabeça de um modo definitivo por não se sabe ainda quem; que três irmãos de Caria (Belmonte) furtavam carris da via-férrea de Teixoso (Covilhã); que na minha terra, Pedrulha (Coimbra), dois ex-reclusos um bocado dados ao tráfico e ao gamanço, de 27 e 34 anos, viajaram num carro furtado até por lá terem tido sorte nenhuma; que um gajo sem carta de condução mas com 60 anos pôs vidas em risco a fugir da bófia, mas pronto; que a doença de Alzheimer se esqueceu algures de Manuel Henriques, de 79 anos, que tinha saído do Lar de Dia de Proença-a-Quê?-a-Nova; que uma chibita de 16 anos fugiu de Castelo Branco (o que é normal) para ir ter com o namorado à Guarda (o que é já não é tão normal); que bovinos no valor bruto de seis mil dos antigos contos foram gamados de uma propriedade de Alcafozes, em Idanha-a-Quê?-a-Nova. E o jornal também cansa, não é só “viver sempre”, como escreveu o patusco do José Gomes Ferreira. De modo que a boa ideia é ouvir palavras de gente das Caldas, a saber: “Tenho a água por fora”; “Oitenta, boa tarde”; “Tudo tudo ligado, ali”; “Andam a roubar lenha, mas eu tenho lá doze, treze sacos de cimento ainda”; “É muito tempo, ó Chico!”; “Um caso que lá está, interessado naquele terreno”.



3. NOITE CULTURAL NAS CALDAS MAS POR COISA DE UMA HORA SÓ



O título deste capítulo final é menos pretensioso do que semelhará a olho menos atento e mais de pé atrás como o Senhor dos Passos. Porque em verdade me e vo-lo repito que não conheço noite não cultural. Mais nas Caldas – e mais na Rua José Pedro Ferreira, em decente estabelecimento de pronto-a-comer postado ante o todo modernaço Centro Cultural e (de?) Congressos local. O acontecimento definitivamente maior da noite é a noite mesma. E cada noite funciona como uma máquina propiciadora de encontros. Não apenas os irrisórios acasalamentos – não apenas esse lixo humano mas lixo mas humano. A noite das Caldas (por exemplo das Caldas) é muito boa para pensar nas crianças cortadas pela II Guerra Mundial: as holandesas, as polacas, as alemãs, as romenas, as norte-africanas, as japonesas, todas elas. É muito boa, também, para suportar os coices da retrospectiva, que numa idade como a que me vai acontecendo, enfim, é muita e é assaz. A Senhora Anna Seghers pode ser nomeada, defunta embora no dia primo de Junho de 1983, aqui mesmo, no pronto-a-comer Xaneca III. Há arroz de feijão, polvo, frango assado (na compra de um, oferta de um pão), bacalhau-à-Brás. Dois operários da construção civil vêm liquidar duas cervejas. Um pró-pintor de esquerda e de província (boné à Che) também liquida umas tantas. Uma mulata magra vem ao pão sem frango. Felizmente, o televisor ladra baixinho. (E, só aqui entre nós, isto pode parecer-se tanto com o desespero como com outra coisa qualquer.) Ele trabalha nas linhas. As linhas, uma por uma, surdem e surgem em mancha. Surge é título de disco de uns senhores chamados New York Jazz Quartet. (Cá está: a noite é cultural.) Há salada de porco, há salada de orelha: 30.00 euros/kg a de porco, 10.00 a de orelha. Entra um maduro careca parecido com o do cão-arbusto de há bocado. Vem comer sozinho. Traz fios auriculares ligados ao telemóvel. Quarentas. Parece rapaz asseado. Divorciado. Arquitecto ou coisa. Bi, de certeza. O tipo da televisão diz que morreu a Rosa Lobato Faria. Fez novelas e assim. Escrevinhou umas livrices e poemas e coiso. Era magra e não feia, o tipo-senhora. Orientou-se, julgo que bem. Televisão e tal. Chegou aos 77. Não foi mau, posto que viver anda sempre pela hora da morte. O Herman José é dos que vão comover-se. Quando o José Hermano S. morrer, o Herman José também vai comover-se, caso ainda ele não etc. Depois é isto: a noite na cidade, o februário teor delas, cidade e noite. Ronda pela visão do pequeno comércio. Uma certa apatia já ante a inframediocridade do autarquismo. A Senhora Seghers, cuja impressão reconfirmo como acabada na minha terra, Pedrulha (Coimbra), aos nove dias de Junho de 1975: oito anos menos oito dias antes, portanto, de sua defunção. O careca auricular termina o prato de arroz de polvo, encomenda uma coxinha de frango e café, que “pode ser ao mesmo tempo”. Ele é, portanto, colega meu, para quem tudo nos é simultâneo. E a outra senhora do Café Vila Faia? – “(…) tão complexa, tão complexa!”. Beleza disto. Devagar, penso ter composto uma “Canção na Surrey U.” Para nada, claro. Melhor do que a cantiga, isto que leio colado a uma caixa distribuidora de electricidade: “LIMPEZA DE CHAMINÉS NÃO SUJA A CASA (depois dois números de telemóvel) MONTAGEM DE GIRÂNDOLAS DAMOS GARANTIA NOS SERVIÇOS”. Beleza disto, também. Um cigarro, por favor um cigarro, mesmo que na rua. E depois, linha por linha para linha para lenha. Um sentimento de verdade de tudo isto decorrente: a frialdade da pedra, a inconsequência pessoal das estátuas (não entendi as datas aos pés de Ramalho Ortigão), a mocidade reciclada dos verdes naturais, o pano de preto-cenário da Noite Nova, esta, aqui, de que a natural abstenção solar resulta em a ausência do Pintor.

2 comments:

Sophis said...

Tinha tantas saudades de um texto destes, camarade. bj

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Merci, Bofix.