Thursday, February 04, 2010

Vela à Chuva


Pombal, entardenoitecer de 4 de Fevereiro de 2010




I

Numa sala moderadamente iluminada, observa as mãos dos vivos.
Não olhes as pessoas.
Recorta as mãos das pessoas e torna-as alvos únicos da tua atenção.
Exerce piedade.
Tenho feito isso.
Estou a fazê-lo agora, precisamente.
A mão esquerda do homem de camisola verde-musgo: unhas preênseis, dedos poderosos, palma larga e quadrada.
A mão direita do homem de casaco mel-escuro é escritora: usa lapiseira técnica, não usa pêlos nas costas nem anel.
Ambas as mãos da mulher de lenço verde-marinho: de película porcelânica, unhas coroadas de tira branca, um anel de ouro em cada.
A mão direita da mulher de botas de agudo calfe: dedos longos sem desequilíbrio, higiene radiante, anel de licenciatura, extrema elegância pentagramática.
Que me dirás das mãos vivas da sala em que estás?
Destas de aqui, digo-te: aranhas, estrelas, estrelícias, róseas máquinas, textos úteis.

II

Além da linha de montes, um alvor lustral intensifica a global noite das coisas e dos caminhos que a elas já não levam. Café e cigarros à luz da vela, vigília doméstica à boca da tarde. Pelo fim da tarde, choveu.

III

Chuva rápida, ríspida, tépida, intrépida – veio fechar a tarde, dissolvendo dela a luz. Para mim, é uma alegria senti-la tão viva e grácil, espécie de vasta senhora que mais a si transparece quão mais à luz escurece. Tinha, eu, estado em casa afiando lápis, lavando os pratos das gatas, reordenando gladíolos e begónias e cassetes de gajas e dos Yes e dos Joy Division e dos Gaiteiros de Lisboa, cozendo massa, bocejando versos próprios e alheios, esperando coisa alguma do nada do costume. Imperiosamente convocado por telefone, porém, hei tido de fazer-me à rua. Ainda não chovia, quando saí. Dei-me bom andamento. Sobre sapatos de pontas de aço, em calças dúcteis, tenra camisola de gola alta e casaco forte subido a capuz, vim ter a este papel. A meio da ponte, ela veio fechar a tarde. Geral susto pedestre em torno, não meu. Nem pressa, nem receio, nem doença, nem tempo, também, para uma chávena de café muito quente com um pouco de açúcar. Adiei a chávena, mandei fora o cigarro a meio e entrei no posto de trabalho com uma antena dedicada ao que lá fora (ainda) chove. Também gosto da interpermeabilidade das dimensões verbais: Chuva e Europa, Cadeiras de Forro Azul e Imprensa, Liliana e Diversidade Linguística e Cultural, José e Emprego, Hora e Profissão, Número 38 e Cidadania, Sala e Ambiente, Fernanda e Deveres, Roupas e Higiene, Caneta e Etnias, Verso e Processador de Texto, Culpa e Hipertexto, Ganga e Cálculo, Dinheiro e Probabilidades, Pensamento e Equilíbrio Dinâmico, Férias e Trigonometria, Palavra e Sistemas Termodinâmicos, Óculos e Movimentos Ondulatórios, Humidade e Reacções de Precipitação, Pessoas e Equilíbrio Heterogéneo, Knopfli e Outros Materiais. Estas e Outras Coisas Intrépidas, Tépidas, Ríspidas e Rápidas.

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