Monday, February 22, 2010

Ribeira Negra Areia Brava

Souto, Casa, noite de 20 de Fevereiro de 2010





Viver é uma espécie de temporal assolando a região pensativa,
derrocadas previstas cedo ou menos cedo desabam
fés, dogmas, certezas, parentes,
cinturões fabris consomem a luz dos olhos e a seiva das mãos, nem todas
as pessoas ligam muito à insolvência invernosa do coração, algumas
ainda assim fazem pela vida poupando lenha e conservas e azeite e farinha,
andorinhas de barro negrejam ainda desabitadas empenas de cal avoenga,
pelourinhos sinalizam a cárie dos séculos,
as crianças patinham no paraíso depois lama,
às vinte e sete trinta e dois mortos confirmados na Madeira,
pobres cápsulas ex-cristãs e ex-viventes e ex-votos e ex-tudo,
isto só pode ser obra de um tal deus,
obra da resignada impotência edificadora da
santa-sopa-dos-pobres,
como fazem na Finlândia não sei,
aqui segue-se pela televisão a tragicomédia popular
de tão pouco Cristo para tanto cristão,
isto só pode ser obra de haver tão poucos praticantes,
tantas ribeiras doidas ao cabo de cinco minutos de chuva intensa,
em Peniche quatro pescadores foram tragados pelo mar,
a dor humana cerra as mãos e não aperta nada,
areia parece confirmar-se a nossa mais íntima vocação sideral,
enquanto o Sol não arrefece de vez,
enquanto o peido de prata da Lua não acaba de ser dado,
protecção civil, especialistas meteorólogos,
caprichos termodinâmicos,
assusta-nos o risco dos nossos filhos,
envernizadas laranjeiras sofrem o vento cervical,
transidos gatos e cães encolhidos suportam o frio glacial
da efemeridade,
nos cafés o patrão e a patroa contam sombras de moscas,
as tabuletas metálicas guincham ferrugens reumáticas,
não é fácil convocar a estesia do temporal,
não quando os mortos despojam as ruas,
não quando as ribeiras se desaforam marítimas,
que palavras agora para as famílias
dos trinta e dois mais dez da Madeira,
para as dos quatro de Peniche,
a impunidade do tal deus é soez
como soezes são as imolações que ele papa
ao chàzinho da puta da eternidade,
Ribeira Brava tão brava,
Areia Branca tão negra,
sapadores desorientados à salsugem,
geral consternação de pivôs e convidados,
entre mortos e feridos os mentirosos piedosos
alinhavam costuras lamentosas,
amanhã chove, depois de amanhã fará sol,
então veremos ou não.

2 comments:

Joaquim Jorge Carvalho said...

"Tão pouco Cristo para tanto cristão"! Exacto.
Isto é: cisa exacta dita da exacta forma. Eis a tua Poesia, grande Daniel!
Continuas a desassossegar brilhantemente a Língua Portuguesa!
Abraço.
JJC

Joaquim Jorge Carvalho said...

Quis escrever "coisa" e saiu "cisa". Sorry!
JJC