Monday, February 01, 2010

Qual de Vós

Souto, Casa, tarde de 1 de Fevereiro de 2010


De um dos cantos da noite ele chegava tenebrosamente, filho de alguém para ninguém, e como uma árvore de rio ele era anónimo e alto e escuro e com todas as águas do mundo aos pés.
Não se podia dizer-lhe nada de novo, a boca parecia queimada pela usura das décadas, as orelhas carbonizadas de música, as mãos transparentes dentro da escuridão dos gestos.
Máquinas trabalhavam em prol da desertificação, quem podia recorrer à surdez era o que fazia, o mais era suportar com dignidade a cutelaria estelar vitrificada de frio no céu.
Ele vinha para aliviar-se do peso do dia, as horas vergavam-no como lenha, tinha um ar de trabalhador da pedra a quem não atribuíram casa nem mulher nem conta-corrente algumas.
E depois ele geminava-se-nos – e ficámos sempre sem saber qual de nós ele era também.

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