Saturday, February 06, 2010

Perduração Improvável

Anna Seghers (19 de Novembro de 1900–1 de Junho de 1983), foto de autor que desconheço, e Odin the Wanderer, por Georg von Rosen (1886)


Souto, Casa, noite de 5 e dia 6 de Fevereiro de 2010







Posso a partir de agora recordar Braunsfeld e Erbenfeld, a partir de Seghers, logo depois da Segunda Guerra Grande que as pulverizou com pessoas e animais dentro. Precisarei jamais de lá ir: já lá estive, lendo (= vendo as letras de que são feitas e o pó em que se desfizeram). Waldan e Zeissen já cá contam e cantam. Não é uma geografia desprezível, a gráfica. Sítios como focos de prata na memória – como em noite de luar o lago que olha o céu. Lacus, locus – é isto. Dizer Erbach é o mesmo, suponho. Fica na caderneta do verboso andarilho espúrio. Rimam bem, ânsia e distância. É indiferente ao alheio registo, como o será ao próprio, a geografia (falsa & perfeita ou vera & triste) da pessoa. Inverness (Inbhir Nis, em gaélico). E Gamla Uppsala, onde um tal Saxo Grammaticus garante pernoitas felizes de um tal Odin, cujo nome releva do paganismo nórdico como emanado de fúria, excitação, mente, poesia, magia, sofia, profecia, guerra, caça e vitória. Ou os dias fundos de Malcolm Dent em casa de seu amigo Jaime Patrício Pajem-Página. Ou a enfermagem invencível prestada por Joni James, nascida Giovanna Carmella Babbo, ao morituro marido Tony Acquaviva – mais de duas décadas disso. Non perdurabo, enfim. Nem em Spokane nem alhures. Digo Spokane como se dissesse outro qualquer lugarejo do planeta, isto é, outro qualquer hamlet. E então o tal Saxo Grammaticus recolector da Gesta Danorum, cujos livros Três e Quatro inscrevem o Rei Rørik Slyngebond e a bela Geruth, casada primeiro com (H)Orvendil(l) para gerar Amleth, e depois com o sedicioso irmão de (H)Orvendil(l), Feng(i), o assassino usurpador que não será perdoado pelo órfão justiceiro da Jutlândia. Caim e Abel de outra maneira. E então rumo a Paris, ano 1514, o da impressão da crestomatia de lendas Histoires Tragiques, a ser traduzida em 1570 por François de Belleforest, cuja versão inglesa se indica como de 1608. E então as livralhadas suspiram a possibilidade de o William S. de Stratford-upon-Avon ter recorrido a Ur-Hamlet, versão da lenda nórdica por um tal Thomas Kyd, de que não resta cópia, como de nenhum de nós restará, por mais livresca hajam sido as nossas vi(n)da e (v)ida. Como o príncipe dinamarquês, vinguemo-nos da morte, enfim, em vida. Xavier de Maistre é bem gajo para havê-lo feito, não sei, mas viveu anos largos para tanto. E como ele viveu tanto, tanto viva quem amamos, ainda que nós morramos. Mas só a partir de agora.



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