Friday, February 26, 2010

Passagem Escrita

© Sandra Bernardo – Estação CP de Pombal, 21 de Fevereiro de 2010




Souto, Casa, tarde de 26 de Fevereiro de 2010

 Parece-me
grande claridade
deixar escrito
que o que nos fica
da passagem
se resume

a
filhos
uma frase dita à chuva a alguém solar
o cheiro das mãos remanescente nos livros
tidos em casa como gatos
a cor dos olhos transtornada pelo retrato interior
a caderneta de poupança amarelecendo onde era azul
as sapatas de trazer por casa, o cordão do pijama também
segredos de primeiro-andar num prédio que não era o nosso
o single do Lionel Richie a dizer hello a uma cèguinha bonita
árvores vergadas ao vento frio da infância toda em kodachrome
a pele do planeta um tudo-nada aflorada pelos pés trémulos
termos sido involuntariamente internacionais também
e também a doença que levamos em nosso nome até
que nos leve ela
em nome dela
mas sobre tudo o mais


os filhos.

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