Sunday, February 28, 2010

Nova Corrida Nova Viagem à Cidade de Leonor

© Sandra Bernardo – Caldas da Rainha, 2 de Fevereiro de 2010-02-28


Viagem Souto-Caldas da Rainha, tarde e noite de 23 de Fevereiro de 2010





1. SOUTO-CALDAS

Uma viatura muito amarela dos sapadores florestais iluminou a tarde, que decaía e era de chuva. Das colunas da estação-de-serviço tossia uma música horrível qualquer, destas de agora que as máquinas tocam sozinhas, no caso uma imitação de Sonny & Cher. O burrinho, o homenzinho, a carroça e a motorizada – diz aquele sinal dos desenhos – não podem ir por este IP como nós vamos. Bonavia é serviço trailer. Intercentro passeia gente. A rádio agora vai passando tudo o que um homem quer, a loira e a morena dos ABBA. Um Peugeot 307 cor-de-pombo-velho, um camião azul com Anguiano escrito na testa. Ambulância dos Bombeiros Voluntários de Alcobaça ultrapassa-nos a speedar. Os bosques laterais são de cada árvore cada sentinela da respiração das outras. Mutti assegura Transporti Nazionali e Internazionali. São Bartolomeu de Messines cruza o que penso, mas nunca lá fui, que me lembre. Camião Norbert Dentressangles (toldo vermelho). A terra subiu e o céu desceu: óptica do temporal suspenso sobre a Península. Uma carrinha da Prosegur também muito amarela. A cinza é perpendicular ao mundo. A muita humidade escurece muito as muitas árvores. Mas por minutos a rádio deixa-nos ser sultões do swing. As leiras cultivadas não, mas as casas expostas parecem rebordadas a amargura. Um Focus cinza-metal. Servibérica é furgões isotérmicos. Rotom repara paletes. Lizdrive é Ford. Goldporta é especialista em acessos automáticos. Um camião diz-se Forever 450. Uma vivenda de cabeça bicuda como certos pássaros dos documentários da televisão. Caixotes habitacionais muito deprimentes, até de fora. Às vezes, infantas e infantes à janela deles. Flâmulas ondeiam altas. Sarvinhos, Airoso, Rota do Sol (mas que é dele?), Aki, Barloworld Stet é CAT. A língua torrada de café, os pórticos das fossas nasais queimados de ar frio. Isto em que o corpo de cada um se vai volvendo. Se fosse possível reordenar uma crestomatia furta-cores de tudo o que cada um de nós leva visto da vida – que livro caleidoscópico de maravilha. Escoltado por eucaliptos altíssimos, o caminho-de-ferro almeja o Oeste. Ela ama-me, garantem-mo os Beatles. Existir não é quanto basta para vencer viver. Santo Tirso e Moimenta da Beira acampadas por outros estios durante outras gerações. Pataias e Martingança, antigamente traficava-se muita droga por tais aragens e seringagens. Alphaville em Portugal, talvez em Março próximo. Lemos escritos a verde-garrafa(l) em camião rumo ao Norte. Dizem que a Kim Wilde agora é floricultora premiada. O V perspectivector do horizonte rodoviário culmina em um céu compacto de tão plúmbeo, também cor-de-pombo-velho. Os coices gástricos da esperança contemporâneos dos do desespero. Queda de neve a partir dos 900 metros de altitude. Alfredo Mercúrio, de Zanzibar, era o Grande Fingidor, pouco importa que haja ou não haja chupado a palhinha para atracar de popa. Além, um outeiro coroado de pinheiros-mansos. Um casal amarelo de primeiro-andar num casario de brancas térreas. A pálpebra nublada abre um olho amarelo de que chispam raios de litografia católica. Mais além, longe, há-de ser Peniche, istmo de que são co-autores o grande mar e o muito vento. A rádio freme-freme toda com os Spice Boys, por assim dizer, de há quatro décadas quase, vulgo Village People. (Mas isto de escrever versos também sempre foi um bocado freme-freme.) Serralharia Marques Isabel, Lda. Brasilândia Snack-Bar. Inofensiva fúria verbal acalenta o corpo. Elton John no éter da sintonia: começo a desconfiar da alma que põe os discos lá no estúdio. Sagilda é sabões com garantia industrial. Viver não é gratuito, mas viver mais barato é-nos prometido por E. Leclerc, um senhor que deve ser francês aqui (finalmente aqui) das Caldas da Rainha. Nisto, George Michael.

2. MENINO-QUE-CHORA AO PÔR-DO-SOL

Se este Vosso amigo fosse, em vez de pretenso poeta, pintor, a pretensa poesia dele seria pintura de pôr-do-sol, de menino-que-chora de quadro de feira. Ele sabe – e eu sei-o e digo-o por ele. Isto não há nem tem que enganar. Uma pessoa mete-se a poeta, apesar de já haver um Cavafy, um Machado, um Pessoa, um Lorca, um Crane, um Thomas, uma Pizarnik – e se calhar faz mal, porque o ofício está feito e a missão, cumprida. De modo que entardenoitece à força toda nas Caldas da Rainha, que D. Leonor quis termais. As caldas e as monarcas sempre se quiseram umas às outras. Uma rapariga de mamas e barriga Michelin emborca, grácil, uma imperial bem tirada. (Sempre que escrevo “imperial” como copo de cerveja, recordo Ruy Belo em Esposende a ver desaguar o Cávado e recordo as traduções da Colecção Vampiro do Maigret.) Um homem chamado Pietra, de juba viçosa e prateada, conforta um rapaz triste não sei porquê. As costas de um bebedor de balcão garantem-me que Rehau ® é Unlimited Polymer Solutions. À espera do Rui Correia, que aumentou em uma Leonor o agregado populacional da cidade termal, no 120 Bar, ao Largo 5 de Outubro. O Benfica serviu 4 a 0 ao Hertha Berlin. Uma espécie de paz fria embalsama os e as circunstantes. Deve ser um sítio de benfiquistas moderados, este 120 Bar: a efusão foi muito cívica. Além de que o treinador encarnado se chama Jesus, o que só suaviza o milagre de tanta cordura, tanta retenção na fonte. A caminho de esta mesa, vi a empena da gare ferroviária. Passei por formigas toxicómanas: íris hepáticas, dermes bronzeadas em solários poeirentos, uma espécie de raiva esmoler na mímica, uma desgraça pegada. Também passei por casas de mármores & granitos, louças & faianças, alcatifas & seguros. Esta terra tem de tudo – é como as outras, tirando a nova Leonor. E é passando que deixo de importar-me de mais com isto do menino-que-chora ao pôr-do-sol. Atiro à Língua como todo o homem atira às bolas de naftalina no ralo dos mictórios: para fazer rodar. A invernia não se faz nem desfaz num dia. E nem todos os caminhos vão louvar a Roma. Este mesmo entardenoitecer, espuriamente distraído, veramente vogando já por rias e ruas de Caldas de D. Leonor(es), ocorreu-me uma destas imprestáveis certezas boas apenas para limiar de crónica, esta: – Os pais educam-nos todos para James Bonds, acabamos quase todos Zezé Camarinhas. – O olho esquerdo daquele senhor é nublado de glaucoma. Na saca (na minha sim, na dele não sei), Eugénio Lisboa a propósito de um Rui Knopfli e Arto Paasilinna a propósito de um Kaarlo Vatanen. Brincadeiras, enfim. Na praça, uma rapariga muito magra de casaco muito vermelho, um vermelho vociferado como um insulto, cabisbaixa, atrelada a um cão forte especializado em direito ex-matrimonial. Rupias, coroas, dinares, maravedis. Caldas das rainhas e fraldas das bainhas e mafaldas e tainhas. Uma espessura também vermelha, às vezes, como quando se desce as pálpebras para receber o Sol adentro o rosto. Esta pulsão toda termonuclear na antemão posterior da cabeça. Um homem de fato azul-cenário e gravata vermelha, ouço-o expectorar este monossílabo : – Sim. – É uma anuência não exclamativa: uma educada e não beligerante aquiescência. Tofa, Quadrolar, Tranquilidade, Supermercado de Alcatifas do Oeste. Rapaz de negro briqueteando um cigarro repetidamente, o vento não ajuda incêndios pequeninos. Às vezes, raspando a barba, os anos batem-me na cara, pugilam-me os dentes, maquilham-me roxos nas bolsas-toldos dos olhos, esturricam-me um bocadinho o ar da respiração. Nem sempre, não todas as barbas. Não é do morrer que se trata, é do ser vivo. Nisto, Rui Correia.

3. REGRESSO

Às 22h48m, o regresso a casa pela Nacional antiga corresponde a ser um pirilampo na estrada sentido a uma janela, longe, por uma criança de caixote predial, algum infante não adormecido ainda ou ainda não adormecida infanta. É a hora a que finalmente sossegam as lavadoras de azulejos, os pintores de paredes, os operadores de máquinas, o efeito da jóia eléctrica sobre o veludo da noite: os casais esmigalhando ouro nas trevas. Boniteza periférica, larga, ex-Caldas mas ainda rainha da noite.

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