Monday, February 08, 2010

IMAGINADAS FAIAS ou TELÓNIO DE GORRO, CHAPÉU DEPOIS

Souto, Casa, madrugada de 9 de Fevereiro de 2010



No ecrã, imagens de 1966. Músicos negros cuja música Cortázar amou: Thelonious Monk em quarteto. Desconheço os nomes do baterista, do contrabaixista e do sax-tenorista. Conheço porém este encantamento colectivo: a solidão, a quatro embora, desta arte tão futura tantos anos depois, ainda. Como a hora (1h14m), raiada a fronteira medinocturna, que me diz ser amanhã já. Que sono posso conciliar comigo, breve? A boca queimada de café, pulsação escura na boca. Os sapatos de Monk: lisos, bonitos, sem atacadores. Filmam-lhe o direito cortando o compasso. A dignidade desta gente, caramba. A beleza que criaram. Fazer literatura como esta música, quem me dera, esta expressão entre o terreno-matemático e o astro-cerebral. Monk de pé, de costas para o piano, sentindo os outros três com o pé esquerdo a escrever no chão. Tenor sai, Monk senta-se e toca. Um gorro à russa na cabeça barbada. Anel enorme no mínimo direito, unhas abauladas, relógio no pulso direito. Foi isto há quase meio século, volta a ser. Magia. Marco entretanto a lápis palavras do livro que entretenho no colo. Os quatro de fato, quatro fatos escuros, gravatas estreitas e finas da época. Faço-me de distraído, apreso avulsas palavras de Osório: líquenes – diamante – falcão – bácoros – felicidade – lanterna – guarda-rios – peixes – Emily Dickinson – Heitor – embrulho – volúpia – presépio – túmulo – jejum – garbo – amor – cedro – cominhos – Maria Valupi – batida – capela – bombardeamento – desaparecimento – anjo – cisterna – sereias – rostos.
Quando as pernas me levam ao rio de pedra (a cidade no tempo), quando voga esta força, matriz e motriz à vez, que me leva, macieiras e camiões, bemóis e tabuletas, isto que comigo me faz ser, reverberação sem cromia do tenor a preto-e-branco, arco de significação sideral no tremular de imaginadas faias, a Morais Soares levando do Chile ao Alto de S. João, homens magros bebendo café chilro em leitarias tão siderais como vozes sem corpo pressentidas no escuro dos teatros, Monk outra vez de pé, dança, não toca, dança embalado pelo que lhe conta o tenor, Telónio no português possível, grande Monk, ele ali vivo, o anel grande da direita, devem ter mudado de gravação, usa agora chapéu preto, não falha uma nota, um tempo, estes homens assim não falham nunca o Tempo, quando muito adiantam-no, 2h14m de amanhã, Estou a tocar isto amanhã, escreveu Cortázar que Johnny (Ch. Parker, na verdade) disse, desfalece lento na pedra o rubi da lenha, a madrugada sobe como uma sombra vista de cima, paradigmas e sintagmas escalam marés e bares que fecham tarde, imagens de 2010 para ecrã algum e para ninguém.

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