Saturday, February 27, 2010

A Boca em Coimbra, o Cu no Mundo e Olha o que Chove

Pombal, manhã de 25 de Fevereiro de 2010



I

Pousa um dos braços na mesa como se o braço fosse um pássaro fatigado da alta ventura do vento. Lê no jornal que Tânia Martins, uma estudante de veterinária com 24 anos, de Palmela, se atirou a um poço para salvar Farrusca, a cadela dela. Salvaram-se as duas por resgate dos bombeiros de Águas de Moura. Pelas ruas, a morrinha engrossa, torna-se um desconcerto de cordas. Um senhor fala com outro senhor. Ouve um deles garantir que

– Era um tubo de 80.

Sente com razoável nitidez que os rostos se pergaminham como os calendários de parede pelo fim do Verão. Da janela, assiste à debandada pluvial de passaritos azuis de bibe: destroça-se o passeio dos infantes da creche. Ele pensa que os

mortos

são e estão

hirtos
abertos
curtos

e

fartos.

Depois (mas não sabe precisar minutos), uma figura em baixo-relevo a uma esquina – um homem de casaco longo, uma figura escura e magra e alta como um pássaro do Inverno, chapéu substituindo a cabeça. Mais longe, o senhor Meireles vem à porta da sapataria fumar um cigarro. Da casa-de-pasto evola-se já o chamamento de sereia da cebola frigida devagar. Um pouco de Sol dá-se graça sobre o acampamento de pedra. As fontes da cabeça murmarulham-lhe soluços oxigenados a 80.

II

Pela boca se nasce e morre e vive.
Grilos falantes, surdimos a alface verbal.
Solutos dízimos pagamos à capela
de nos não crerem nem quererem.
Não tem mal, havendo o dízimo.

Tenho passado a minha vida na boca
língua adentro. Há decerto casos e casas
piores, não me queixo nem eviscero.
Filho de fantasmas benignos, exerço-os.

Bela redondeza aceita o olhá-la calado.
As vilas portuguesas são brancas de noite
e negras de dia e cinza no tempo.
É bom convocar a semântica das tabuletas.

Agora subo os mármores ossificadores de ofício,
lembro este que aquele senhor, falo a uma mulher,
recolho dos balcões a demasia humílima – e
ainda tenho tempo para ser feliz quando

ninguém está a olhar. Nisto, um rapaz gordo,
doutor em Coimbra e da juventude por graça
chamada socialista, diz que não senhor, que ele
e o pai e o partido não roubaram nada que

não pudessem. Peço que desliguem a televisão,
óbolo que me concedem a troco de uma guitarrada
com improvisos à moda também de Coimbra,
isto é, mal e triste e porcamente e sôtôr.

Nisto, o tempo passa-se como um drogado iracundo.
Isto, isto é, o tempo convoca as tabuletas.
A boca em Coimbra, o cu no mundo
– e brancos os mármores de letras violetas.

III

Grácil é a orbital aurora enrubescedora
que até a hortas estende fulgor de prado.
Gentil é aceitar dizendo – Obrigado! –,
gentil é ser a alma povoadora.

Não é difícil estar vivo, mas sê-lo.
Ao corso de ribeiros, agradecer
não o estar vivo mas o mesmo viver
– já é mais vivo, por mais o ser.

Ai que delicadas de cabelo amarelo senhoras!
Parecem auroras quentes, estivais.
– Obrigado! – Então não quer mais? –
Não mais, obrigado, oh enrubescedoras!

IV

Rapazes tenho amigos que mulheres amaram.
Casaram-se contra outras mas ’inda lembram
as que para ser sendo afinal não foram,
mas são ’inda aquelas que mais alumbram.

Excepções disto são raras, como é lei
de raridade ser quanto é excepção:
que os houve quem bem casou, com quem não sei,
mas lhe bateu em ponto o coração.

Ficámos todos em banho-maria,
que é nome da bolacha ida a banhos.
Criamos, uns hipertexto, outros, etnia.
Rapazes tenho amigos, juro que tenho.

V

No nosso tempo mais fresco e menos frágil,
“desperdício”
se chamava ao pouco de trapo sujo que
limpava.
Assim hoje também
(frágil mais agora, mas menos fresco embora)
ao coração
se chamaria,
se ainda
o
chamássemos.

VI

Similitude lenta das mulheres que se não
envernizam de unhas, a paz higiénica
das casas-de-pasto sempre me comoveu
lentamente também.
Devo ser dos resquícios derradeiros
dessa portuguesa humanidade que
no tremoço mijão embalsamado a sal grosso
se encontra,
encanta,
narcisa,
bonita de si mesma.

VII

Percebo talvez tarde
que isto da fé tem
muito a ver com economia.
A gente acredita pouco porque tem tudo.
Não se pode pedir a um tanganho católico
que seja budista de modos.
A haver, sei lá, deus,
deus haveria naquele pinheiro-manso ali,
alma metabólica dada a fotossínteses,
e a vizinhanças de laboratório de prótese dentária.
A não haver, cá sei, deus,
há, talvez tarde,
laboratório
e
pinheiro.

VIII

Não te faças tarde depois da noite, filha(s), que
outros houve antes, como pós haverá,
amanhanoitecidos a penantes porque
tudo que já houve ainda há.

IX

(Segredos:)
Castanho-pardal de olhos é Mãe.
Quando fores a sepultar teu Pai, volta
um pouco.
Filhas são a casa toda pintada de fresco,
sem contar as paredes.

X

Quanto vale na Bolsa este homem à minha frente,
este que pede e paga e toma anis contra a corrente?
Suas bainhas de calças, suas alças de carpinteiro,
seu nada-quase-ser-mas-ser-e-sê-lo-por-inteiro?

Quanto valerá quanto, este raul-solnado-siamês
do nosso tão familiar e luso karaoke?
Este festival-da-canção, esta pedra-de-toque
que é amiga do roque uma que outra vez?

Este pátio-das-cantigas, este pião-da-esparrela,
este bosta-do-costelo, este sai-de-ti-tirano?
Este adiar-país, este-sempre-até-pó-ano,
esta linfa de coisa que é lusa e amarela?

Quanto vale, responde, vale tanto
quanto quem cala, come e fala desesperanto.

XI

Os escritores não publicados deveriam começar
a publicar por mérito da fixação em escrito
do paciente perfil das pessoas a quem pedem
que ouçam o que escreveram (tão prometedoramente)
antes da publicação.

Assim é o sangue entre a pulga e o cão.

XII

Pessoas há, poucas embora (ou porque
poucas), que nem seda são no vestiário
de lembrá-las, porque caxemira
não sobra a guardá-las em estampada gaze,
como outrora os sudários e
os cristos e
os hologramas.
Hollywood à parte, morrerem-nos é coisa
que nos fazem.
Daí que seda,
caxemira
e
desperdício
menos fresco
e
mais frágil.

XIII

Homem ou mulher não importa sejas
quando,
uns olhos à chuva vendo passar,
não aches
sejam
água em água
e
água por água,
olha o que chove.

1 comment:

Manuel da Mata said...

Eu sei o trabalho que está investido nestes textos todos.
Nenhum Vara,nenhum Sócrates nenhum Penedo, fazem ideia.