Monday, February 08, 2010

19+45 quase 6

© W. Eugene Smith Marine Demolition Team Blasting Out a Cave on Hill 382 in Iwo Jima, 1945







Souto, Casa, tarde de 7 de Fevereiro de 2010











Demorei exactamente dezanove anos a ser nascido a partir do dia da capitulação alemã, de modo que me foi impossível estar em Lüneburg para receber a boa nova entre a demais gente sobreviva. Os que tinham sustentado e vitoriado Hitler, vitoriavam e genuflectiam agora ante os victores soviéticos, norte-americanos, ingleses e outros. Suponho que a sobrevivência tenha sido mais dura ainda do que a vida nos tempos que precederam a queda do Reich dos doze – não dos mil – anos. Violações, saques, antropofagias, forcas, orfandades, fomes, êxodos sem diáspora esperançosa. Alexander Falkin, soviético, andou por aquelas bandas naquela época, assim como Mickey Dorsey, norte-americano. Algumas fotografias foram obtidas por Dorsey. Viu gente comer os cigarros que as tropas davam. Hospital de S. Jorge, em Hamburgo, Helga Vick era uma enfermeira de cirurgia de 21 anos. A tifóide, a tuberculose, a cólera (a doença como a ira), o pus, as lâminas, as mortes além da capitulação. Sim, cadáveres: de gente, de cidades, de rios, do Tempo mesmo. Dezanove anos depois, a minha vez – inconsequente q.b., à maneira do humano.
Apesar de assim, uma não desistida volta pelos arredores da mente renova a possibilidade da manutenção. Por exemplo: também dezanove anos separam a concessão do Prix Renaudot a dois escribas Franck: Christopher (La Nuit Américaine, 1972) e Dan (La Séparation, 1991). Blocos-assim de assim-Tempo. Na tarde grisalha, encanecida à nascença pela opressão do céu, a chávena de café evola um consolo inofensivo. À colação, o cigarro usufruído devagar, o olhar hialúrgico em seu inverno privado, a louça lavada, enxugada e arrumada, as varandas aguardando vazias os improváveis desfiles da tonta alegria multitudinária. A Norte, o Douro há-de seguir fielmente dele a eternidade mesma, em leal constância inapreensível ao entendimento. Uma rua de Lisboa passa a hora esperando o bulício de segunda-feira, que o domingo não nutre. Ocasião para sofrer a permanência das dicotomias as mais antípodas: passar e ficar, desejar e perder, nascer e esquecer, escrever e atingir. Sintra como um clarão arbustivo, Peniche em ossificação à mercê do vento, todo o vento do mundo todo, Évora pasmando cal secular, Matosinhos chegando a Leça, Leça a Vila do Conde, aonde a onda anda ’inda.
(Como acontece às árvores, isto de ser implica um lento despedir de folhas – daí que escreva.)
Ocasião sempre para receber ao figurativo peito e ao concreto par de mãos as palavras suspensas do ar futuro entre os olhos ledores e as folhas lidas: burel – litania – lictor – victor – elegia – açafata – acanavear – lipograma – açafate – permuta – oliva – desígnio – soledade (sol, solidão, idade e saudade a uma só voz).
Escreviver por clarões, tal um fósforo que se excita para dar à luz a vela.
Ser segundo-trombone, mas ser, na Grande Orquestra.
Vestir um smoking e passar a noite sozinho num barracão de lenha e máquinas agrícolas, não tão sozinho por haver sombras de ratos e labirintos de aranhas dentro do barracão e do pensassentimento.
Jade, ónix, opala, topázio: quatro rainhas minerais em veludo de monte, engastado o Sol que ágatas, rubis, granitos, mármores tauxia à luz da Lua.
Versar a vida é também tergiversar a morte – sinto isso deveras algures no corpo, quando me evado pela floresta vocabular infinita, imarcescível, caprichosa, maravilhosa.
Falei com Ana Graça num bar forrado a azul-azulejos, o balconista era pequeno, usava um colete de padrão escocês, tinha caspa e parecia triste. Ana Graça Abrantes Maranca tomou chá de uma erva com nome difícil, eu pedi café, ela saiu-se com esta: “O Tempo chega sempre. O que se passa, é que nem sempre chega a tempo.” Também pedi, sem saber que pedia, um tempo largo como a luz que pinta mil milheiros de milharais até onde o horizonte se curva como a água do olho, um tempo para compreender a mão além dos livros, algo que Ana Graça acabaria conquistando à custa de não o desejar.
Falei com Conrada Sílvia, Conrada Sílvia Bustos Doravia, que aos domingos ia ver os cavalos da Escola Agrícola e voltava feliz a casa com um embrulho de folhados de canela e queijo para o chá terminal do dia.
Já falei muito com muita gente, difícil é partilhar alguma coisa válida com a pouca muito válida gente que vim conhecendo desde a nascença.
Com Marto João Gomes Correia, falamos da II Guerra Mundial; com Idalino Marco Antunes Isaías, de pintores e de violações célebres; com T. Cristo R. Justine, de enfermagem e de prémios literários; com Saul Governo Dias Lopes, de canto coral e de cavalos e de Conrada Sílvia.
Mas quando alguma coisa me usa para veicular alguma coisa, a poesia está muito bem para isso: pois que nada urge deveras ser dito nem dita.
Clarões escrevem-me botanicamente, por assim dizer – corpos que vi estatelados de branco em enfermarias (clones das do Hospital de S. Jorge, em Hamburgo, onde Helga Vick), peças com mais actores do que pessoas na plateia, poetas que sei mais abundantes do que leitores de poesia, quando um só Sol para tantas árvores, a páginas tantas.
Isto é tudo antes de ir-me embora.
Levado pela máquina voraz e invisível de Lüneburg, a carne da cara em recorte pergaminhoto, as orelhas tufando o pêlo da idade (da soledade etc.), as pernas já magras, cauterizadas enfim as mãos da ferida do gesto.
Sem outra lepra que a desta corrosiva memória, nem assunto outro de momento, sou,



De V.as Exc.as

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