Saturday, December 26, 2009

Se um Taxista Pensasse em Verso numa Noite de Inverno



© Joel Meyerowitz

Red Interior – Provincetown, 1977


Souto, Casa, entardenoitecer e noite de 26 de Dezembro de 2009







Sobre os ombros a dor enxuta de ser pessoa na voracidade das esferas.
A música dos altos veludos frios espalha firmamento por toda a parte.
Ramagens fronteiriçam vivendas solitárias, além de que cães e cântaros.
Um poço olha as estrelas venosas de muito baixo para muito acima.
As mulheres que cantam, depois da curva, vão sangrar aves para a ceia.


O frio toma a carne, xilofona os ossos, vitrifica o olhar vilão, range dentes.
Gosto disto.
Estou preparado para o que aí vem.
Tem de se ser sempre pessoa.
É como ser estrela: tem de se ser voraz sempre.


Cava-se um buraco vertical: e resulta uma pessoa.
Ou uma estrela.
Uma esteira de gases, de diamantes, de cafés de beira-estrada, de berlindes.
Aflora-se com a boca a erva dos anos: o cavalo vertical: a estrela: a pessoa.
As praias no Inverno: tu sabes.


As pessoas cavam diamantes nos cafés de beira-estrada.
O céu vai saindo por rifas, as estrelas por máquinas de venda automática.
Educa-se a criança contra o horizonte, mente-se-lhe o frio, a sorte das aves.
Sobre os ombros da criança a dor húmida ainda: a seiva do leite de mama.
A placenta medusou a pessoa infante, emaranhou-a de gaze, atou-a.


E eu, que gosto disto, espero
ser, servir e ir.

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