Monday, December 21, 2009

O que me lembro de Lisboa

Souto, Casa, tarde de 21 de Dezembro de 2009




Para o Armando, naturalmente





Que cada um tem cada um sua birmânia pouco secreta, seu exposto orwell devassando íntimas selvas, lamacentas vias na obscuridade, indochinas de mercearia de bairro, pouca atenção às frias fogueiras que as estrelas são, o tremor das mãos também não ajuda por aí além agora, golpadas de vento revolucionam pelo chão os lixos e os despojos outonais em plena invernia, os sem-abrigo espreitam de entre cartões frigoríficos nas arcadas do D. Maria II, bifanas e bancários lustram a esquina da gare ferroviária, a voz cega de Rosa na Rua Augusta, douradores de ferro sportingando imediações de cinemas encerrados, putas sérias obliquando olhares-cartões-de-convite, mas também por vezes o ar muito branco, por vezes o entardecer juntando barcos como na serra o pastor as ovelhas do regresso, num terreiro os despojos do circo que deixou a cidade, ao Alto de S. João os mortos curraleirados e legíveis, inglesas velhas chegadas friorentas de Brighton tomando intermináveis chás na Suíça ao Rossio, a janela de quarto-andar do Eça olhando ainda S. Jorge, revoadas de espanholas alegres gargalhando nos bazares melancólicos da capital da Nação, o bolor de Salazar metastisando ’inda as pensões Restauradores acima Bica abaixo, o senhor Fernando das cervejas no peep-show, os totós com o último paulo-coelho no sovaco, a celebridade-pivô-de-telejornal braboleteando pela Avenida de Roma, a cidade alternativa e final dos Prazeres, a Rocha do Conde d’Óbidos marcando o marinheiro que não fui nunca serei, o Passeio Público juncado de tipóias topo-de-gama, a epistemológica estupidez dos taxistas todos, o maluco do Areeiro que se julgava Ciccio Ingrassia, poucas moedas, esta noite uma sopa, uma sandes de iscas, a cabeça-herberto-entre-as-helder-mãos, a procela de sentir nitidamente a voz de António dos Santos nas vielas que levam uma pessoa pela mão a ver o mar afinal rio, o brilho dos hotéis vistos sempre de fora, uma vez que o Armando me lá foi ter às ginjas, os cegos descendo Santa Marta S. José Portas de Santo Antão, tantos cegos tem Lisboa, na taberna da Mercedes Surda se juntavam eles para falar de futebol, a optometria ajudava a divisar Santana dos Mártires e do Irmão Doutor Sousa Martins, Tourel de galegos, Estefânia do nascituro Pacheco, Arco do Cego (mais um), e onde era a cerâmica (mais uma) do Júlio Martins patrão do meu Pai é hoje a descomunal sede da Caixa Geral de Depósitos, João XXI, Campo Pequeno, Gambrinus, o diabo-a-quatro-pintado-a-sete, o mourame vermelho da praça de touros, a irremediabilidade do tempo fora do corpo, mas também por vezes o ar muito branco, as manhãs iguais a cristaleiras, as lisbonenses genuínas iguais a psychés de estrear pelo Santo António, mas também por vezes a chuva, a mais triste chuva do mundo que é a de Lisboa, uma pessoa ali e a chuva por todo o lado, nunca ter vindo a Santa Apolónia a mostrar ao Pai os Malhoas do Museu Militar, uma pessoa ali e não propriamente ali, a chuva sim, a chuva na Rocha Conde d’Óbidos, a desamparada chuva até Odivelas e mais além, o maricas da pastelaria de Xabregas, os tisnados toxis de Chelas, os cauteleiros restaurando a tristeza de estar vivo em mais um fim-de-século, onde era o gabinete de médico dum tal doutor António Martinho do Rosário, os prédios mais cinzentos do mundo são todos em Benfica, onde uma mulher chamada América passa a vida à janela e ao telefone chamando fantasmas de guarda-redes mortos, o cantor angolano Waldemar Bastos a quem mataram um filho, os cegos subindo Portas de Santo Antão S. José Santa Marta, o homem da cara roxa esmolando à porta da Brasileira, descer e subir e descer a 1º de Dezembro, os bancários almoçando bifanas com uma pose de banqueiros ante lagostas, mas também de repente uma alegria insensata ante as mansardas lacradas a sardinheiras, uma insensata euforia ante os eléctricos amarelos quais canários, as estátuas alpinistas da luz, sete colinas sete presépios, uma vida sete mortes, pátria de gás de Cesário Verde, de sobrecasacas de Guerra Junqueiro, de in-fólios de Oliveira Martins, de bengalas de Ramalho Ortigão, de Amor de Mãe Angola 1968, a cada um sua-birmânia-sua-lisboa, uma pessoa está fechada em sua mesma cabeça como um pássaro em sua gaiola mesma, mas também de repente os quiosques que também vendem café, as vielas perfumadas de bacalhau e sabão azul, os jardins onde a melancolia floresce diagonal, o Príncipe Real ainda vivo ainda não 1908, a Estrela de velar os mortos mais célebres da TV, a condição essencialmente basílica da solidão, a circunspecta cabisbaixice da freira que passa, mas também de repente dois gênêérres a cavalo como antigamente, um cardume de ciganos subindo para a ford-transit, o rosto das caixeirinhas do comércio empalidecendo a preto-e-branco dentro de lojinhas à pátio-das-cantigas, a imponência malfeitora dos grandes bancos, os sheratons de ver-por-fora e as pensões de sofrer-por-dentro como daquela vez o Armando e as ginjas e ele ter morrido pouco depois na Figueira da Foz, não vem agora ao caso mas se calhar até vem, certa ocasião ter sido feliz num restaurante que dava pelo nome de Paris, era na avenida desse nome, sopa de tomate, medalhão de vitela com esparguete, doce de ovos, café, um pouco mais de moedas havia nesse dia, depois Rua de S. Paulo até Santos, depois onde?, por onde depois?, talvez Águas Livres, talvez Cacilhas, Almada talvez, quase de certeza rente à casa da divina Amália a S. Bento, um trapo de conhaque naquele bar da noite onde se estreou o António Variações, onde enfim George Orwell.

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