Tuesday, December 22, 2009

O que me lembro de Coimbra

Souto, Casa, tarde de 22 de Dezembro de 2009





Para o Lelo, naturalmente










Tantos anos de migração trouxeram-me a que as minhas capitais da cidade sejam ambas as estações ferroviárias, a Velha e a Nova, a B e a A. Acho que a Velha foi inaugurada um século exacto antes do meu nascimento. A ela ia a estudantada queiroziana e quejanda a buscar as encomendas livrescas de França. Isso passou. Também o meu tempo de Coimbra passou, não me basta lá ter nascido. Sou agora de outras paragens – ou por outras aragens. Não sei. Quando volto, volto sempre brevemente. Saio numa das duas gares e faço-me a pé à vida. Trato do que tenho a tratar – e então queimo o tempo do anterregresso em ambulações de ilusória revisita. Não se revisita de facto. Eu pelo menos não o consigo fazer sem escrever. De modo que


O Telheiro, o Padrão, o Rio, o Búzio, o Danúbio, os cafés da linha de ferro, da linha que sublinha a linha de água do Mondego, o clarão escuro do Choupal gerando sombras e trilhos de cana-da-Índia e homos furtivos espreitando as barrigas das pernas dos jogadores de bàsquete, restaurantes populares para resguardo do que chove em tardes com a noite na barriga à nascença, fileiras de homens da linha de ferro, cauteleiros, mulheres do corpo de aluguer, crianças fechadas em roupas de um cor-de-rosa ferruginoso, as bochechas inchadas com ranho coagulado, rastilhos de lágrimas apagados a tabefe, fritos em mostrador de vidro, chouriça para assar, o presunto pendurado como um enforcado, moscas moles do fumo da grelha, raparigas de avental cartografado a nódoas servindo pratadas de grão, os anos ganhando gordura e amarelos pelas paredes, o contador de talheres, pratos, copos, travessas, a taça de fruta artificial edulcorando pó e teias de aranhas antropológicas, o Telheiro, o Padrão, o Rio, o Búzio, o Danúbio, os anos de ferro corridos a cortina de água, a reposteiro de névoa, sair dali e fazer a Fernão de Magalhães até a Casa do Sal, arrasaram entretanto a LUSA ARTEFACTOS DE BORRACHA, outra gare, a Rodoviária, outros anos de repente, a mesma noite ligando-os a todos, noite de mulheres-candeeiros à berma da avenida esperando as fodas e os trocos, noite-anos de taxistas friorentos com saudades de Salazar e do Benfica campeão europeu, Neptuno, Imprensa Nacional, Lampião, vidavenidacimabaixo, meus anos de ninguém, sempre que volto é pela primeira vez que estou, os anjos já cá estavam, gravados a fogo frio na minha cidade de ninguém, levanta um pouco o olhar, anda, levanta, a Conchada alta, as moradas derradeiras, subida a Rua de Aveiro, lá onde Guilherme o Lelo, a Guerra Junqueiro, a Nicolau Chanterene, a de Saragoça, a Calouste Gulbenkian até o ar refrescado de Celas, cruz de pedra e árvores de sentinela, Penitenciária e mais anjos, bancas de fruta, jornais, guardas, o milagre do Botânico em contraponto ao do passamento da Sãozinha na Rua de Santa Tereza, o Botânico das árvores em latim e do moderado desespero erótico dos namorados, mais homos por aqui como no Choupal, homenzinhos de sapatos-fato-de-treino-pochette, cãezitos de terceiro-andar doidos de euforia à solta pelas áleas que Brotero abriu acho que em 1864 também, bom ano para a cidade esse, Seminário, Combatentes, Restaurante Safari, descer à Santos Rocha até que a maior das avenidas, a do Brasil, ofereça Arregaça e Calhabé. A pé, muito. Parar no Nosso, cheirar a gasolina, encomendar um vermute e pasmar doutoralmente para os morcegos catedráticos que se emborracham de príncipes e canecas entre tiradas e citações rebatidas como pneus de recauchute. Enquanto escrevo, prometo-me tornar a fazer-me a estes caminhos insensatos. Se chover, melhor. Coimbra floresce de outra maneira à chuva, sobretudo quando o corpo venceu o que restava da Brasil até à Navarro, onde o Parque (mais homos, mais crianças, mais senhoras-papagaios, mais guardas) se miniaturiza de Choupal domesticado, à direita alta a Torre de Anto e o Governo Civil, a Cabra e as vielas aferventadas de mijo e de guitarradas, à esquerda o Mondego sempre sereno, camoniano para sempre e para sempre inesiano, basta querer, como quando se vai ver o coto do braço da Rainha Santa ou molhar os pés a Santa Clara-a-Velha, muita coisa velha há em Coimbra, santo deus, a Estação, Santa Clara e até Celas, onde fizeram a passar de há meio século o bairro social para os despejados da Alta antiga, o Parque e então a Ponte que leva e traz da Portagem, grande Mata-Frades todo cagado das pombas, Bertrand e Novalmedina e Ferreira Borges e tudo, e Praça Velha, outra velha, dita do Comércio onde de tempos a tempos vendem a cebola nova e o alfarrábio e o artesanato de chapa e a missanga colonial e a nêspera e a cereja e exemplares maravilhosos do Mundo de Aventuras, S. Bartolomeu e João Brasileiro, onde Adelino Veiga, onde Nemésio (Santo António dos Olivais, agora), onde Antero, onde, enfim, George Orwell.

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