Monday, December 28, 2009

Fragmentos Envernizados pela Falsidade Bondosa e Ingénua


Les prostituées de la Calle Cuauhtemoctzin à México, 1934




© Henri Cartier-Bresson (Magnum)











Souto, Casa, madrugada de 28 de Dezembro de 2009







Quantos livros em forma de gente andam por essas ruas ilegivelmente – tantos quantos os homens e as mulheres.
As árvores são de mancha gráfica vertical – como os poemas e as estátuas. Mas as pessoas são narrativas, as mais das vezes ilegíveis.
Histórias comuns incomunicáveis. Na impossibilidade de lê-las, escrevo-as. Fantasio com sintaxe. Não sei nada. Não conheço ninguém. E no entanto preencho cadernos mais cadernos com fragmentos envernizados pela falsidade bondosa e ingénua que é, deveras, a marca-de-água (ou a pedra-de-toque) que me trouxe e me levará e deixarei.
Tânia, mulata, inquilina regular da Pensão Coimbra-Madrid. Limpezas no hipermercado ao dia, à noite voltas de passeio acim’abaixo na zona do Cinema Calypso. Tem 38 anos, uma filha à custódia de uns senhores brancos do Largo da Brevidade.
Pelicano, engraxador. Sexagenário, fumador de Português Suave desde os 12 anos. Viúvo de Nora há 18 anos. Um filho no Luxemburgo, uma filha no Canadá. Tem poupanças no banco. Não lhes toca.
Existem, não existem, resistem, desistem. Não sei. Agora estão escritos. É-me mais fácil viver com esta gente, viver por essas ruas concretas ou não. Mais fácil do que apenas aceitar a dita ordem alegadamente natural das coisas. Já não tenho remédio, tarde de mais para não seguir senão em frente com isto.
Casimiro, representante de adereços femininos, viaja o País de cabo a rabo há quase três décadas. Ele tem, quê?, 51, 52. A mulher é costureira em casa, algures no Norte. Sem filhos. Sem metafísica. Também, como eu e alguns de vós, sem remédio.
Pamela Anderson Lee, artista de vídeo. Por sistema, estrela do sistema. Dólares no rego das mamas, no elástico das cuecas, nas ligas, no tapete e contra a parede. Sublimação de talhante. Pessoa como as outras.
Também, atenção!, me acontece não escrever. Às vezes, até penso uns instantes. Outras vezes, leio coisas como O Livro da Confiança. Já falei disto, suponho. É obra do Padre Thomas de Saint Laurent. É trabalho católico. Leio tudo e depois abandono a publicação numa estante alta, inacessível às crianças como os medicamentos. Em caso de grande fadiga moral, folheio o José-Augusto França de A Arte em Portugal no Século XIX ou A Volta ao Mundo dada e escrita por Ferreira de Castro na primeira metade da década de 40 do século passado. E então repouso e sou, por assim dizer, feliz.
O maná que me cabe, sei-o bem, decorre da infinitude. Não tanto da cosmogónica (se bem que essa me sossegue, relativizando-nos – e perdoando-nos – como relativiza – e perdoa) como da idiomática. Porque o idioma é infinito: meros 26 grafemas para cumulativos triângulos e espirais de sons – magia e infinito. A dupla articulação verbal é absolutamente feiticeira. Se ele há milagre, há-o no idioma. Daí as pessoas, as pessoas ilegíveis mas escrevíveis – ou escrevíveres, minha nutrição e sustento meu.
O que houver de esquizo nisto não me adoece. Um eu tem de poder tratar-se por tu.
Walpole, inglês, 45 anos como os que vou tendo. Criado de libré, servidor de chás e de sanduíches triangulares de pepino. Adepto discreto do Fulham Football Club. Apostador, uma vez por mês, no hipódromo. Férias de Verão, uma semana no sul de Espanha em casa de um amigo colorido, por assim dizer.
Magda, bióloga ao serviço de uma multinacional do ramo farmacêutico. Coleccionadora prestigiada de esferográficas com publicidade: uns catorze milhares, para mais. Sozinha no amor como um cão à chuva, mas algum sexo pontual, mormente na quadra natalícia.
Iguana, tartaruga, corvo, canário,
Dália, rosa, tulipa, begónia,
Tacho, sertã, escumadeira, garfo,
Hamsun, Benet, Böll, Coccioli.
Jogo de filtro de cores, panóplia, pandemia, suco,
Browning/Barrett, Lytton Strachey/Sackville-West,
Montalbán/Marías, Maradona/Cruijff,
Odessa/Capri, Bond/M,
África/Brasil, Índia/China,
Buckingham/Versailles, alaúde/clavicórdio,
Sal/pimenta, cultismo/conceptismo,
Navarra/Andaluzia, Scott/Amundsen,
Cuneiforme/digital, Walpole/Magda.
Às 2h17m, o silêncio é uma dádiva das esferas. Os adormecidos pastam deles a solidão extrema mesma. Imitam timidamente os grandes e os pequenos mortos da História toda até agora. Raros carros sibilam na via mais próxima da casa. A hora vale por um país. A madrugada, por um continente. E a noite, por um hemisfério à escala planetária. Nenhuma agonia agora, idioma apenas: v livre, ambulatório, criador, livre e livro.
Na ressaca do mar imaginário, este ir pela praia sem hora marcada. Humidade de areia nos supostos pés nus. O vento todo na cara, redesenhando-a. Roupa boa, boamente cingida ao quase-corpo da escrituração. Fabuloso farol, verdevermelhoverdeazulvermelho, na noite nova ante-barcos invisíveis mas legíveis, além. Vou. Vindes comigo, traz-vos o idioma à solta, cão livre de peias, pássaro agora marinho, as asas na cara paginando o vento, i-numerando o olhar não enumerável. Mulheres cantoras, degoladoras de aves, furões de capoeira, parideiras robustas, devotas da Senhora da Agonia.
RAF/Luftwaffe, Foch/Pétain,
Sartre/Castor, Manaca/Malta da Silva,
Alfredo M./ Amália R.,
Pedra/vidro, Márai/Cioran,
Libélula/louva-a-deus,
Hopper/Magritte, NYC/LA,
George/Ringo, Jules/Janvier,
Loren/Bardot,
Purple/Zeppelin,
Casimiro/Pamela.
Os Irmãos Wright, Neville, Walker, Gibb. Os rapazes do surf. A elite astronáutica. A impiedade genocida agora a cores. O trânsito nazi pós-1945 via Vaticano. A prussificação dos exércitos argentino e chileno. O suicídio forçado de Rommel, dito A Raposa do Deserto. Von Paulus capitulando na Rússia. O Norman Mailer de Os Nus e os Mortos. 2h36m. Jamiroquai e Saint-Saëns. Bolor de queijo e chuvas diagonais hidratando a infância. Um homem no Monte do Picoto comendo nozes em estado de puro silêncio. O êxtase de algumas epifanias, a saber: a pele das mulheres orvalhadas, o perfume da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a inclinação violeta do primeiro sexo, a irreprimível euforia ante Bach e Mozart e Monteverdi e Fausto Bordalo Dias, a confirmação de tudo e mais alguma coisa notariada por António Osório, essoutra música chamada Ruy Belo, lances solitários em Lisboa sem ser por esperança nem por desespero, o casal transmontano que servia favas e iscas e sopa em malgas de metal, o Bairro dos Actores e o sósia de Cristo ressequido de heroína pedindo esmola aos pés do Instituto Superior Técnico, a Woolf a entrar na água com os bolsos cheios de pedras, Anthony Hopkins a fazer de Pierre Bezuhov em a Guerra e Paz da BBC e o Alan Dobie de Príncipe Andrei Bolkonsky,
Tânia/Pelicano.

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