Saturday, December 26, 2009

CONFIAR NO CORVO – em prosa e em verso

Souselas, noite de 24 e manhã de 25 de Dezembro de 2009




1

O que podia ter sido, pensando ora nisso à boca da noite, tem a ver com este frio, aliás moderado, em pátina nas casas. A outra vida – a que passou, se passou, se foi embora. Mudaram entretanto um tanto a face da terra: duas que três vias automóveis, degolação de franjas arbóreas, uma que duas estações de serviço, o futuro já pretérito à nascença, enfim.
O que devia ter sido, alheio ao corpo agora embora, embacia as vidraças (ou os olhos). Um cão lá fora, preso sem culpa formada. Os carros em fila lenta na via-rápida. As torres da cimenteira, o último café fecha portas, o asfalto mostra espelhos de prata, guincha a cancela da ferrovia (a artrose da guarda da linha), os mochos cingem o pename calorífero, ele pensa tanto no que podia como no que devia.


2

Parece que S. Paulo, o Eremita, em seus longos anos de deserto, era fornecido cada dia de meio pão por um corvo celestial. Visitado na solidão por Santo Antão, trouxe-lhe o corvo um pão inteiro, tal que aos dois santos coubesse igual ração.
As histórias da História do Pão são humanas. Não recorda o tubarão a genealogia que destroça abocanhando a pescada individual. É bem que assim seja. Nós, gente, somos em tudo diferença. As lendas correm séculos. O pão e as vidas fundem-se. Por cima, a parte susã. Por baixo, a jusã. Os corvos deflagram, panificadores.
Quanto pão não terá comido certo Benabet (dito também Amenhamet), alegado rei de Sevilha no século XI, por aí? Deu D. Afonso VI de comer a seu filho Sancho, que tão moço veio a morrer em 1108 na Batalha de Velez? E era de facto Joana o nome da mulher de Cusa, suposto intendente da casa de Herodes? E que qualidade de pão, ázimo ou não, terão ingerido Herodes, Cusa e Joana? E que linhos envergou quem dentre eles, se alcânave, se cânhamo?
Da minha linhagem (linho e linha), um tal Jacob veio da Galiza há não contadas décadas para estas bandas. Mas não há Joanas entre as mulheres da minha casa. Há pão, mas não Joana. A prestigiosa família galega Lago, patronímico corrompido talvez em Lages, não é a minha. Dessa planta de gente, há a distinguir os primitivos descendentes de um D. Mendo, comedor de pão ele também e irmão de Desidério, que foi o rei derradeiro dos Longobardos, e outros de confusa origem e incerta consequência.
Isto apreendo lendo em Souselas a Lenda da Torre de Moncorvo, terra de pão, gente, santos, anjos e corvos. Mas não apenas.
Não apenas porque à colação arriba um voluminho intitulado O Livro da Confiança. É da autoria do senhor Padre Thomas de Saint Laurent, escritor pio nascido em Lyon de França a 7 de Maio de 1879 e defunto em Uzès aos 11 de Novembro de 1949. A obra obteve (ob, ob) o NIHIL OBSTAT (outro ob) do Cónego José Valdemar Pires a 20 de Setembro de 1993, a menos de dois meses do nascimento da Leonor, em Bragança, cidade cujo bispado era, naquele tempo, de D. António José Rafael, desconheço se ainda é ou não. O bispo António concedeu o IMPRIMATUR a 22 do mesmo Setembro.
O livro do Padre Thomas assegura que a Confiança, sendo uma forma superior da Esperança, radica na Fé. De tal modo, que nos não devemos preocupar com o pão de cada dia. Ou seja: há que confiar no Corvo.


3


Somatório de gazes e cortinas,
o nosso tempo é vaporoso.
Criamos os meninos e as meninas,
do forno sai o galo capitoso.


Calda de açúcar, maçãs molhadas
da geleia mesma interior,
peras avinhadas em dormente langor,
de galinha a canja às taçadas.


É Natal – e os anjinhos,
brutinhos a comer, adocicados,
ao lar sesteiam mui digerentes.


É Natal – e os doces vinhos,
p’lo ’quenino cálix bebericados,
dão paz a estas horas diferentes.


4



Tenho dias em prosa, noites em verso.
O meu mundo nem sempre chega a universo.
É um veículo limitado, este corpo-corvo. No entanto,
é quanto basta para devassar cidades e lances
pensativos dotados de melancolia e léxico.
Outra coisa é nunca ter ido ao México.


Rente à lareira ardente, a paz permite sentir
o desagravo de outras jornadas arrefecentes.
O que podia ter sido, pensando nisso à despedida
da manhã, a vida, o que a enforma e a conforma.
Os amigos, as taças de fruta, a oliveira do vizinho,
a Lenda da Torre de Moncorvo, o honesto estudo,


o homem de cabeça nevada fumando em silêncio,
o café de arcadas onde deixam fumar, o sossego
que a iminente chuvada traz ao coração,
a galeria onde assam leitões, os pátios com nespereiras,
a promessa de ir a ver museus no futuro anterior,
a minha Avó adormecida no húmus desconhecido.


Terra de cortinas e fumos, pântano vital,
a minha vida há-de às vossas semelhar-se,
que de contribuições mais é feita que de
retribuição em conta. Assim seja, pois sempre
assim tem sido, na minha como nas vossas
vida e vidas. Somas pagas e contas devidas.


No chão primacial assenta o humano asfalto,
trilhos numerados que a mediações levam
ou deixam ir. Litorais arborizados bramam
fulgurações e adamastores fantacinemáticos.
Viva, a imaginação aumenta o viver, se
calada a pessoa se projecta e vive mais


dentro. O olhar no lume, a cabeça alhures em volutas.
As neves perpétuas de uma espécie de paz,
a solidão benigna da criança que envelhece
em prosa e em verso e em verso e em prosa,
a rosa do olhar no rosal do lume, um
dia santo sesteado sem fazer mal a ninguém.


O que podia ter sido tem a ver com este rio.
O Joaquim, o Fernando, o António, o Abel,
a Conceição, a Odete, a Sílvia, a Teresa,
as casas fosforescendo ao sol limoeiro da matina,
Joaquim e Conceição tiveram um menino,
o Abel e a Sílvia, uma menina.


Para bandas de S. Martinho, o cemitério novo
é estaleiro ainda, dormem as máquinas onde dormirão
os mortos amados. Breve será campo-santo de gente de mármore,
as décadas trarão e hão-de levar os poemas
futuros, os romances terminados da pobre
multidão viva ’inda ao momento em que escrevo.


Nunca ter ido ao México senão em mente,
mal não tem. Hoje por bandas de Coimbra, amanhã
aos pés de outro castelo, tanto conta. Mais
do que o périplo do organismo sólido, marca
o verso atingido, a urdida prosa, acesa a
lareira em dorme-ardência mui pensativa.


Como um plasma (uma linfa de ninfa), a melancolia
ajuda a entretecer a teia de referências: a cabeça
como pólo norte do coração, o pacificado sexo
qual equador dos hemisférios da infância e da
senectude, onde ardem os motivos, a genealogia,
o vago avô galego, os irmãos do Pai, os pátios


de nespereiras e latas oxidadas e oxidados gatos.
Viajo, na bagagem levando da rua primeira
os gentis gentios mortos verdadeiros: os senhores
Sacramento, Nunes, Gonçalves, Velindro, Paula,
Alcides, Maricato, Morais, Pinto, Botelho,
Borges, Pimentel, Manuel, Elói, Catarino.


O Abel e a Sílvia tiveram uma menina.
A Conceição e o Joaquim, um menino.
Arde o olhar, por vezes, no fósforo amado
que a noite devassa em ardência literária.
Um rio, um lume que corre, uma veia de mercúrio,
a vida pronta a ser significante.


Gabinetes de estética, centros de documentação,
maternidades, cenáculos, estudos sociais,
núcleos sportinguistas, círculos ecologistas,
mandarins e brâmanes, cânhamo e alcânaves,
linhos, linhas e lenhas, animais bonitos
como flores de carne, belas as cabeças animais


nas paragens de autocarros, pelas gares ferroviárias,
em marinas de nórdico aroma, chapinhando os barcos,
devassando a oleaginosa tainha a água densa,
lixeiras em monturo largando fumo e crianças
muito pobres pescando relíquias no esterco,
repleto o coração de léxicos, méxicos e afins tóxicos.


Casinos royais, bailes de gala, lantejoulas senhoris,
roxas emanações, perfumes e suores, tabernáculos,
oráculos, dancerinações, vermutes folheados a limão,
capilés e groselhas, vendedores de gelados, estios
lacados a ouro e preto-e-branco, morte das
professoras primárias, natércias e marcos do correio,


televisores avariados, gatos mansos, nenúfares,
charcos microbiais, penitenciárias sob cúpula,
lúpulo de cerveja, mães de amigos, semáforos,
cabos de alta-tensão, baldes de tinta, calças de bombazina,
bibes azuis, cisnes de gesso, postais,
pornografias da Belle Époque, Strindberg,


o conflito israelo-árabe sumariado por Sartre,
as áleas bosquímanes de Marcel P., as Ardenas
de Von Rundstedt, Bidonville e Zundappville,
Fribourg e Roterdam, Freeling e Van der Valk
e Castang, a Rainha Santa manchada de opas
escarlates como o coração imaginado da raposa,


certo Natal colhemos musgo e ramas de pinho,
ay flores, a manhã cristaleira reverberava lustres, o ar
refrigerava a respiração, tudo era perfeito,
outras famílias sorriam à ventura da novidade
vitalícia de nenhuma morte ainda, ’inda nenhuma
pessoa se nos lhes fora embora, até que


radiofonias em lojas de ferramentas, o Antunes
carpinteiro emaciava ripas, mais havia
taludes de ferrovia, reclamos luminosos marcavam
os 60 para os 70, Dabri, Couto, Rexina, Ájax,
SuperPop, Clock, Primor, Vaqueiro, Knorr,
Pirata, Teobar, Serranita, Canadá Dry, Repimpa,


Laranjina C, Bravo, Petromax, Taunus, NSU,
Campião, Colmeia, Coração, Cergal, Amparo,
Sical, Maggi, Triunfo, Cassata, Peninsular,
Pernambucana, Paraíso, Mìele, Miúra, Sanjo,
Tebe, Olex, Nacett, Digest, BocaDoce,
Fá, Superfresco, Vilar, Goodyear e 333.


As crianças de agora envelhecem como dantes amanhã,
tupperwares sarcofagam restos de consoada,
revoadas de laranjas galgam encostas a baixo,
sinais de trânsito fatiam o vento de fim do ano
fim de tarde fim de dia, cegonhas nidificam
até o olhá-las numa elanguescência anisada,
sextilhas desemaranho do novelo pensadigestivo.


Ao lume, a panela de bom ferro ferve água boa,
a oliveira do vizinho pintalga de cinza o papel-cenário
da tarde, amadurece de gelo a roupa no estendal frio,
dezembro ondula como arrepiada pele de lago (lages),
é uma felicidade termos o televisor avariado,
dá para escutar o rumor dos móveis, o falar que as

louças têm entre si no aparador. Poetas galegos
a esta hora amam os filhos que se fizeram, em Lisboa
suponho o Rossio pouco devassado, o mais da capital
é gente da província, taxistas vindos de Abrantes, açougueiros
do Sabugal, arrumadores de Celorico da Beira,
carteiristas de Portalegre, médicos de Soure,


enfermeiros de Tavira, pescadores à linha de Portel,
estivadores da Buraca, estucadores de Mafra,
electricistas de S. João das Tábuas, administradores de Oiã,
imobiliários de Castelo Branco, andebolistas do Barreiro,
clarinetistas da Leirosa, caixeiros de Matosinhos,
ferroviários de Vila Franca das Naves, osteopatas de Setúbal,

cartomantes de Balasar, caldeireiros da Guarda,
torneiros da Torneira, escrivães de Almeida,
locutores da Mêda, freiras de Viseu,
acólitos de Bragança, administrativos de Algés,
modelos da Pampilhosa (do Botão), condutores de Faro,
putas de Silves e vereadores de Lisboa mesma, onde


S. Vicente e mais corvos, à confiança.



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