Tuesday, June 16, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (7)

Fotografia: © Sandra Bernardo

Pombal, 12 de Março de 2009

7

Casa, Souto, 14 de Junho de 2009

Nós e a nossa circunstância – e o nosso domingo existencial, onde a pessoa é cada uma pessoa.

Voragem e revoada: movimentos da mente, gente metalizada nas vias rápidas, ingerindo café-esferovite nas estações de serviço, suportando o absurdo com cartão de crédito.

Um de nós toca a memória activa do social-realismo do dinamarquês Anders Bodelsen, as pessoas comuns (ordinárias, ordinariamente) assacadas pela banca, pela moléstia comercial dos centros-lantejoulas, as flores de plástico, as improváveis tunísias da classe-média.

Outro de nós sofre ainda a vida-vinda à vila dos circos pobres: gente escurecida, leões asmáticos, crianças cristalizadas de ranho, banca-barraca de refrigerantes em lata, farinha frita, o vento batendo bandeiras de lona no ar que vai chover.

O cinema indiano, os rios que mostram às pessoas como ser antes o que depois é: tempo de Tempo: curso, percurso, decurso e discurso, os novos modelos automóveis, a galáxia imperial Paris-Londres-Berlim-Milão, o cinema italiano, o teatro sueco, o inverno dinamarquês, a profusão deíctica da cabeça, a fronteira mexicana, a gente jovem garageando imitações eléctricas do lerdo império pós-1945, orfanatos e falanstérios, escolas de cegos, de condução, de tradução, de estenodactilografia, excel & powerpoint-of-no-return.

Todo um domingo em uma vida toda, tocando com a água dos olhos o labor monástico de Oliveira Martins santificando o Condestável Nun’Álvares – e Eça dizendo do amigo que

“vivia então na sua linda e recolhida casa das Águas-Férreas. (…) aí viveu Oliveira Martins os seus dias mais doces, e escreveu os seus livros mais fortes (…) sem descanso, sustentado a café (…)”.

Tempo. Alimento e veneno. Pousio e fecundação. Horas não contadas na seara mental, em leitura ou em distracção, sabendo os ventos penteando as províncias, a pátria das coisas até onde o idioma é capaz, as crianças fulgurando nos quintais-estádios, a clivagem coragem-temor, nós vivos, sonhar serpentes brancas como leite, contraste dos cálculos diamantinos em frio veludo sideral, mais a doçura tremenda dos crepúsculos de Junho, festinhas de aniversário infante com champanhe a fingir.

Alguns de nós aceitam – e embarcam em – as intermitências narrativas, nutrindo de aparente inverosimilhança diegética o volume prosaico. É apenas poesia, porém – isto tudo –, portanto coisa real também, como tudo o que é, há, não é e não há. Nós ardemos brandamente Em-Ser. As antigas metáforas servem-nos preciosamente: Sono/Morte, Rio/Tempo. O planeta rebenta um dia – e nenhuma possibilidade de termos sido será. Descanso, portanto, portanto serenidade.

O domingo mobila-se de gatos, sedas vivas que andam a quatro numa elegância toda têxtil, felinas cortinas de mansidão dominical.

Por exemplo: rapazes ao lado da porta da Farmácia Donato, conversando sem pressa à doçura do entardecer. Derredor, o comércio costura as existências, a menina que se abastece de lápis na papelaria, o moço que sente vinilmente os greitastites da rádio na loja de discos (Supertramp, The Eagles, Fleetwood Mac, Creedence Clearwater Revival, The Tubes, April Wine, Rory Gallagher, Peter Frampton, Frank Zappa, Peter Tosh, The Yardbirds, Procol Harum e Alberto Ribeiro), as senhoras deliciadas a chá e biscoitos de canela na Central, as empadas como frutos ígneos, o senhor caixa bancário muito limpo, de gravata verdescura, de uma correcção gestual que chia como papel, o homem do quiosque separando facturas, o da Casa da Sorte fumando à porta a pensar no casamento da filha, o padre carrancudo que passa migueltorgamente entre autocarros, a Rua Corpo de Deus subindo humidades de bacalhau com grão-de-bico, o senhor Peres ourives ouvindo o noticiário desportivo do transístor a pilhas azuis, um dos rapazes da Donato dentro do meu coração, inquilino perpétuo.

Noite. Televisão. New South Wales, Austrália. Início da década de 70/XX. Baker, empregado temporário de quintas agrícolas, ex-recluso. Crump, comparsa de prisão, colega de trabalho e crime. Estrada de Narrabri. Um rifle. Simulação de avaria mecânica. Ian James Lamb dormindo à beira da estrada numa carrinha. O detective Barry Fay recorda-se de Lamb. Lamb é imolado a tiro, involuntário justificador do nome-anho. Bald Hill Road, abandono do veículo de Lamb. 1973, Melbourne, corridas de cavalos. Dinheiro para apostas? Vinte dólares roubados a Ian Lamb. Virginia Gay Hokke, Collarenebri, Morse por casamento, 35 anos de idade. Brian Morse. Noivos. Cônjuges. Ginny tinha 20 anos. Brian recorda-a. Casamento em fins de 1959. Collarenabri, Nova Gales do Sul: casa própria. Hoje abandonada. Então, casa de família. Brian e Virginia, três filhos: Eloise, Adrian e Robbie. Vivem em paz. Os anos passam. Allan Baker faz lista de quintas a assaltar. Rio Barwon, perto. Tinha havido tempestades. Brian não vai para os campos, leva as crianças para a escola, vai tratar de assuntos à cidade próxima, Moree. Os dois assaltantes penetram a propriedade. Tomam a senhora por refém. Também roubam três espingardas que havia em casa. Horas lancinantes para a senhora Morse. O primeiro nome de Crump é Kevin. O segundo é Garry. Rumo a Queensland. Virginia vai vendada. Implora a libertação. Crump guia, controla a quilometragem. Estão a 300 km de Barnarway. Param. Atam Virginia no mato. Cordas, pernas atadas a árvores. Violação por turnos. Quatro dias passaram sobre o assassínio de Lamb. Cadáver e carrinha continuam por descobrir à beira da estrada de Narrabri. Gourley, um trabalhador, descobre o corpo. Alerta a polícia. O detective Bull acorre ao local. Não há impressões digitais dos autores nem documentos para identificar a vítima. Noite à beira de uma estrada secundária. Bob Bradbury, superintendente de Sydney, é chamado. O senhor Morse telefona de Moree para casa. O pequeno Adrian diz-lhe que a mãe está ausente. Brian dá por falta das armas em casa, quando regressa. Começa a entrar em pânico. Rapto é evidente. Margem do Rio Weir. Os criminosos tiram a senhora Morse do carro. Repete-se a dupla violação. Decidem matá-la. Baker hesita. Crump dispara. Ou éao contrário? Atingida no rosto. Atiram-na para o rio. Queimam as roupas dela. Regressam ao acampamento em Bogorvilla. Intensas buscas por Virginia. Crianças do casal levadas para casa de vizinhos. Muita polícia, helicópteros até. Alan Doyle é um dos investigadores em acção. Muita gente a ajudar. A rádio colabora. A fotografia da senhora aparece nos jornais. Bruce Johnston, outro investigador em campo. O cadastro do ex-recluso Allan Baker vem à tona. Crump e Baker trabalham para disfarçar. Mas voltam a tentar roubar. Assalto corre mal. Polícia persegue-os. Perto de Maitland, a 160 km/h. disparam em andamento contra a viatura policial conduzida por Bill Millward. O agente é atingido, bala sai perto da têmpora esquerda. Sobrevive. Mais carros da polícia até Woodville. Tiroteio. Os criminosos ocultam-se para lá de salgueiros fluviais. Debaixo de água, respiram por juncos. São finalmente capturados. O canal faz intervalo para publicidade. Novembro de 1973. Tempo. História. A polícia verifica as armas apreendidas. Uma delas é uma 22. Steve Liebmann narra a história. Polícias seguidos por jornalista, vão até ao local do Rio Weir onde terminara a senhora Morse. Percepção do sofrimento suportado pela vítima. Perturbação dos agricultores: mulheres e filhos costumavam ficar sozinhos em casa, ninguém sentia necessidade de trancar a porta. Collarenebri: serviço fúnebre, centenas de pessoas reunidas para última homenagem. Junho de 1975, o juiz castiga. Chama-lhes “animais obscenos”. Prisão perpétua. Recomendação de clemência futura nenhuma: “Never to be released.” Prisão de alta segurança de Long Bay, subúrbios e Malabar, Sydney. Anos passam, recursos acumulam-se. O governo de Bob Carr assegura legislação anti-libertações controversas. Animais estigmatizados. O viúvo sente-se reconfortado por saber que os algozes não poderão ser libertados. Não? Celebrar com dignidade a memória de Ginny. The End.

Mariposas: Sylvia Plath e Carson McCullers.

A data do hattrick de Rodney Marsh, aquando no Queens Park Rangers, contra o Birmingham City: 17 de Outubro de 1970. curiosidade: o guarda-redes do City, Mike Kelly, tinha alinhado pelo QPR entre 1966 e 1970, precisamente. E mais: o dia em que Marsh lhe marcou três golos era a véspera do seu 29º aniversário. Um senhor chamado Robbie Fields diz-me que Kelly casou mais tarde com a viúva do defesa-direito Dave Clement (1948-1982).

E – tanto tempo antes – Aljubarrota e Valverde, Frei Nuno de Santa Maria, hóquei-em-patins, corregedor de Santarém, um rapaz galês do mundo da canção chamado Tom Jones como aquele romance de Henry Fielding (que morreu em Lisboa a 8 de Outubro de 1754, um ano antes do Grande Terramoto), carreiras reinventadas, Van Helsing em Paris na dobra do século, mais coisa menos coisa, Sylvia em Londres, Carson ao impiedoso sol de uma main-street qualquer do Sul, a Kidman descalça pela casa de chão de madeira, fogo escuro na noite branca, ilusão pentagonal de uma estrela tida na infância por companhia, ler Drieu la Rochelle, ler Joaquim Paço d’Arcos, merecer o pão mental do sono.

Não tenho, claramente não tenho, quaisquer ilusões. Estou veterano, não sou feliz nem infeliz nem créu. Resgato datas e nomes do Rio: crimes, mas também bondades; selos, mas epístolas também. Recentemente, aliás, redescobri correspondências muito antigas. São cartas que me não eram dirigidas. Encontrei-as em móveis envelhecidos a cujas gavetas a infância não volverá. Lê-las-ei nos dias de Junho, na casa quase despovoada, em algum café de província dotado de abandono e sossego. Há uma magia nisso, sinto-a já por antecipação: ler palavras que não eram para nós escritas por alguém que não éramos nem fomos. Encanto melancólico dessa literatura ínfima e íntima, humildade e melancolia casam bem. Eu sou um de nós – e um de nós quer em mim ser uma espécie de arquivo municipal, um baú de couro onde cartas, crónicas, datas do futebol e dos crimes australianos, escritos de parede, de sentinas públicas, de prospectos, de posologia fármaca, de versos até. Varandas a dar para a vida, é isso. Bosques alinhados como pentes de balas, jogo claro-escuro do horizonte, serras a que desceu a constelação pobríssima do casario, Portugal través tudo isto por nossa condição. Desejo esta partilha – pátria universal, se bem que sozinha, de vozes, um pouco muito pouco antes de amanhã e de ontem, infinitesimal ontem.

Um homem chamado Trent, um chamado Queen, um Bentley, um Salgueiro, um Navarro. Os ofícios como grafias activas. O carpinteiro Miguel é entendido em alumínios e música. O filatelista Kaye trabalhou sempre nos Correios. Lautréamont é dos tais que mais são citados que lidos. Supervielle merece ser retrazido a lume: foi um poeta importante. A família Claro dava-se à panificação. O senhor Sacramento era madrugador, cinco e treze da manhã levantava-se ao canto do galo. O filho adolescente de Travolta morreu a um 2 de Janeiro, dizem. Jeremy Brett combateu corajosamente a viuvez e a depressão maníaca: luta, luta e lítio. “Trazer o Herculano ao peito” (recorda Oliveira Martins) foi moda no Chiado de Oitocentos e tal. O Convento do Carmo foi de difícil alvenaria. Uma sensibilidade por assim dizer radiológica à poesia do mundo. A cofragem é uma tessitura. A Hogarth Press, também. Um de nós deita-se comigo nos meus olhos, quando a noite afaga de flanela os pés. A posteridade não foi boa para Neville Chamberlain. Sabóia, Lorena, Alsácia, Floresta Negra, Ardenas, Dachau. E o golpe contra a fábrica de água-pesada na Noruega. Redes e redes de agentes, capítulos gélidos, casamentos desfeitos, cigarros sem filtro, Montgomery & Rommel, belas casas de madeira desenhadas no ar com quartos arrendados a viúvas de gajos da Marinha e a filatelistas celibatários aposentados dos Correios.

Bill Evans em 1964: a natureza armilar, por assim dizer armilar, da música fluindo matadora de toda a ânsia. Leve dança, por baixo, das cortinas da sala, que a respiração da casa quer tremular com silenciosa graça. Lembrança do Reduto Bar, do Café Combinado, da Casa de Pasto O Submarino, da Churrasqueira do Mondego – este corpo com menos vinte e cinco anos, o cetim das manhãs justafluviais, o público vigorando a cidade, polícias, pombos e estátuas, professores, caixeiros e cauteleiros, tremoceiras, ourives e velhos. Corpo cidadão, jovem, franco, perturbado já pela evidência descomunal da linguagem, da alvenaria eclesial, das lojas de panos coloridos, das putas à porta da torrefacção de café, ao Paço do Conde. O Nemésio de fins de 20/XX comendo o seu meio-bife no Café Santa Cruz, longe ainda do húmus último de Santo António dos Olivais. A correcção cavalheiresca de Bill Evans: por assim dizer, à Ribeirinho.

3 comments:

Gabriel Oliveira said...

Bem puxado, o Evans. Paixão repetida em 2 posts. Comemorou-se em Maio os 50 anos de Kind of blue (disco que tem andado no carro desde aí - por efeméride -, até agora - por gosto), onde se traduz a curta passagem de Evans pelo sexteto de Miles Davis. Para além do Kind of blue, paira por lá (pelo habitacional carro) um triplo de Bill Evans. Boa onda. Continuo a ser um "ferrenho Brubeck", mas Evans tb encaixa muito bem entre os "da fila de cima", no porta-cd's...

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Yes. Esta malta do jazz a sério é uma alegria, Nuno.

Gabriel Oliveira said...

Outro motivo para eu ter dificuldades em largar o Dave Brubeck prende-se com o "seu" saxofonista. Um Cannonbal Aderley é muito bom, um Coltrane é muito bom e exuberante, mas... aquele Paul Desmond... que maravilha... tão discreto, e tão sublime... e não me refiro só aos malabarismos de um "take five". Todas as interpretações do Desmond apresentam qualquer coisa de sobre-humano. Uma áurea qualquer que não sei explicar. Anda a tocar no carro agora um magnífico "Time in" (depois de um "Time Out" e de um "Time further out"), com prestações maravilhosas. Uma alegria, como dizes (e bem), Daniel!