Saturday, June 13, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (6)

Página do misterioso Manuscrito Voynich

6

10 e 11 de Junho de 2009

A nossa gente é proprietária da nossa vida, a que pertencemos.
Também pertencemos aos clarões ilusórios do conhecimento.
Andrew P. Buchanan, o falso anjo deveras armado, o assassino de um “ídolo da comunidade gay”, um tal Gianni Versace: um clarão, dois tiros na cabeça, uma ilusão: do outro lado do mar, em infâmia e em ultraje.
Terminal do Aeroporto de Logan.
Plaza. Normandy Plaza Hotel.
Revistas de moda, ganchos de cabelo, copos de esferovite com café.
Mil informações por dia, todos os dias.
Fernando Carriero.
Collins Avenue & 53rd Street.
Verão de 1997.
Mil informações.
Entretanto, amamos em serenidade os valores não flutuantes.
Presunção, egoísmo, gratidão & gratificação, monismo e demonismo.
Clarões psicadélicos, gente nada especial na base de escaladas de terror, a solidão ante-televisiva dos longos domingos, a acumulação de dados, Robert Plant & Alison Krauss na brincadeira, James Patrick P. em 1957 na BBC 1 a dar-lhe no skiffle, corredores sem fim, sons como tubos de luz aprofundando céus interiores, a pré-história nazi da Puma e da Adidas, a cerveja preta içada ao desespero irlandês do pleno desemprego, os muitos iscariotes do Eire e do Ulster, o Lago Michigan em 1875, 27 de Novembro de 1875, Ben Helton é amigo de Rod Stewart, o escocês feliz, Penny Lancaster também é nome de gente, Creem é nome de revista e a Creem compensa, ao longo dos domingos há poucos quiosques abertos para magazines, chocolates, cigarros Dunhill e selos temáticos, a lua amarela ardendo fria no céu numismático, Roderick David.
Atitude íntima, pensamento cursivo, o suporte da pessoa dentro da pessoa do eu, a espiral, Jeff Beck, a disciplina antónima dos The Faces, a curtição química das sensações ao sol que se recorda vermelhamente nas pálpebras, um gorro de lã azul-escuro, camisa estampada de leopardo, Ron & Rod, P. & P., fonogramas emocionais balindo no escuro das manhãs escuras, palmeiras acústicas sofisticando a solidão universal do telespectador, as avenidas passeadas por ex-mulheres de ex-homens em ex-domingos, George Young, Kenny Dalglish, Ian Rush, Alice Cooper, Carlos Malheiro Dias, Maria Amália Vaz de Carvalho.
Coices da hipergrafia na serenidade, por felicidade. Devastação mirada de quadros-janelas, velocípede enciclopedista cumulando de ped-al-egrias o curso da solidão multitudinária, Cozy Powell seguríssimo, profissionalíssimo, sangue na estrada, como se chamava aquele programa de antigamente, quando o mundo mágico era a preto-e-branco como de facto o real é, que raio acontece aos bateristas, Cozy Powell, John Bonham, Keith Moon, raio, bolsas de retorno muito ideográficas, Phil Ramone & Ray Halee, nas ínsuas as almácegas, as palavras adoçadas pela paciência monástica, tão humana, do leitor.
Resgata-se do papel o filão de cristal de que manam sem mútua segregação os mortos e os vivos, esperam-nos, os papéis da casa em casa nos esperam, coisas europeias acontecem na solidão mundial que eles celebram fabulosamente, os papéis, Stanley Matthews, Vogts, Hoeness, Krol, Kaiser, Jongbloed, Osvaldo César Ardiles, Cuellar, Altobelli, Arconada, Riva. Só italianos nº 1? Buffon, Pagliuca, Zenga, Zoff, Toldo, Tacconi, Peruzzi. Só alemães nº 1? Tilkowski, Turek, Maier, Schumacher, Ilgner, Köpke, Lehmann.
E então 12 de Maio de 1979, Gunners vs. Red Devils, 3-2, em Wembley, claro. Cinco, seis, sete: 5 de Julho de 1982, 6 de Novembro de 1982, 7 de Junho de 1970. Julho/82, em Barcelona, o dia de São Paolo Rossi – Itália, 3 – Brasil, 2. Novembro/82, o dia de Santo Ian Rush, quatro tentos no Everton, 0 – Liverpool, 5. Junho/70, aquela defesa do Gordon Banks no Brasil, 1 – Inglaterra, 0, em Guadalajara.
Havia e deixou de haver Tommy Bolin, ai Tommy, 25 anos é lá idade para morrer!? Mais te valera ter sido Marc Allégret, antes e pós-André Gide, sim. Cuidado com a heroamorfina, menino e menina. Uma paciência assertiva, a de Bernard Pingaud ante e pós- Leonid Leonov, certo? Sim. Assim graficamente “os que melhor têm compreendido Roma”, que David Mourão-Ferreira fixava em 1968: Chateaubriand, Valéry Larbaud, Coventry Patmore, Alexis Curvers. Ai as lápides, os nomes-lápi(de)s, os nomes-datas! David onde morreu Keats (Piazza di Spagna). Um português decentemente italianizado em vilegiatura, há quatro décadas, nosso tempo de ninguém. David circunscrito ao quadrilátero encantador: Piazza del Popolo, Piazza Venezia, Stazione di Termini, Porta Pinciana. E o menino James Patrick Page, uma década antes, dizendo-se futuro investigador de biologia para descobrir a cura do cancro: isto aconteceu na Humana Idade. Um português leitor de jornais que abrisse, a 8 de Junho de 1967, o Diário Popular, teria João Palma-Ferreira, outro viajante (e grande tradutor de Joyce para português de Portugal), a propósito do Mourão-Ferreira-ensaísta. Este amarelecer de papel, Pieyre de Mandiargues & Julien Gracq (aliás Louis Poirier, 1910-2007) referidos na grega Xylocastron a uma francesinha de Poitiers, gentil lésbica talvez. Mais o definitivo senhor Erich Kästner, que brindou as crianças do futuro pretérito com Emil Tischbein – Emílio e os Detectives, do encanto de David M.-F. em pequeno, sem esquecer as ilustrações de Walter Trier. E a (con)sagrada Montanha-Alma em Heidelberga? Heilingenberg, nome que David fixou depois dos celtas adoradores de Visucius, dos germanos de Odin, dos romanos de Mercúrio e dos monges cristãos do século IX:


“Guarda sempre Ítaca no teu pensamento,
Aí será o teu último encontro”,

Cavafy, pois claro: aos anos que este homem nos oraculiza a todos, mesmo os que o não sabemos. O mesmo David, feliz autor disto dito a si-ele-eu mesmos:


“Apesar de tudo saíste de Micenas com um peso de pedras no coração.”


E não ver senão em palavras nossas o mármore branco de Carrara dando corpo à escultura de Stefano Galleti (1882-1905) que uma senhora inglesa, feliz de o governo de San Marino a ter feito Duchessa di Acquaviva, doou do seu dinheiro à Piazza della Libertà, em 1876. A senhora chamava-se Otilia Heyroth Wagner – alguém que foi, como David foi, como nós e os nossos teremos sido, Marsh de Rodney e de Jean.
Na tarde solar da aldeia portuguesa, a passarada timbra açúcares de música. Quase nenhuma brisa. Em torno, existe-se. Muito se visita sem sair de casa. Xavier de Maistre e Almeida Garrett. Não passaria a branco-de-Carrara o granítico Djugashvili, vulgo Estaline, mas acederia a fixar em tanta tonta tinta permanente um tal quinteto, não de jazz nem de hóquei-em-patins: Cambridge Five, a saber: Donald MacLean, Guy Burgess, Anthony Blunt, John Cairness e, claro, Kim Philby. David Cornwell veio do frio para que soubéssemos mais, para que mais profundamente adentrássemos a Desumana Idade, que todos temos, no Tempo.
No Tempo, velhas-glórias como as do Queens Park Rangers: os aríetes Don Givens, Les Ferdinand, Clive Allen, Nigel Quashie, Andy Sinton, Jamie Tollock, John Byrne, Ray Wilkins, Trevor Sinclair, Roy Wegerle, Gareth Ainsworth, Gavin Peacock, Trevor Francis, David Bardsley e o hattricker Rodney Marsh contra o Birmingham City em data por apurar.
Mais modéstia a nossa, no Restelo, com a defesa alinhando Sambinha, Quaresma, Isidro, Freitas e Pietra. Lá à frente, o paraguaio González dos 4-2 ao Benfica. Juvenal, o poeta do I século cristão-romano. Juvenal, o da CUF. Hipergrafia não é problema, pareidolia também não. Aplica-se-lhes a Lei de Zipf – e está feito. Não esquecer Paul Gavarni nem Honoré Daumier. Nem Madame Tallien sem nada por baixo da túnica, se houver guerra que seja púbica, púnica – e única. Rilke, algures:


“Quanto mais longe vamos, mais pessoal, mais única se torna a vida.”


Sim, nós de todos e a de nós todos.

1 comment:

Manuel da Mata said...

Só uma nota: David Mourão-Ferreira - que teve um sogro com o meu nome - foi um grande mestre e um amigo. Gostava da Itália toda e não só de Roma. Daí que um dos seus romances preferidos fosse a "Chartreuse de Parme" do francês Stendhal, cuja acção decorre no Norte da Itália.
Abraço.