Saturday, June 06, 2009

Sporting Life





Casa, Souto, 6 de Junho de 2009


I

Homens de chapéu e casaco alto como corvos da manhã
perfilam-se, gruas negras, ao longo do cais marítimo.
Fluviais são suas anónimas mulheres esperando-os sós,
ocupadas na cozedura dos caldos entre louças florais.

Bate o tempo maninho mordeduras de água fria,
barcos cervicais sulcam os corvos verticais, os homens
esperados pela solução final ao longo do cais,
pela encosta poente fulgem casebres finais.

Animais confirmam a natureza resfriada do tempo,
portadores de uma ciência primeva, monárquica,
pluvial travessia desliga cidades uma a uma
nas infâncias desportivas estiolando dos bairros industriais.

Manuscritos domésticos arrecadam gavetas iguais
à vida, iguais a termos sido: papéis como peles
fragmentadas, recados de comida no fogão, telefonemas
grilando em vão nas escadas das escalas siderais.

Guisados, coelhos de capoeira, vinho de cozinha,
retratos esfumados dos avoengos na parede da sala,
ao lado a telefonia sintonizada em Berlim-Londres-Praga-Paris,
sais para o irmão-soldado rumo à Guiné de frutos minerais.

Pela boca a podridão herbária das dentições,
quanta dignidade triste a dos homens-corvos,
seus sábados ingleses batendo nas rochas em silêncio,
seus luares a preto-e-branco-e-índigo por Deus, choupais.



II

Um deles é o homem dos lavabos do Casino.
Está ali uniformizado, fornece toalhas e papel.
Recebe moedas, que leva para casa todas.
Doze anos nisto, trinta e seis, para sempre.
Fora do Casino, os filhos ramificam filhos, problemas.
A mulher não falha um caldo, uma rosa, uma faiança.
No Café Paraíso, famílias de fora e café-com-leite.
Vem o tempo dos retornados, passa a inocência.
Voltam da Guiné os soldados.
Ainda há vespertinos.
Os materiais de papelaria cheiram.
Cones de baunilha, morango ou chocolate.
Homens emulam James Bond no entardecer do Casino.
O mar sufraga a colectividade.
Hemingway e Jacqueline Susan, ainda não há pizzarias.
Patilhas e suíças e bigodes do formato de agrafes.
Terilene e popelina, creme-nívea, castelo-do-engenheiro-silva.

Viaja, menino, não olhes para trás nem para a frente.



III

O fumo de pensar sobe gardénias e lapelas, torna-se nuvem.
Georgette está em silêncio pensando uma revista.
René transparece no vértice da sala, incandesce.
Na praça, a banda militar torra ao frio solar.

Isto dá para ser tudo sonhado: todos os homens
como nós, no tempo, refeições domésticas, gelados
para as crianças, círculo-de-leitores e fotogramas,
uma toalha, uma readers-digest, uma moeda, um corvo, uma manhã.



IV

Dele dirão

Teve os seus dias.

Dele calarão as noites.

Também não há muito a dizer de uma vida desportiva,
embora mereça referência a espectadora indignada que subiu
ao palco para esbofetear o actor Kenneth Haigh por causa do
Jimmy Porter de Look Back in Anger,
tem dias.

Vê-se fotografias de ilhas ao sol, mentais.
Ouve-se falar disto e daquilo.
Experimenta-se uma receita que pode ser de cozinha
como de farmácia.
Carros usados, facturas dos óculos, da luz.
Programas de sábado de manhã: tartarugas, pinguins,
cientistas de caqui, esperança no futuro, néon e lenha.

Dele terão dito

Manteve-se nisto dias e dias

e é justo que sim.

Florilégios de cultura geral, Memphis-Tennessee(-Williams),
Muralha-da-China, Darfur, Neurociência, os Bórgia,
o Ramadão e a Quaresma, a Bomba H, Fernando Namora
e Roger Caillois.

Muitas caixas de papelão o guardarão:
pareidolia e Manuscrito Voynich:
entropia e algoritmo:
resistir, guardar florinhas de tinteiro,
a vida é interessante.

Ele acha que

Sim.



V

Todos os homens são James Bond quando fazem a barba,
algumas mulheres também – mas menos.
Uma coisa que entretanto desapareceu: escrever para lá
uma carta.
Agora o que há muito é poemários d’internet
e assim.
Um homem tem de ser o seu mesmo Dr. Não.
Nem que escreva, tem.



VI

It’s a sporting life se a gente pensar nisso um bocadinho
– diz a senhora das couves à mulher do farmacêutico.
Um rapaz de chapéu quadrado colecciona selos ao serão.
O olhar dos gatos fende a parede maciça da luz.
Árvores fotogramáticas farpam o papel-de-cenário crepuscular.
Homens separados jamaicam martinis cabisbaixos.
No quiosque, a beleza do expositor de lápis, borrachas, afiadeiras.
O perfume sofisticado das revistas e dos brinquedos do Bazar-do-Porto.
Do Nebraska ao Montana num Taunus, refeições de café e feijão
como as dO Fugitivo.
Lombos de peixe azuis na água muito verde.
Ouvir falar disto e daquilo, entrar na onda, ser litoral.
Dar-se a brumas matinais, a catalogar raposas eidéticas, corvos
adultos.
Sendo menino, assistir ao regresso do operariado no inverno,
anoitecendo.
Ser uma criança atenta pessoa adentro.
Ser sempre isso para sempre
como o homem dos lavabos do Casino.





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