Wednesday, June 24, 2009

FALAS DE CÃO DE ALDEIA (3-6)

3. SE HOUVE MORTOS

Se houve mortos, há-os.

Fazem parte, ocorrem sem culpa nem vontade.

A aldeia é também de mortos, cada um é seu pensamento nele, de todos.

As casas funcionam como cor, como estrelas rupestres, como cavernas cósmicas.

Os animais funcionam como angariadores do crepúsculo, suportam a piedosa mentira do regresso, têm tudo a ver com as rosas, as hortênsias, as madeiras, os outros em um.

O rio dentro, vivo nos mortos, nas pereiras, multiplicador de aves que sobem fundo a terra aluminiada.

Diz-se aldeia, universo dito: um acampamento de luz em veludo vegetal, com nomes transparentes deixados a escuras mãos.

Se houver vivos, onde as veias abertas, abertas como aves no alumínio dos arrozais.

Preso, profundamente livre por finito.

Todos os mortos são o mesmo animal.

Todos são inocentes como raparigas, azuis de mãos brancas como senhoras.

Se como um rio um coração é.

Que como um pensamento de todos um tem.

Aldeia, corpo de cal e terra e mãos de animais brancos, senhoris, cósmicos, presos, fundos.

Essas aves onde até um cão é alto.

E cada agora como a eternidade possível.

Capela tão pobre, a nossa morte.

Não é tristeza, é a radiação.

Não é se chove ou faz sol, é o Tempo.

É os nomes nas mãos, o cão na voz, a passagem de raparigas toda olhar.

Ser visto vindo, vivo, dentro, com os mortos e os nomes e as madeiras.

4. ESTA LOUCURA SERENA

Esta loucura serena chamada atenção, esta mansa obstinação da vida em aldeia, este pensamento (este passamento) que compreende árvores, ovelhas, abelhas, passagem, frutos, casario.

Mais uma espécie de festa da alba, esse reforço da presidência do céu, em língua de luz aquosa, fímbria de água de sabão, branco, cinza e azul, despertos lentamente os animais já, já novas as rosas de novo, entre hortênsias.

Despojos infantis juncam, agora antigos para sempre, a praia do Tempo.

Crianças encanecidas e rejuvenescidos mortos do nem voluntário ter sido.

Isto de ser em dor mansa imensa.

A simultaneidade da magia e do real no mesmo animal, um em todos.

Economia, geografia, calor, dimensão, entidades povoadoras do deserto dentro.

Um rio lambendo os pés do laranjal, a ponte de pau varando o ar, a tarde enciclopédica que compreende o universo na aldeia, entre a mata e a linha de casebres com anexos para os animais, todos menos as aves e os peixes.

Nomes são o que sobra do ar que varre a terra, entre mortos e vivos, abelhas e ovelhas, entre hortênsias e rosas, lugar do cão no universo, atento e conforme.

Equivalência planisférica da animalidade, da aldeia a si mesma outras todas, uma.

Mancha de pinhal, sombra de lobos, ferros usados em agricultura, concentração de força na pele, luz nos ossos, radiação carnal, vias traçadas a dedo errante, alminhas, oliveiras pensadas por hortênsias, água na fonte à boca do rio vertical, molhadas as raparigas, em lances oblíquos.

Laranja, figo, morto, cão, casal, estrela, via, mata, rumor, simultaneidade, tudo participa.

Pode ser dito de outra maneira, de mesma loucura e em serenidade.

5. QUE O AMOR É TRISTE EM PESSOA

Que o amor é triste em pessoa, um amor de pessoa, como se diz na aldeia.

Que é um acontecimento sem tempo, rosa todo e sem água.

Que embate nas oliveiras, treme e teme as mãos escuramente.

Que não basta estar morto para não ser dele.

Que é como em aldeia seca sofrer o mar, um rio sendo tudo, imitação possível de mar, de amar, de ser amado em árvore dentro como estrela.

O casebre pessoal que cerca o amor, em pó.

Que à terra torna o céu e suas coisas: ovelhas-nuvens, rosa-sol, mortos-vivos, senhor meu e minha senhora.

Na aldeia o amor é como o domingo em cheio no coração.

E um domingo de aldeia é a tristeza em pessoa, que muito equivale à deseternidade de Deus, ao fulgor da febre, à propedêutica passagem, ou seja, a solidão a vau, o pensamento.

Que o amor é aonde não chegámos, que é de onde não chegámos a partir.

Estão aí os apeadeiros ferroviários para no-lo mostrar, de passagem quieta são o motor e a desolação.

Que ninguém vem nem sai daqui, um, da aldeia, mesmo.

Em alternativa, amar o natural, dele o xadrez de troncos, ramos, seixos, sombras de aves, espasmos em cor da tempestade que queima o ar da respiração e o amor que sitiou o coração.

Amar a fadiga humana das ovelhas que tornam, delas a cabisbaixa maternidade, os cordeiros que lobos sonham em sombra.

Uma vez na vida, não pode ser igual o amor ao amor de que nascemos, nós o cão, nós as hortênsias, nós as casas em estrelas, nós as aves pintalgadas em paleta, nós em magia, nós cada um só, mesmo.

6. AQUÉM DE MIM O MEU CORPO

Aquém de mim o meu corpo além de si, adereço da aldeia do mundo.

Vivo, compenetrado, apreensivo, compreendido pelo rol inumerável e enumerável da vastidão: cosmos íntimo, entre bactéria e estrela.

O sono aumenta a abóbada, fá-la ondear em vibração, torna parentes o som e o ouvir.

É um éter vibratório: a luz, o sentir.

Instância azul, lavada a chuva e a sabão, a face do céu é toda telúrica, pele de encerada seda para tecto de animais e de ideias.

Um corpo para o mundo todo, um corpo para também ser, para pertencer também.

Erva, linguagem, o regresso crepuscular dos mais pobres deuses, os animais.

Os cursivos lobos furtivos, como os mortos, os nomes, as veias verticais da mata, o rio de alumínio.

As mulheres ovelhamente singrando cores e campos e trabalhos e sombras.

Os homens humanamente estrelando animais e casas e trabalhos e sombras.

Encanto, magia, serenidade e rio.

Nenhum mar que não de nuvens-ondas.

Nenhuma terra além do (m)eu corpo, entre hortênsias.

Além, o olhar que se mente regresso.

Partida alguma, mas laranjais, mas açucenas que como sinos soam no céu.

Os mortos dentro do coração vivo, alguém, dentro, dentro.

Profundamente futuros, os corpos, os mortos, os lobos, o sol e a lua, as casas ditas a branco para uma cegueira estelar, nebulosamente vistas.

A vau a vida, uma paciência de água, um vento de palavras vindo vivas, aquém-corpo-cão.

E o heroísmo da abnegação, em o Tempo sendo cinza e madeira.

Água que musica os sonhos em cinema, filme dentro da visão dentro, pensada música em cor, visão da pele entre árvores, leite de figueiras, de ovelhas.

Carbono, crómio, manganês, níquel, molibdénio, vanádio, tungsténio: para um coração inoxidável.

3. SE HOUVE MORTOS

Pombal, tarde de 19 de Junho de 2009

4. ESTA LOUCURA SERENA

Pombal, manhã de 20 de Junho de 2009

5. QUE O AMOR É TRISTE EM PESSOA

Pombal, tarde de 20 de Junho de 2009

6. AQUÉM DE MIM O MEU CORPO

Granja, tarde de 22 de Junho de 2009

No comments: