Saturday, June 20, 2009

FALAS DE CÃO DE ALDEIA (2)

2. TINE A AÇUCENA SEU CETIM



Tine a açucena seu cetim de cegarrega, grande é o sol quão pequeno o mundo.
Rostos de raparigas, água todos.
Todas raparigas-ribeiras que cristalinam orvalhos e lágrimas matinais, felizes, inconscientes.
Damas foragidas de pinturas azulam pela arrealdeiador, fragrantes, de muito brancas mãos, gotas de tinta que margaridam o ar do campo, a que me prende a vida.
Frígidas foragidas, damas-margaridas de além-dor: passagem da consciência do provisório da passagem.
Dentro onde as vozes instigam, crocitam, aquarelam, revivem.
Alguns mortos naturais.
Os ofícios doem nos corpos, inclinam-nos para a terra, sofrem o terror da esterilidade.
As mãos escurecem como madeiras, então, de onde vejo os humanos.
Sempre um rio esfaqueia a terra, que borbota arborescências, frutificações, pentes canaviais, prantos salgueirais, maravilhas de paleta cromadas a sol e lua.
A aldeia sobe o casario à noite, faz-se toda céu e diademas, lá onde não chega o humano nem o cão, as rosas, as mansas ovelhas do crepúsculo.
A vida é esta, é isto a vida.
Muito alongo o olhar à flor dos arrozais, à pele aquática deste árido mundo, sofro também em esterilidade, em escuras mãos.
Imagino homens dentro sós, todos eles um.
Vão é nomear a aldeia, que universal e pouca toda é.
Fremem as hortênsias, tremem as figueiras, faz-se cedo açúcar o sol, onde a açucena e onde a cegarrega, que viver é um estio, um só,

meu senhor.



Casa, Souto, tarde de 19 de junho de 2009

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