Tuesday, May 12, 2009

Pode Ser Hoje



Pombal, Figueira da Foz e Casa, Souto, 2, 3, 10, 11 e 12 de Maio de 2009



Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.

Derradeira-se o dia, último rio de si, vem a noite tomando posse das coisas, dos breves mundos pessoais.
Os prédios, tostados a frio, são os possíveis megalitos, verticais cavernas da rupestre condição dantes, em menino, mágica.
Carros acasalados farolinam às cegas pela massa cinza, matrimónios motocíclicos criancinham avòzinhas de regresso aos senil’ares, as ruas pupilam lojas eléctricas, onde os manequins esperam a moção impossível.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


Homens caducados obliteram o domingo, o leixões-académica de serviço, as horas derradeiras de cartão, esquecido o jornal a uma mesa despovoada, sobre que fulgura de baquelite o cinzeiro com quatro beatas (duas borradas de bâton barato). Piscam no lombo da serra os moinhos eólicos, hélices de avião nenhum, contra um céu deslavado a aguarrás. A máquina cafeteira silva vapores arfados, envelhecem no mostrador os bolos rochosos que a segunda-feira de pombos comerá.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


Pombos atiram chumbo ao céu pardacento da segunda-feira, um pouco tempo antes de chover. Preparo mentalmente um chá lauto: de Ceilão, com marmelada portuguesa, queijo fundido, manteiga, mortadela azeitonada, anchovas aneladas de cebola e broa e Carter Dickson.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


A mulher-dos-sacos: heterónima da mulher-dos-gatos do bairro-dito-social. Passagem leve de uma leve angústia: ser impossível ler tudo o que foi escrito em todas as línguas. Impossível – como não viver toda a vida toda. Mordedura benigna do chá muito quente. Espectáculo pluvial: varetas de água-aço riscando com força a cinza respiratória, o aturdimento quase feliz dos cidadãos, o guarda-chuva a cinco euros na loja dos chineses, o nanismo dos papa-reformas a trote para a feira semanal, a televisão matinal tossindo alzheimer lusíada e astrologia brasileira,

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


As árvores envernizadas de sol coruscavam a tarde muito ampla, esta tarde que vivemos tão atentamente. Era perto do mar: e o mar é o sítio que se move, é a nação apátrida de todos os olhares. Gente formigava pela avenida, tocava a areia com as patitas apreensivas.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


Lucidez implacável, impiedosa sobriedade.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


Pacíficas pacientes explosões de cinza: as oliveiras. Mísseis lustrais: os eucaliptos. São 7h29 da manhã e já preciso de salvação. Terras com nomes de santos, de acidentes naturais, de permanências do destino, de desejos. Grandes barcos: catedrais navegadoras, vento, água, ferro, tempo. Outono-me este Maio. Meu tempo: meu ferro. Árvore de ossos, meu corpo, atirador de bandeiras cada olhar. Braços preênseis, mãos gramáticas. Olho os mármores que passam: senhoras lacadas como psychés, cães solitários como príncipes, bêbados mansos embrulhados em sedas frias. Estuário, demolições e movimentos de terra, amaragens por conta, publicações e galerias, promessa de tarde nublada para hoje.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.

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