Thursday, May 21, 2009

Com esta, dois anos de crónicas nO Ribatejo - Rosário Breve nº 104

Fluoxetina

A minha senhora e eu andamos a tomar fluoxetina mas não é por causa das tosses, é por causa da crise, mas não é da crise conjugal, que dessa não gastamos, é da outra, a de quase toda a gente menos os do costume, tomamos fluoxetina porque um médico nosso amigo nos disse para a gente tomar e a gente vai de a tomar como se a vida fosse Abrantes, por assim dizer.
A fluoxetina é um medicamento que parece que faz passar a crise, não faz, mas a gente, a minha senhora e eu, não nos importamos tanto com ela, pois parece que lá em cima, nos nossos sótãos cranianos, as sinapses e a serotonina e a dopamina e outras ninas da neura trabalham melhor com a fluoxetina, é capaz.
Levantamo-nos cedinho e fluoxetinamo-nos a meio da caneca de sucedâneo de café com imitação de leite, ainda a caneca não vai a meio já estamos os dois a sorrir um para o outro como se fôssemos monas-lisas, andamos a sorrir o dia todo como se fôssemos catarinas-furtados, quando à noite vou a sorrir buscá-la ao emprego ela sai do emprego a sorrir para mim e para o resto do mundo, que é onde se dá a crise.
A fluoxetina é uma grande invenção dos laboratórios suíços ou suecos, agora não tenho preciso se de uns se de outros, também não faz diferença, a diferença está no sorriso, como qualquer candidato a poeta autárquico sabe, a coisa está no sorrir sempre e avante, mesmo com a crise ou até por causa dela, sorrir e andor, que se faz noite.
Aquela professora de Espinho que aparece na TVI com voz de telemóvel se calhar também precisava de fazer como a minha senhora e eu fazemos, se calhar precisava, ela e os alunos de 12/13 anos por causa do sexo na Antiguidade e por causa da crise e da Margarida Moreira da DREN e assim, se calhar, por assim dizer, aqui quartel de Abrantes.

5 comments:

fj said...

adorei (onde é que isso se compra?)

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Numa farmácia perto de ti. Exige genérico.

Anonymous said...

Vulgo antidepressivo.Penso eu. De que

LM,paris said...

ando eu aqui a sorrir de graça, o genérico é o que preciso, passa ao fim do filme com se todos se tivessem ido deitar, dormir e eu fico acordada a sorrir, no escuro. Tanto faz.
O Pessoa nao conhecia a fluxecoisa e Xanax coiso. O Prozac ...matava-lhe os heteronimos e a fome. Beijos.
LM

alexandra said...

«Os farmacêuticos aviavam pastilhas contra o problema de ter nascido.»

Quem disse?

A página 30 do livro «licor, sabão e sapatos» escrito por um Daniel Abrunheiro.

Pois a vida é um problema que nenhum composto químico resolve.