Saturday, April 25, 2009

Prosa Tanatonáutica



Souto, Casa, tarde de 25 de Abril de 2009



Como uma pessoa castanha de cócoras: o cavalo.
Perto, duas ovelhas mansas como pinheiros e três coelhos bravos como pinheiros.
Tenho recorrido com frequência aos animais para me situar como pessoa neste mundo nesta vida.
Também me tenho dado razoavelmente com a supuração da memória.
Digo: as carteiras da escola, a velhice tornando cimento os velhos, o musgo particular de certas frases raspadas ao acaso das paredes e das pessoas e dos filmes e, claro, dos animais.
Sinto uma vocação invencível de tanatonauta, por assim dizer e para armar ao parvo.
Sou um fumador de água: sou como tu, que queres ser um animal mais que tudo e antes de tudo o mais.
Estou a falar-te da morte com a vida presa às mãos, as mãos como colmilhos muito brancos, muito poroso daquele cimento, daquele musgo particular.

Há músicas a preto-e-branco como a prosa.
Essas músicas conspiram terrenos que depois obrigam a tomar comprimidos, a pactuar com as gambiarras de estrelas que são os deuses estilhaçados.
O nome enche-me – e ama comigo os meus mortos e os meus vivos.
Somos poderosamente um estaleiro de ontens anuários.
Eu sou isso como sou o nome e o cavalo e como tu.

Pensa por exemplo nas pessoas dos romances policiais.
Pensa nelas fumando chás e relvados e locomotivas e talheres de prata.
Deita milho às portas das maternidades.
Exulta-te em privado como o vento faz numa casa violada.
Um esplendor de cêntimos dá para desfraldar bandeiras e gargalhadas.
Tu e eu como ovelhas, como coelhos, como pinheiros.
Somos clássicos mistérios-do-quarto-fechado.
Somos isso e sentimo-lo nas frases a preto-e-branco-e-castanho.

O açúcar sideral da amargura que nos solve nos salve.
Por graça temos ainda tempo a perder.
Gosto muito quando os velhos levam à boca os pais.
Como a boca do cavalo: soqueira feita de dentes, piano, cartucheira de esmalte, destino da erva e de uma que outra flor.
Os animais que houve no tempo dos mortos: a mentira piedosa de uns e outros se repetindo.

As pessoas trocam sinais de luzes, espermas, facturas, números de telefone, sonhos, consultas.
Não conseguem trocar, coitadas, as viagens que fizeram – muito menos as que as fizeram.
Isto não tem mal – é apenas sábado, a esta hora faz-se tarde de mais para alguém que veio para isto e que, não encontrando o que pedia, foi encontrado pelo que não podia.

Esta foi a maneira que pude para te tocar com a doçura possível.
Sou o nauta: o que veio depois, um dos nenúfares de couro, uma das veias vermelhazuis das cartas anatómicas que havia na sala primária e primacial.

Glaciais ao sol: e cheios de pequeninas manias e humanos: nós, nus, vós, luz, a, ante, após, até.
Ter os domingos por conta, os domingos que urdem catálogos minuciosos de naufrágios não só marítimos.
Apear das peanhas os heroísmos e os bronzes, pulverizar a literatura infanto-juvenil, dizer a verdade às crianças


olhem que agora o 25dabril depois passa
etc


ou ser bondoso como o cavalo é para com as ovelhas e os coelhos e como os diamantes são para com a luz de que são a carbonização duríssima e, naturalmente, sideral e solar e glacial e primária e primacial.

Tu viste outras manhãs e como eu não percebeste logo que as barracas da praia eram o tempo fotografado a sal.
Pensa por exemplo no Relógio da Figueira da Foz, no Rochedo de Brighton, no estralejar de saliva da água mordendo os cascos dos grandes navios, nas sombras furtivas de Odessa, na lavanda escandinava, nos salgueiros que fazem a vénia ao rio que bebem, nos homens dos andaimes aranhando e arranhando a cor das casas, nas mercearias das aldeias com uma velha congelada dentro, nas grandes alegrias súbitas de que às vezes uma praça é capaz fora de uma pessoa, na cabeceira que fizeste do ventre de alguém que tenhas amado em nudez fora deste mundo e de hoje, na Praça do Areeiro com o maluco sósia do Ciccio Ingrassia, na areia da praia da Figueira da Foz agora quente por cima nas mãos e já molhada de fresco por dentro nas mãos – e Brighton e Odessa.
O pugilismo deveria ser obrigatório nas escolas porque o coração é um soco de sangue.
A terra soluça para dar roseiras, tu andas aqui nisto há tan(a)to tempo (a arder) como eu.
Se formos por partes, se insistires muito na comparação de tesouros, olha que eu já vi uma raposa.
Eu já vi três corvos numa estrada municipal devorando um cão.
Eu já chorei à chuva para contribuir.
Eu já estive num hotel presenciado de amantes monásticos casados com outras pessoas de outros hotéis.
Eu já removi tábuas, tabiques, panos e taipais e pessoas.
Tem cuidado portanto com os tesouros.

Poços rápidos como nos sonhos sugam fetos, molham o susto de viver com tanta atenção.
Meia dúzia de frases e está o sábado feito pó, soliloquaz, cheio de amor por uma síntese de mármore.
Os nossos irmãos levam os nossos pais com eles aonde quer que vamos: é o sangue.

Por mim, se pudesse, passava a vida a coleccionar capelas e ermos.
Passava a colecção a esmalte e ia mostrá-la nas feiras aos turistas e aos agentes do poder local.
Como não posso, falo contigo de animais e de tesouros e de barracas de praia com crianças algemadas dentro e de mercearias de aldeia com velhas congeladas dentro.

Isto de estar vivo é como toda a gente gostar de fotografar o mar, de dizer adeus aos barcos e aos comboios, de os figos darem leite como as vacas e as mães – é uma coisa por assim dizer vulgar, embora não banal.

1 comment:

LM,paris said...

querido daniel, nao sei
ser ùtil...dizia o Pessoa,
" tudo sobrou ou foi pouco...nao sei se sinto demais ou de menos...a vida chega a doer, a enjoar...
a dar vontade de dar pulos...
e ir ser selvagem entre arvores e esquecimentos...",
mas estou aqui queda
a ler-te e nao consigo
descolar da luz.
Invisiel fico no meio das palavras, ganham-me e como te disse vejo tudo. Assustador.
Beijos e sempre rosas
por hoje é sabado.
LM