Thursday, June 12, 2008

Três Crónicas

Crónica Mundial - 6
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PEQUENOS NADAS QUE ME SÃO TUDO

O futuro não é a minha religião. Prefiro-lhe, devota e devotadamente, o tempo presente.
Pela cidade, ao sol como à chuva, exerço cada dia o direito ao dia-a-dia. Levo o corpo que me leva: por ruas tocadas de pombas, janelas, mães solteiras, polícias melancólicos e por furtivos esgares da efemeridade, essa nossa incondicional irmã existencial e solteira também.
Em Viseu, o presente é feito dos tantos pequenos nadas que ao resto do mundo enformam e informam: o taxista que destrava o carro para o empurrar sem consumo ao lugar da frente; o empregado do café que trata os fregueses por senhor seguido do nome do senhor; a mulher estratégica que fornece uma fotocópia com o recado-esmola da fome dos filhos; as rotundas também estratégicas que fazem ao trânsito o que o coração faz aos glóbulos e aos sonetos; o cemitério memo-marmorizando nomes agora improváveis a partir de duplas datas comprovadas; o tempo tornando-se granito como uma condenação; e a memória colectiva volvendo-se urdume de tanto esquecimento pessoal.
Escrevo-vos a 10 de Junho, feriado nacional. Faz sol, vai larga e boa a manhã muito alta. O senhor da mesa ao lado fervilha no copo um quartilho de água mineral. A minha mulher lê o Diário de Notícias com a distraída atenção comum aos anjos domésticos. Água mineral e Diário de Notícias enformam e informam o presente. Afio o lápis e olho para o senhor da jaqueta de terilene que passeia a pochette e os sapatos de lona pela rua vazia.
Não, o futuro não é a minha religião. A minha religião é o quotidiano. Em Viseu como no resto do mundo, os meus altares são acessíveis, comezinhos, transitáveis, banais. Passa a senhora com o carrinho-de-bebé-com-bebé, passa a viatura da polícia municipal, passa um cão amarelo de olhos líquidos como ampolas de chuva, passa a manhã.
E eu, caladamente, tomo nota e rezo para dentro o breve breviário da manhã que acaba sem garantia de tarde.
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Rosário Breve - 56 e Contra os Canhões - 11
VIVA O CAMIONISTA PORTUGUÊS, VIVA!

Os camionistas portugueses não confundem o Euro com o euro. Valentes gajos. De facto, uma coisa é o pão. Outra, o circo. A antítese, poeticamente fixada pelo latino Juvenal há tantos séculos, continua viva e segue actual.
Finalmente, alguém em Portugal quer dizer – e diz – um rotundo Não à sanha anti-humanitária do Senhor Simplex. Gosto de ver os camionistas nos telejornais. São gente como todos deveríamos ser: gente que firma e afirma, pela negação, o recado positivo do direito à indignação. A pretexto de dois prédios caídos na América em Setembro de 2001, o mundo volveu-se, quiçá definitivamente, uma fogueira de va(n)idades. O combustível fóssil, mais difícil do que nunca, engendra colossais fortunas particulares e descomunais misérias gerais. Os alimentos básicos, movidos a gasóleo, competem em escassez distributiva com a água, o oxigénio e, até, com a própria luz solar. Entretanto, por aqui, o Valentim “distribui” o Metro do Porto e o Senhor Simplex “fuma” SG-TGV.
Em Lisboa ou em aviões fretados com cinzeiro, o Senhor Simplex quer lá saber de camionistas e coisas assim. Duzentas mil pessoas na Avenida da ex-Liberdade não o movem nem o comovem. Népia. Ele é um “engenheiro”.
Eu e os camionistas portugueses achamo-lo, porém, um desalmado. Porquê? Porque não se pode (melhor: poder, pode, mas não se deve) governar pessoas contras as pessoas. Um mandato democrático não tem de ser uma mina antipessoal. Para mais, nem os camionistas nem eu pedimos ao Senhor Simplex que seja socialista. Exigimos-lhe, tão-só, que seja social. Até porque dois prédios na América não valem, sequer, uma maternidade fechada aqui. Nem dez minutos de têgêvê. Nem um quilo de arroz. Nem meio litro de gasóleo.
Nem um camionista português.
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Bairro Nosso - 4
GARANTIDAMENTE

Vivo num sítio tão parecido com o vosso, mas tanto, que até se chama Portugal.
Umas vezes, dá-lhe o sol. Outras, chove-lhe cópia de granizo. Quase sempre há bola, nem sempre pão. Das creches rarefeitas, filindianam criancinhas amestradas como gansos. Os doutores Parkinson e Alzheimer tremem em esquecidos sanatórios senis. O senhor primeiro-ministro faz “jogging” à Hora-TV entre duas passas de cigarro. As câmaras municipais carregam o contador da água com a lixívia da roubalheira. O filho do Tony Carreira também faz carreira. E ninguém lê Manuel da Fonseca, nem Nuno Bragança, nem Carlos de Oliveira, nem Soeiro Pereira Gomes, nem António Osório, nem Raul Brandão, nem Wenceslau de Moraes, nem Cesário Verde. Ninguém.
Vivo aqui e daqui não saio. Mas isto às vezes dói. A pátria, mais madrástria do que mátria, pode ser um sítio que dói. Tenho conhecido tanta tão boa gente que este país sacro-miserabilista atira ao lixo. Tanta. E tão boa.
Cronico-vos estas lamentações a 10 de Junho – talvez por isso tão fadista me resulte a prosa. Mas é aqui que vivo. Aqui nasci. Daqui sou. Aqui morrerei.
Na Bairrada como no resto/do/país/do/mundo, temos todos de parecer-nos, ao menos uma vez na vida, com o nosso espelho. Sim, com o nosso espelho: superfície de luz em que a esquerda e a direita se canhotam pelo avesso. E em que, por exemplo, cada camionista em luta é meu irmão, entre duas passas de proibido cigarro.
É Junho, o sol voltará. A chuva também voltará. Esqueceremos tudo. A vida passar-nos-á ao lado enquanto assim quisermos. Estes ministros também passarão. Também os esqueceremos. O doutor Alzheimer garante-nos isso. Enquanto confundirmos o Euro com o euro, o doutor Alzheimer está em condições de nos garantir isso.
O Senhor Simplex também. Garantidamente.

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