Thursday, June 19, 2008

Sentido na Pedra

Viseu, manhã de 19 de Junho de 2008



Para os senhores
João Paulo Cruz,
que gosta de palavras,
e Diogo Vaz Pinto,
que também.




Daqui assisto a uma prova escrita: os arabescos da chuva, caligrafia que escreve a impossibilidade de Deus.

Salvar-nos-emos pelo esquecimento, não pelo contrário dele.

Estou sentado numa pedra e viajo sem restrições nem passaporte.

Vejo, nitidamente vejo, barcos azuis à flor muito branca do mar verde – na parede do Banco de Portugal, ao pé da que um agente de polícia segura publicamente um cigarro de mentol e um boneco da disneylândia saído nos hambúrgueres.

Sinto, obscuramente sinto, a cadeira óssea petrificada onde as vértebras desaguam como legos dolorosos, onde me obscuramente sento.

Já não quero dormir dentro.

Este aranhiço no chão: delicado tecelão de agulhas ambulatórias, central de mínimos nervos, múltiplo seguidor da ânsia da vida, no chão.

Um folheto de hipermercado levado trazido pelo vento, volante página do outono artificial das grandes superfícies: acetinada promoção do acém, da língua de vaca lambendo já orvalho nenhum, do camarão pré-cozido não pré-histórico já, da costeleta do cachaço como solta tecla do acordeão de sangue.

Uma manhã rasgada a sol de muito cedo é quanto basta para que a infância, como quem diz adeus de dentro do comboio, me acene de longe: bonita e violada pelos anos, não pela luz.

Senta-te comigo nesta pedra, anda, senta-te, usa comigo calígrafos olhos: escreve chuva, lê porém sol.

Por seres mulher, podes olhar os homens como eu olho as mulheres: furtivas carnívoras formosuras muito dadas a negócios, dentistas, almocreves, bufarinheiros, onzeneiros, ambulantes de salsaparrilha e capilé, mulheres das rendas, fitas, chitas, meninas e bombazinas, escarlates ginjas como maduros corações de miniatura, vendedores de gelo para a sede polar deste trópico de nós dois, na pedra sentados, vendo.

Sim: como vós, persisto.

Se me não persigno nem genuflicto, não é por defeito de respeito nem demasia de descortesia, mas por estar, só, osseamente sentado na pedra, só como uma estátua que o tempo reverdece antes de escuranoitecer.

Aranhiço, aranhiço.

Do fumo de pensar, as volutas arabescam chuvas antigas: as primaciais, as primevas, que bolhavam no pátio de cimento o primeiro cinema ante a última criança que fui.

Que fui, como vós, criança guardada em casa, no pátio chovendo – aí me iniciei na visão, a língua não me chegara ainda em todo o seu poder anihilador.

Estou sentado sozinho numa pedra, falo contigo a vós, acena-me de longe a infância pluvial ao sol.

Em fria almácega (não alma cega, isso não), atira a rã a sua natação, como se nadaram os compassos no papel verde da parada água, tão fria, da almácega.

Negra revoada de lunares morcegos assombra o interlúdio das faias nocturnas.

Pirilampos, lampadinhas de pisca-fogo nos grandes agostos anoitecidos, fulguram estivais gambiarras de natal, ante o menino que vê, preparado para a óssea futura pedra onde agora eu.

Depois, fui tomado pela primacial poesia trovadoresca (Martim Codax etc.), a inocência primeva gorou-se-me como água por um ralo de pensão de águas correntes, conheci um homem sentado numa sala recebendo vozes partidas, partidas de partir para longe e para sempre, de partir de quebrar.

Aprendi-me a ler, ficaram-me esquecidos os pés no chão de aranhiços, esquecidas as costas súbditas do arrepio da maravilha: e o coração se me volveu uma ilha.

Entretanto, passam anos, flúi o dia – e uma só noite assenta sua mesma cosmogonia.

Vem o vento, o vento vai – da pedra, quietamente o toco, como às faces amadas tocam os que ficam no amor de amá-las à face: faces símiles, rútilas, invencíveis, imperecíveis.

Se eu quisesse, chamava, daqui, cristal ao vidro.
Este é o poder.

Aí, daqui, pode a pessoa possível ser um pouco Deus, de manhã, ao sol como à chuva, acenando-lhe o longe uma criança, uma rã, uma copla, um barco azul
de Portugal.

6 comments:

JPC said...

Obrigado. E votos do maior sucesso para o novo romance! Se tudo correr bem lá nos vemos no Chiado A propósito, recebi hoje o convite. Aquele abraço!

Rui Caetano said...

Felicidades.

Daniel Abrunheiro said...

Agradeço-vos. Retribuo-vos.

pn said...

antónio nobre em versão post moderna
belo texto, George!

LM,paris said...

quero ser aranhiço e que andar de lado ao pé da tua poesia.
Também quero esqueçer em vez de relembrar.
Quero puder lembrar-me so das tuas palavras que escreves e fico triste de nao ter maior cabeça de aranhiça.
Que te dizer daniel?
Nao sei como me fazes andar contigo nestas pedras e sempre a tristeza a picar devagarinho , sempre a resvalar e prontos là fico a nao querer e a querer ler outra vez, porque é tao lindo, é tao triste.
Felicidades( gosto de dizer esta palavra) sim, boa apresentaçao no Chiado, queria ser aranhiça voadora supersonica...zàs, tràs, là no Chiado!
Bom, a bica e bolinho na Benard?
Desculpa...chiquérrimo!
é pra ficar ao lado do livro!
Até jà amigo,
a gente bem ladra...beijinhos aranhiçados, a picar assim asinha...LM

AQF said...

belissimo texto.