Sunday, June 01, 2008

Nenhuma Margem


Foto: Caramulo, noite de 5 de Dezembro de 2007
Palavras: Viseu, Casa, fim de 1, início de 2 de Junho de 2008



Todo o domingo estive vivo.
Na corrente do tempo estive vivo como um peixe quieto na corrente.
Devo ter merecido a noite que chegou para ser.
Agora é ainda a corrente mas sem outras margens que a das luzes
longínquas de aldeias na falda da outra noite, a montanha.

A aldeia que tudo torna periferia é por dentro do corpo.
A noite adensa-lhe a cegueira da cal riscada de andorinhas.
Os órgãos cantam na catedral de ossos aveludada de linfas e óleos.
Os olhos enevoam para dentro o rio vivo, suas glaucas margens.
E os móveis da casa conspiram a nostalgia florestal.

O domingo quebra-se em espelhos alheios.
Uma pessoa encontra pelo leito do chão fragmentos de pessoas
vitrificadas em estranho estanho.
Da corrente certeza igual resultam os peixes reconhecidos.
Uma pessoa está na sua cúbica casa de gelo olhando dentro.

De manhã as luzes da noite tentam como nós viver além
do necessário.
Depois os homens do lixo e do leite recompõem a narrativa comum.
Todos eles parecem vivos mas são reflexos de vidros piscívoros.
Estar vivo amanhã com linfas e óleos será de novo periférico.

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