Thursday, June 26, 2008

Ida e Volta

Na estação e no comboio:
Mangualde – Pombal – Mangualde,
manhã de 20 e tarde de 23 de Junho de 2008



A QUESTÃO

A questão é o coração.
A questão é o coração poder.
A questão é o coração poder não poder
com os quilos físicos que o amor lhe
carrega em cima.

A questão é o coração.
A questão é o coração ser.
A questão é o coração ser o que é.
O que o coração é
é ser rasgável como um papel.

Uma pessoa pode morrer de papéis rasgados.
Uma pessoa pode passar a vida a rasgar papéis.
Pelo coração é a pessoa trazida.
Levada é a pessoa pelo coração.

É essa a questão.



ROUPA

Dentro do meu corpo está um homem vestido de mim.
Não sei porquê.
Não sei para quê.

Sei que é tão-só,
tão só,
mais um gajo.



O POEMA ANTERIOR

Peço muita desculpa mas
o poema anterior
não é do lobby homossexual.

É tão-só,
tão só,
mais um poema.



ALÉM

Sempre me pareceu que, por causa do coração, o amor,
e por conseguinte o amar,
tem muito pouco a ver com copular.
Pode por lá passar,
mas vê pouco do que por lá se passa.

O corpo é uma coisa para sair à noite.

O amor é o além da saída.



PÕE-TE A FANCOS

Põe-te a fancos da minha vida,
ó vida.



AVALIAÇÃO DO PROCESSO COGNITIVO

No dia 1 de Novembro de 1981, um gato forasteiro
matou-me o pardal que por seis meses criei
em casa.
Hoje, tenho duas gatas em casa e nenhum pardal.

Aprendi.



AMIGÓPTICOS

Tenho alguns amigos.
São como os meus olhos.

Tenho alguns amigos que
são como os meus olhos
porque nunca os olho mas
preciso tanto deles.



THE OTHERS e LES AUTRES

Há quase trinta anos
um amigo disse-me que
a mulher combatente tem de saber rolar de costas
como as outras.

Ainda hoje estou para conhecer as outras.



FILEIRA

A mais bela ironia é a da beleza.
Assisto-lhe muito.
Uma pancada verdescura de árvores ao sol.
Um rancho de raparigas branquejando na aldeia.
Uma fileira de laranjeiras dando-não-dando-dando-não-dando.
Um gomo de água rebentando na boca.



O. A.

Ganho tão pouco a vida,
que não fazes ideia,
senhor meu,
da despesa a pagar,
eu,
por teres ido
noutro comboio
que não este.

Eu por mim agora sozinho como um cão,
ora se te fosses lixar.

Há coisas que não se fazem.
E tu agora na mesma, como
se não fosse nada contigo,
ora agora.

Vê.
Lê.
Sê.
Ora agora.



LAGÓPTICA

Verdes ainda verdes campos.
A minha vida ante eles ainda.
Pêssegos, cavalos, pirilampos.
Lagoa-olho molhada e linda.

A cegonha larga que giza.
O batráquio mui patriarcal.
A tarde, o tempo, a hora que desliza.
E os arrozais do nosso Portugal.

Ali uma criança morena.
Ali o revisor aborrecido.
Segunda criança ali mas mais pequena.
E às vezes morrer sem ter nascido.

A luz do sol, essa cal total.
Os apeadeiros com as letrinhas da tristura.
E os arrozais do nosso Portugal.
E dormir em pé a toda a largura.



SOMOS DONOS DAQUILO A QUE PERTENCEMOS

Sou dono de um rio.
Chama-se Mondego, como um cão.
Sou dono desse cão de água.
E pertenço-lhe, à passagem.

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