Monday, June 30, 2008

ACONTECIMENTO DE SOMBRAS – um decálogo para trabalhadores do comércio

ACONTECIMENTO DE SOMBRAS
– um decálogo para trabalhadores do comércio


É provavelmente da idade, mas é também verdade factual: cada vez sinto mais que em vez de ganhar a vida o bastante para ter hoje aquilo que de que em seguida vos falarei, a fui e vim perdendo. Trata-se de um pouco de terra onde plantar uns legumes e umas flores. Não tenho. Em vez de tanta versalhada na corneta, quem me dera fazer crescer o cardíaco tomate, a alface rendilhada pelo orvalho, a honesta batata, o pranto feliz da cebola – e algumas rosas. Não. É verdade que tenho a pré-garantia, como todos temos, de um pouco de terra. Mas essa é na vertical, coisa em que, não sei porquê, não estou interessado.
Enfim, hoje trago-vos este decálogo . É quanto posso plantar.
A fotografia foi tirada, já este ano, pela Sandra Bernardo.


Viseu, Café Paris, tarde de 28 de Junho de 2008


1. DEMÃOS

A pobreza económica não se torna mental
enquanto as mãos contiverem as mesmas mãos
nas mãos.
Mesmo muito pobres, podemos esculpir
o outro corpo com as mesmas mãos nossas.
Podemos mudar pedras de sítio – e então é
cidades quanto fazemos
com as mãos mesmas
nossas.

As mãos são-nos as mais mentais coisas que temos para
nós mesmos.



2. ACONTECIMENTO DE SOMBRAS – I

Acontece muitas vezes: a sombra de uma mulher ser
a luz de um homem.
O contrário, não sei.
Falo por mim.
Falo por mim numa língua que já era e será
depois e antes do que falo
para ser.
Pode ser que a minha mesma sombra ilumine
alguém, não sei.



3. SUBURB’ANAL

Levei já, na e da vida, tanto pontapé no traseiro,
que passei a usar atacadores no dito.
E é assim, suponho, que está bem.

Nos subúrbios cresce a cogumelaria empreiteira.
Casalinhos utilitários canarinham em tê-zeros.
Há pizzarias que napolitanam imitações fatiadas.
A vida suburbana desassoalha-se a si mesma.
A rapaziada divorcia-se p’ra casar com outras gajas iguais
às anteriores, o mais é mudarem de zeros e de tês e de tus.

Também já escoicinhei o cu à vida, olha quem.
Não sou gajo de me ficar: é da efemeridade,
efémero nome da eternidade de que sou capaz.

Já ninguém oferece lírios ao próprio corpo.
O corpo gostaria de recebê-los, mas já ninguém.
Há bebés que parecem lâmpadas, não há? Sim.
Gosto de ver a comida nos mostradores das tabernas.
Já me aconteceu ouvir música em olhos.
À noite, gosto de ir à pizzaria canarinhar a vida.



4. ANIMAL DE TIRO

A criança em nós tornou-se um dia animal.
Tornou-se igual às outras crianças.
Anda atrelado aos problemas económicos, o animal.
Um prato de tremoços anestesia-o mais ou menos.
O animal morre de enfarte de domingos vazios.
As impurezas acossam muito, muito caçam.
Tiros na cabeça fomentam a indústria do mármore.
O nosso animal atira à cabeça da nossa criança.



5. ACONTECIMENTO DE SOMBRAS – II

Sou capaz de distinguir numa eterna fracção de segundo
as pessoas que são filhas de outras pessoas
das que não,
nunca foram,
nunca serão.

Tenho esta habilidade por causa dos reflexos das montras:
habituei-me a ter o rosto entre relógios, roupas, morcelas.
Nas minhas costas (à minha frente, portanto) passam:
as pessoas que são filhas de outras pessoas
e as que não,
nunca foram,
nunca serão.

Isto tem-me conferido uma certa aura, também vo-lo digo.
Uma certa oraculidade, vá lá.
Até a minha Mãe me distingue de outras pessoas,
por isso já estais a ver.
E ela foi filha de outras pessoas, não é como
as que não,
nunca foram,
nunca serão.

A sombra da minha Mãe é a minha luz,
como não?
Sempre foi,
sempre será.



6. POSSESSIVA, ELA

Quando algum de nós diz

a minha morte

nunca aplicou tão bem

o possessivo.



7. REGRESSO DA SENHORA DE PRATA

Uma senhora minha conhecida tem por costume
alimentar de prata, à janela, quem passa
para morrer um dia mais.

Conheço-a dentro da cabeça, onde só existe,
o que sempre a poupa de finanças e salva de merdas.
Nunca foi bebé de ninguém: nasceu velha já,
já de prata, entre rendas e gazes de janela,
vendo passar quem passa
para viver uma noite menos.



8. IGUAL

Relicário das tristes formosuras,
fogueira na noite de outro Verão,
meu coração dá-se todo a usuras
por cinza ser sua mesma condição.

Não é triste que assim seja.
Nem é nada de outro mundo.
É decerto igual, no fundo,
a quem for gente que o seja.



9. FALO-VOS AGORA DELA, ANTES QUE REGRESSE

Aquela pessoa é gaja para ser humana.
Acho-a de extrema beleza, mas pode ser que seja
destas merendas de vidro a que ocasionalmente me dedico
para versejar.
Falar-vos-ei agora dela:

ombros de arquitectura tostados ao sol das janelas;
mãos preênseis: e pensativas;
coxame roliço, estremecedor de próstatas;
pés mais ‘inda nus por em brancas sandálias brandas;
costas para palmar cartograficamente;
botão anal defendido por lácteas cordilheiras;
olhar bicolor à transparência solar (mesmo de noite);
unhas de lúcida cerâmica, das que cortam;
as ditas sandálias, de um couro de animal por nascer;
um dia será senhora, e de prata, à janela;
por enquanto, não.



10. MIX

Peço-vos agora que tudo se misture.
O truque poético é deveras simplicíssimo:
uma sensorial espécie de sinestesia idiomática.
Certo?
Vamos nisso:

um monte horizontal corrido a homens-pais;
cães a falar em salas amarelas, mas pretas
no c(h)ão como o céu-da-boca dos cães;
uma cara com duas letras em vez de olhos;
olhos vogais e olhos consoantes;
flores carnívoras serradas por peixes;
mães antigas (muitas) constelando mapas de perder;
mãos antigas (poucas) mapeando perdidas constelações;
veias vegetais onde palpita o açúcar;
a força mosaica das leis e dos roubos;
corar ser um marisco facial;
o Vaticano de repente a meio de uma frase;
um pénis de caramelo mas com muita confiança no senhor;
colecções de pedrinhas em gavetas de vidro;
gente ao vento como folhas orais;
um penso de nicotina colado a um defunto;
algum amor tão bem tirado quão uma fotografia;
o poder involuntário dos mortos que fumaram em vida;
a sequência de luzes labiais na escuridão dos surdos;
um tempo português sem ser contra a comunidade internacional;
o cheiro a madeira dos lápis e da escola primária;
uma mulher pagando a um homem para estar sozinha;
a luz verde dos relvados
(mesmo de noite);
o naufrágio de Sepúlveda e o nosso;
espigas de trigo estilhaçando um vitral de igreja;
o frio dos santos aquecendo a fé das baratas;
as crianças que gritam velas;
os calções tatuados a poluções nocturnas;
a desistência traduzida em português por resignação;
álvaro-de-campos fingindo-se de rap-hip-hop;
e os tomates a galope;
certos cruzamentos da nossa vida com a vida da noite
(mesmo de manhã);
factos que se volvem retratos, açúcares é que não;
mix;
o meu amigo João em Londres sozinho como o céu;
uma prata feita janela para se armar em senhora;
os pirilampos no coração perante um homem-pai;
o homem-pai caligrafando espargos e cães amarelos;
a beleza rimar com a tristeza;
a morte ao pé da morte e a vida ser o outro pé;
num teatro-perto-de-si-a-peça-nenhuma-de-si;
o florilégio acústico dos nossos irmãos, sim;
a capachina coça-sola nos pés-sapatos;
a vulgaridade benigna dos tremoços e do sal grosso;
um fim de tarde queimando tanto desamor, em junho;
matas o gajo ou deixa-lo viver anteontem?
um acontecimento de sombras (III);
o livro da idade é liberdade;
eu uso sempre respeitinho, mas tusso do peitinho;
morangos rápidos numa praia de estufa;
natações de cloro-crianças;
a espera paciente, mas o doutor demora,
aquele cheiro das urgências-ambulâncias;
a súmula de umas horas suadas nos pés;
a pequenina dor que mata para velório de anões;
as rulotes das farturas fritando cassetes de Roberto Carlos;
a pessoa sozinha no palco sendo todas as pessoas;
o toque vespertino da velhice mais matinal;
golpes de vento noruegando barcos de gelo;
o corredor das gatas de caprichosos úteros;
a mania de morrer às dez e meia da manhã
(mesmo de noite);
e a pedra sublingual de sal no idioma,
como se nada fosse, nem fora,
uma sombra acontecida,
por e para mor, e vossa,
ilustração.

Sim.
Mas.

2 comments:

LM,paris said...

Deixei cair o texto virtualmente e vim dizer-te que " a sombra da minha mae é a minha luz" é a coisa mais linda do mundo, como elas.
Encosta-te ao mundo daniel, precisamos de ti.
O reflexo dos filhos dos outros nas vitrines, as maos a apanharem pedras e a fazerem o mundo,
a alface rendilhada...
A sombra do beijo na parede,
se puderes apanha-a, desenha-a e nao a deixes apagar depressa.
Sempre desejei puder desenhar na parede a sombra de alguém, pra ficar so com a sua partida. Beijinhos.
Os anjos nao têm sombra sabes?
têm pés?

Luis Filipe Redes said...

Voltarei cá. Sempre.