Wednesday, December 12, 2007

São



In memoriam Conceição Pinto, desde esta madrugada, desde sempre



Conheci a flor deitada da tua boca,
sopesada a morango a labiação.
Olhos puros como água ao sol.
E uma pele de assumpção litoral.

Soube de tua adiada maternidade,
que resultou em menina de que,
dela represa, sobreviverás ainda,
enquanto ela nos te viver.

Às terças, fechava a Leitaria do Raul.
Era no ano do Nobel do Gabo,
o Fausto por este rio acima.
Abaixo, queria ele dizer.

Voltei um dia a Coimbra, telefonei-te.
Tua era uma voz fatigada de flores.
Molharam-se-me os olhos: sempre
me dei a mariquices telefónicas.

Hematologia não foi tua uma boa escolha.
O teu pediátrico coração em uma horta
trabalhar deveria: outras crianças terias
no humilde nabo, no duro feijão.

Perlaste, e perlas, ácidos cristais
em retinas aqui vazadas de mor pranto.
Mãe do sal, que cloreto se chama, és
um pouco mais ainda, do mármore antes.

Cada 10 de Abril cumprias o que seguirás
cumprindo dentro de quem se esquece que vive
para viver sem esquecimento: dos Pintos
de Seia, uma de oito filhos nascera.

Apodrecem muito os relógios humanos:
alternativa e vã terapia é a poesia, São.
Guardaremos ambos estes versos em uma
gaveta de velha roupa, deitada a flor na boca.



Caramulo, tarde de 12 de Dezembro de 2007

2 comments:

JPinto said...

A Sinha gostava muito muito de ti. João Pinto.

LM,paris said...

bonsoir daniel, un si beau poème qui nous brise telle une lame.
Ce ne sont plus des mots mais une triste et lumineuse( à cause du soleil dans les yeux), plainte.
Triste et lumineuse, à cause des "yeux purs comme de l'eau au soleil...",oui, du marbre glissant sur nous tous,la cécité.
um beijinho, lidia