Wednesday, December 05, 2007

Quatro de Vinte e Uma Histórias Universais



1

É sempre com violência que se ama.
Eu amo violentamente o trajecto que me leva, cada entardenoitecer, pelo parque.
Alto é o anil da Lua.
Enegrecem as árvores e a respiração, simultâneas, contemporâneas.

Alto é o anil da Lua no meu amor ambulatório e doente, ao entardenoitecer.
Agrestes são as rendas na cara, ramos vivos, digitais, que a cara me querem e alcançam.

Ocultamente miro as casas fechadas, na orla do parque.
Mortas casas – mas não vazias. Janelas vi já assomadas de raparigas transparentes, convidadoras e mortíferas, de olhos queimados e queimada boca.

Nunca poderei sair daqui, já sei isso, como sei que não amanhecerá, não neste poema de deliquescente anil.
Sangrado de vivos ramos, orlarei para sempre a noite que me visitou o coração antes que pudesse escrever tanta violência.

2 (de comboio)

Comboios devassam os territórios da minha vida.
Janelas mudam os planos, não o filme.
Casas e pobreza somam-se para meu encanto, assistente do baço clarão da manhã nas coisas.
Ferruginosos ouros são vinhas exaustas, em Novembro.
Cabeleiras canaviais aos ombros das valas.
À passagem por Coimbra, encebola-se-me o coração: tudo é ainda meu, que nada possuo.

Uma mulher aparece no corredor.
É de uma secura de bacalhau, todo o eu dela.
Agarra-se a uma revista como a um breviário frívolo.
É engolida por uma porta, desampara-me verso e loja.
Fora, o sol adentra a bela tristeza do mundo.
Conto laranjeiras e quintais – e velhas e carroças.
Vi quatro vacas brancas juntas como jogadores de sueca.
Revi o pelado do Sporting Clube Ribeirense.

Muito mato, um cedro, oliveiras, duas figueiras.
Vasto e breve – como a vida – é o campo aberto pelo olhar.
Olha: cavalos lendo o chão, comedores: só me deixaria cristianizar por olhos como os deles.
(Talvez eu ame mais a vida do que é admissível.)
Choupos, ulmeiros, salgueiros, chorões.
Dois santantónios e uma senhora-de-fátima em azulejo.
Cinco homens vestidos de amarelo removendo madeira.

Nó do mundo: Alfarelos: tão pouco mundo, tanta a passagem.
Roupa a secar num pátio: notas de cor na pauta glauca.
Aceleração e pinhais, breve alegria e mais cavalos.
Trabalho as transmudações para que a mesmidão resulte.
Conto estar vivo à chegada – aonde for, quando for.

3

Hoje não vos falarei tanto de ouro porque a chuva voltou hoje.
Ela descobriu-nos de novo, a antiga.
Fui aos Correios cedo.
Enviei palavras, talvez algumas me regressem, não sei.
A ver. A chover. A cho-ver.

4

De cima e dos flancos: fechou-se-nos o mundo.
Na oficinauto, dois homens arrefecem: fardados de chumbo como os pombos, cheios de frio e de sono.
O dia fechou-se o dia todo em uma noite sonâmbula.
Deixou de haver vale, não se vê a outra montanha.

Tenho à frente um livro que não leio, outro que mal escrevo.
Ao balcão, um casal novo injecta-se de café com leite e água mineral.
Tenho de aprender a escrever sempre que escrevo.
As coisas aí estão, aqui são: o movimento da terra, a hóstia lunar, a chuva encefálica, o taxista velho, a majestade dos castanheiros, a vida fabulosa.

Ainda nem cinco da tarde são.
Tenho uma colecção completa de apeadeiros com nomes de gente.
Sexta-feira passada, fui de comboio.
Devo ter regressado entretanto, não sei.
Há um homem velho que quer comprar o nosso carro velho.
Eles aqui ligam a televisão durante o dia.
De manhã choveu mais, mas é mais triste agora, viver.

Há outro aspecto: é como na banheira.
Um dia assim, em que de uma vez só o Inverno nasce e é grande e nunca morrerá: é como na banheira: a surdez, a intimidade e a introspecção ardem na água.
Os corpos humanos que o mundo usa para usar o tempo – esses corpos vejo graves, na facção puríssima do anonimato.
Casacos, narizes, botas, sacos, chávenas – os subúrbios dos corpos nus, íntimos, introspectos.
Abertos ao mundo que se lhes nos fecha, eles, os mortais eternos nossos irmãos.


Datas:
1 (Caramulo, noite de 15 de Novembro de 2007)
2 (Viagem ferroviária Caramulo-Pombal, manhã de 16 de Novembro de 2007)
3 (Caramulo, manhã de 19 de Novembro de 2007)
4 (Caramulo, tarde de 19 de Novembro de 2007)

1 comment:

LM,paris said...

Cher daniel, c'est douloureux parfois lire ces textes" a mulher agarra-se a uma revista como a um breviàrio "
depois da secura de bacalhau, eu dela... nao tenho o texto à frente, mas foi assim que ficou.
Os cavalos a lerem o chao, magnifico!
Vous "donnez à voir"... c'est
toujours de l'humain,poreux,
visionnaire, on est le "narrateur" et celui qui se retourne sur lui.
Merci de ces beaux textes.
Um beijinhos de Paris,
cansaços...
LM