Wednesday, December 05, 2007

Mais Quatro das Vinte e Uma Histórias Universais


© Martin Zurmühle
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(Depois das primeiras quatro, mais quatro das Vinte e Uma História Universais. A fotografia não tem nada a ver com o texto, mas tem muito para ver.)



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5

Já vos aconteceu recordar com outro corpo?
As mesmas coisas da vossa vida – com outro corpo?
Não digo – idênticas coisas.
Digo – as mesmas coisas.
Sim?

6

Não tíbia nem umbrosa me resulta a recordação.
Pouco me conta, já, ter uma colecção de apeadeiros.
A viagem é não cessante, não apeante.

Não havia um tudo que nos dissessem em crianças.
O tudo é feito de coisas-poucas: coisas-nadas.
Os cantores na televisão, envelhecidos e portugueses, esmolando um pouco de ribalta em nome de antigas luzes.
Os poetas pusilânimes de todas as gerações, envelhecidos de facto e talvez portugueses, juntando o rabito aos aquecedores eléctricos dos paços municipais para chófágem da gloríola local em portos-de-honra com croquetes vegetais.

Não.
Nem tíbia nem umbrosa.
Também não nívea, nem rosa.
Mas não tíbia nem umbrosa.

7

A tua cara
quem quer que sejas
num automóvel fechado
na noite do dia em que tanto choveu.

A tua cara
traindo a tua fadiga e a tua esperança
a tua pueril força quase desumana
na noite do dia em que tanto choveu.

As tuas mãos
enclavinhadas no volante
como garras ou algemas de prata ou papel
no dia em todo o dia foi noite e água.

A tua passagem
sob os castanheiros
distraída talvez pela rádio ou pelo desamor
na tarde que se nos fechou
quem quer que sejamos
como portas de enferrujado ferro.

A tua transeunte humanidade igual
– mas nunca idêntica –
à de todas as mulheres
que como tu regressam
sem nunca ter chegado
dado
o que chove.

8

Talvez as pessoas façam como com o crédito bancário
– e entristeçam para além das suas possibilidades.
O casaco daquele homem é de bom cabedal
– como de qualidade é a tristeza da cara dele.

Emperucadas de laca surgem mulheres sem razão.
Penso que lhes assentariam mais bem as cãs sérias,
não estas lérias de gelestúdio e minifranças
que tão cerce as volve crianças necrotérias.

Talvez eu seja um gajo cada vez mais decerto.
Talvez fora de facto isto o que viera fazer.
Hoje assim é e nem sequer
preciso de recorrer nem à banca nem à mula manca.

A língua me basta para repertório de dias,
noites me não surpreendem sem falatório.
Chispam luzes no céu em sezões frias
– e eu contando histórias e versos e noites e dias.



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4 a 8: Caramulo, tarde de 19 de Novembro de 2007

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