Wednesday, December 05, 2007

Últimas Treze das Vinte e Uma Histórias Universais

9

A mais recorrente possibilidade é que te tornes uma mulher morta, para além de velha – e que não, não volvas – não para minha mãe, mas para a rapariga que te não quiseram fosses.

Ainda assim.

10

Não botes nomes aos bichos, mas recorda alguma vela acesa no Verão, numa noite de vento perfumada de rosas e de comida, quando o vinho não era a última mas a primeira porta.

Uma volúpia de pés individuais não fechados em calçado respirando na mornidão mineral da tua História Universal.

Não catalogues já a passagem, faz de conta que tudo te pertence, se recordas, e quando recordas, sem que para a frente, ou pela frente, te esperem, de instituições, os muros brancos e a erva desprezada pelas juntas de freguesia.

Alguma amizade por ti mesmo não soçobre – como excessiva não sobre.
De lances marítimos em terras sem mar poderás prover tua barriga – e a teus pés tais, os da mornidão de cozinhas históricas.

11

Chamo-me poucos nomes, ainda assim.
Faço como as pessoas que perante o mar olham o céu.
Aqui onde me chamo o céu é de poças de chuva no chão.
O vento toca as árvores como a gado, junta-as para que durmam, é muito provável que ele as ame e as chame sem nome.

12

Outro dia
talvez.

13

Ponho a minha boca nos muros para saber que dizem os lagartos, como nós frios, como nós solares e mudos.

14

Homem em tua roupa emprestada pela terra, não irás a tempo mas deves na mesma ir.

Marinham-se entre dedos fugitivas crianças arenosas do tempo delas, não do teu.

Viver não tem mal algum.
Uma qualquer terça-feira perante o mar te o pode demonstrar.

Homem vai ao mar.

15

Todas as noites a música me desce como se eu
fosse as escadas que ela usa para subir.

Deito-me ao mar na cama e navego a mais
quieta maré de abertos olhos no escuro lunar.

Uma gota de água conta o tempo de esmalte
e quer ser branca mas aumenta a negra noite.

De manhã conta ainda e ainda canta
só que agora é de chuva na rua das árvores.

O meu trabalho é ouvir música em destelhados salões
atento à pobreza pecuniária dos músicos.

Na imaginação vibram como tangerinas pobres
as lâmpadas coloridas de romarias e recitais.

A muitas aldeias tenho ido escutar a chuva
e os músicos que enriquecem por quatro andamentos.

Todas as noites não vou às aldeias vou ao mar
ouvir a música que a areia conta gota a gota.

Esmalta-se-me a carnação breve – e breviária me
resulta a ladainha contadora de árvores e de gotas.

Todos os dias toco todas as noites
todos os dias é de noite.

16

Água, terra, ar e montanha: e
longe o corpo perante o mar.

17

Nas linhas das mãos a cosmogonia insensata
do trabalhador que vê rios onde apenas linhas
não estrelas
– nem para elas caminho.

Nos olhos cristalizados pelos dólares
as montras do sono adoecido de sonhos:
quem te olha os olhos sem dinheiro.

E a senhora como está a senhora onde
está a senhora de fechadas linhas
e adoecidos cristais?

Toca o vento as árvores como a gado de estrelas.

18

Ficarei talvez um pouco, não longe da Igreja de S. José, em cujo adro de pedra vi outrora muitos cães e uma só cadela, que todos eles queriam por mulher por minutos.

Talvez um pouco na minha cidade outrora, amador já de uma tristeza não ainda mortífera, mas pronta por minutos.

19

Boca angariadora de surdos ditos
auxilia minha mão escrevedora
tal foras a senhora dos aflitos
e de gritos a suave regedora.

Suave linho lie a ti em sono
quanta insónia acorde e reveja
em lã a mais vã lenha de outono
ardendo azeite a frio na igreja

da senhora dos aflitos.

20

Talvez me tenha enganado
talvez não saiba ser bem dito
tal me confundisse o fado
da senhora e eu aflito

na boca angariadora.

21

Alguém parecido com o meu avô
alguém parecido com o meu neto
uma linha de mão
não uma linhagem
uma linha só
de homens sós
de História Universal.



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Datas:
9 e 10 (Caramulo, tarde de 19 de Novembro de 2007)
11 a 21 (Caramulo, tarde e noite de 20 de Novembro de 2007)
Foto: Coimbra, tarde de 1 de Dezembro de 2007

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