Sunday, July 22, 2007

XVI ELEGIAS CARAMULANAS e QUATRO POEMAS SEGUINTES





XVI ELEGIAS CARAMULANAS

I

Na falta do vento do mar
(e do mar)
tenho o vento da montanha
(e a montanha).
Todos vivemos por compensação,
regra a que me não instituo excepção.
Algumas das pedras são casas.
Algumas das casas estão vivas.
Algumas vezes, estou vivo.
Velozes ventos volantes vivificam-me.
De pé sobre uma pedra, sou atingido.
Sentado dentro de uma casa sem luzes, ainda.
Detenho os poderes convocatórios, ainda.
O grande vento é a grande alma das coisas.
Água azul bebe o verde da penedia,
vigiada pelas cabras e pelos corvos.
Numa das primeiras manhãs seguintes
a ter perdido o mar, fui ao campo santo.
As campas não têm nomes, só datas.
Achei bem: este vento levou os nomes,
deixou os números. Este vento toca as
árvores como toca os adormecidos:
achei tão bem, que fui feliz anonimamente.
Outra manhã, o sol daqui dizia:

Pássaros pretos. E água azul. Pássaros pretos e água azul.

O sol da montanha não diz barcos nem rochas.

Pássaros pretos e água azul. E as pedras são casas.

Por todo o lado, altares à ausência,
aliás magnífica, de Deus.
Por todo o canto, traços de animais
outrora legíveis ao olhar.
Nas fontes, o marulhar do cristal,
essa música da sede.
E o vento crespo nas aparições de água,
nos espelhos-de-água, dando ar de beber
aos peixes antigos
que outras elegias me frequentaram
já.
Na loja, as pessoas abastecem-se de margarina,
carvão, velas, biscoitos, sabão, enchidos – e
voltam para as pedras povoadas
de gatos e retratos.
Uma suavíssima amargura platina os plátanos,
tilinta as tílias, cobre as cabras,
curva os corvos.
Se a mim, também?
Também a mim.
Não sobem a estas bandas
as filarmónicas de outros dias,
outros filmes.
Destrapa-nos o vento montanhês,
nós nus de voz ao vento.
Nós nus na montanha, iniciais
e terminais, convocados e
poderosos – e pobres como peixes
elegíacos.

II

As coisas falam.
O estado das coisas fala.
O Inverno fala – e diz:

Esta terra é minha.

Sim, vejo que assim é.
Em pleno julho, nenhuma canícula.
Pianam os gatos suas transidas flanelas
por este pólo a norte de mortos verões.
Em pátios breves os vejo retraindo
o corpo à existência, acossados
pela frígida rigidez do ar.
Mas é tão clara sempre, a vida deles.
Assim é.
Ainda outro dia, morreu um senhor daqui.
Era nonagenário, falava um português sem
arestas – e já só recordava.
Tinha trabalhado todas as épocas de ouro
dos sanatórios da tuberculose.
Tratava da despensa.
Contava-me aquilo de que mais gosto:
a aquisição e a guarda dos víveres:
bacalhau, carne, queijo, manteiga, bolachas,
arroz, margarina também, leite, azeite.
Eu ouvia-o.
Eu ouvia-o porque já não era ele.
Era a idade de ouro a falar.
As coisas falam.
O estado das coisas fala.

III

Também adquiro margarina,
carvão, velas, biscoitos, sabão, enchidos – e
também volto.
Entre mim e o meu corpo há este trato
correcto. Temos uma lealdade a cumprir.
Fomos os dois gerados da mesma aguadilha.
Partilhamos invernos, pensando no
Verão.
Iniciamos ambos os anos terminais.
E achamos bem, nas manhãs santas
do campo
e da montanha.
Vivo ao mesmo frio sol de almanaque
que brilhou já sobre egiptos e napoleões,
indiferente, ele, ao patinhar elegíaco das formigas, nós,
e dos impérios.
Não apresenta novidades.
Mesmo quando nada tenho
(ou com que)
comprar, gosto de matinar
na mercearia, onde futebolizo
algumas graças com o rapaz
da casa.
A capela dobra um sino de cassete.
Nos picos da montanha, os moinhos eólicos
desafiam quixotes de século XXI.
Nunca deixo de me comover perante
a esparsa procissão de, uma por uma,
viúvas lidando nos tanques de roupa
à mão.
Da frutaria, rescende para a rua
o viço seminal das meloas.
Ouço a voz oxidada da chapa
com o nome da taberna.
Acabada a função, vivo vezes em que não
sei o que fazer.
Acabada a visita à mercearia, vivo vezes
em que não
sei como viver,
nem o que fazer
da minha vida.
Geralmente, acabo por ir ao pão.
Tenho margarina em casa.

IV

Quando contigo fui eu um cego a dois.
Tanta mocidade desbaratada em velhos gestos.
Despesas de marisco em esplanadas de plástico.
E uma ânsia por delíquios jaculatórios
que só a verdura láctea podia justificar
– e não justificou.
Isto passou-se-nos. Tomou-nos felizmente
a naftalina separatória, dois
que nunca foram 1+1.
Celebro hoje todos os desquites por falta de alma.
Os versos pagam a tempo e horas o crime
de ter sido moço e imberbe cego de uma
cegueira a que nem os pêlos dos olhos acudiam.
Estou na montanha, longe de mais até
do que era para ter sido.
O vento voa vindo, recebo-o no peito
de mamilos morangos de frio,
duas pedrículas de sangue seco
que não mais, nunca mais, te
darei a mamar.
Todos os eus têm confins austro-húngaros,
que os eus e os impérios à dissipação
se destinam.
Acho bem.
Não me interessas, interessam-me
Carlos de Oliveira e Jacques Prévert.
É pouco, é muito?
É tudo.

V

A minha avó materna cozia broa
noutro século.
Não eram quadriculadas, as manhãs
desse tempo centenário.
Ela fulgia, negra de tão morena e muito fértil,
entre os elementos fundamentais:
farinha e fogo.
Cheguei a tempo ainda de a ver
cobrando ao lume a rápida treva
de todo o humano.
Levitavam em torno dela os sentimentos
essenciais: a branca taça cerâmica, a cadela
castanha, o pote de sal, o chocolatismo pétreo
da lenha.
O fogo, como aliás meu avô também, dava-lhe
na cara.
Em casa deles, um relógio de pêndulo
ameaçava. Quando cumpriu, eu já sabia
escrever.
Pude escapar, condicionalmente embora, ao
destino de caseiro de quinta
de outro século,
que foi aquele em que nasci
e aquele, também, em
que por vezes morro,
morto por broa
dela.

VI

O hotel tinha muito bom aspecto.
Entre nele de correcto ar circunspecto,
habituado às luxúrias e gazes do terror.
Jornais para os olhos, sofás para o recto
e recepcionista com cordura e fáxavor.

Televisão por cabo, limonadas,
ar condicionado e pequenos nadas
que fazem do domingo a eternidade.
Ia sozinho, eu, e desgarradas
as mãos não manejavam à vontade.

No saco, este caderno de poemas.
Eu, em princípio, não ia ter problemas.

VII

E não tive.
Derivei na noite paga entre lençóis
não maternos.
O sítio de mijar era de uma limpeza química.
Mímica fiz eu, ao espelho da barba.
Sintéticos mármores baciavam o ralo.
Lembrei, é claro, erectos amores discretos
que amores não foram, só
discretos e erectos.
Estava tão sozinho quão um
ocupante de quarto,
à noite numerada,
de hotel.
Tinham-me pago para dizer
uns poemas,
eu tinha vindo,
não tinha aonde ir,
tinha os poemas,
disse-os,
no outro dia
(não é hoje,
nunca mais é
hoje),
fui-me embora,
até hoje.

VIII

Há por aqui mulheres dentro de casas.
As casas fecham as janelas (os olhos)
à vastidão gelada dos vales em baixo.
São muitos vales, muitos gelos.
Antes dos homens e das religiões, estas
mulheres eram naturais como o frio.
Comiam frutos como se estivessem nuas.
Há por aqui mulheres que fecham os olhos
e as janelas.

IX

Quanto tempo?
Nem mais nem menos.
Pergunto:

Quanto tempo?

Nem mais nem menos.

X

Fláceis, simplícidos,
agorram tormas pidianas.
Há que vigiar os lípidos,
não beber rum, só chupar canas.

XI

Vivo nisto, não disto.
Existir – existo, mas nisto.
Não disto.

XII

Um dia, uma pessoa claramente.
Tenho-me aprontado para ela.
Não um espelho seja. Não mais uma.
Tão-só um luzir de gente:
ou, entre gatos, um puma.

XIII

Na mocidade, passeei entre canaviais
pontapeando dálias. Gladíolos evanesciam
em fervuras nervosas de cor pintada.
Mereciam as manhãs que nelas se fosse juvenil:
e pueril, pois que me tardava o idioma.

Os choupos da vala pediam desenhos
de china-tinta debruando a claridade.
Enguias ferviam da vala, serpentinas,
ficadas e lúbricas e lubrificadas.
Que eu tive uma rica infância:

na mocidade, o perto era já uma distância.
Veio depois o idioma:
aqui, lá,
estou.

XIV

Um homem olha os olhos do homem
que faz a barba.

Dois países.
Uma língua.

XV

Clarõezitos pretos: pássaros pretos
anoitecem o último céu,
ontem.

XVI

No século XVIII, levanto o olhar no crepúsculo.
O meu cavalo resiste à sede, não está calor.
O palácio é de altanaria, brilha como um sonho.
Tenho uma carta a entregar ao senhor e
à senhora, lá em cima.
É esta elegia número XVI.
Nada mais digo, que vem o vento e me leva.

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QUATRO POEMAS SEGUINTES

Életê

Sei que em móvel branco guardais pequenos livros.
Sei que vossos pés crescem para adultos.
Sei que vossas mãos já vos completam, autónomas.
Não me lembro disso comigo.
Lembro-me, para a frente, disso convosco,
meninas.

Surpresa

Espera, agora é para outra pessoa.
Eu estava sentado na areia.
Ardia todo o sol todo o dia.
Tu vieste em surpresa.
Sentaste-te-me pelas costas.
Sinto as mãos nos ombros.
Eu era o meu mesmo filho,
quando te sentaste, por surpresa,
na areia, ardia todo o dia o sol.
Se ainda arde,
é verso.

Leilão

Agência de leilões vai pôr em praça
bens provenientes de execuções fiscais.

Bens como o meu coração e

fiscais, falências e outros

corações. Entre muitos outros artigos:

motos antigas, a minha avó cozendo broa,
salvas de prata, pratas sem salvação,
peças em estanho, caixas de pau-santo,
baionetas, relógios incrustados em mármore
(sem nomes, só datas), cómodas de cerejeira,
a minha mãe muito nova numa
fotografia muito velha, Cristo de madeira do século XVII,
Cristo de prata, Cristo de marfim, grafonolas,
versos de Correia Garção sobre chá e torradas com manteiga,
um aparador de nogueira, peças de latão,
rádios com válvulas como corações revisitados,
bambumobílias, roupeiros de folha horizontal como
jantares verticais, máquinas de fole fotográfico,
bengaleiros sem dono de casa voltando a casa
por estar morto, um peugeot de filme francês,
máquinas de costura cheirando a mães adoptivas,
outro aparador de outra nogueira, inoxes vários como
os estados de espírito, ondas-micro para o
mar ausente falar mais alto que de costume, baús sem
Érre Éle Stevenson nem fernandantónionogueirapessoa,
mobílias de jantar para defuntos não convidados em vida,
candeeiros de jardim propícios a melancolias relvadas,
fiambreiras de fino corte como a minha esferográfica,
fogões porcicrestados de casamentos rápidos,
aparelhagens sem válvulas ao contrário do coração a que
um amigo meu foi operado, fogões curtos
e quadrados como a vida solteira,
loiça (ou louça, vai de conforme a origem e o arrematador),
um computador a preto-e-branco com António Calvário
no ambiente de trabalho a abrir a boca
em plena década de sessenta,
um ficheiro secreto de material sinistrado
à esquerda com aproveitamento à direita
na Assembleia da República pós-25 de Abril,
uma máquina de cortar relva de tendência
pedófila, telemóveis de ligação
a algarves espanhóis para encontros
com brasileiras de sonho nascidas
em Ibiza, um gerador com asma de
gasóleo para tosses utilitárias e
pouco mais,
uma palete de louça sanitária,
um empilhador e um compressor irmão dele,
um gerador que não é pai,
uma roçadora que não é mãe,
um guincho e um acordeão,
uma outra coisa eléctrica
e um,
finalmente,
último verso.
Arrematado por
aquele senhor.

Um Vento Vem

Um vento vem vindo da planetária
mãe dele. Tosse em pureza arrancos
na cara de um homem.
É um dia, é um homem: e é
um arranco vivo
como não prevista maré.
Que é que ele quer?
Um suicidário sossego sueco?
Uma conformada norueguice?
Um chocolate?
Um bilhete para a Feira de Maio em Leiria?

Este vento da minha vida
quer a minha vida.
Quer a minha vida e
quer a V. atenção.



Textos: Caramulo, tarde de 21 de Julho de 2007

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